SOLIDÃO DE SI E SOLIDÃO DE CORPOS

Artigo do Vicente do Prado Tolezano. 

Poucas coisas são tão ambíguas quanto a solidão, que pode significar paraíso ou inferno.

Na imaturidade, olhamos antes para fora que para dentro. Aos muito amadurecidos de espírito (não necessariamente na idade), a ordem é inversa. Por conseguinte, o terror de solidão se resolve diferentemente.

O imaturo se sente desamparado se não está envolto em mais pessoas, as quais, via ordinária, são “mais corpos” e há até certa preferência que sejam corpos ruidosos.

Essa fase é a do império dos instintos e o mais primário deles é o da fuga e luta. Todo instinto é um dueto em esquema em que cada polo se “aparenta” muito distinto do outro, apesar de que, em essência fina, são a mesma coisa. Nesse sentido mais fino, o polo da luta também é de fuga.

O imaturo, sob a força do instinto, quer se apresente como fugitivo ou lutador nas dimensões gregárias, é um fugitivo de si, num sentido de evitar de “estar presente consigo”, tanto que busca suprir essa ausência de si na turba.

Um exemplo simplório, mas vivaz, dessa ausência de si é o padecimento de grande incômodo (inclusive com senso de desamparo) em ficar só fisicamente. Há quem ligue a televisão em som alto, ainda que não vá assistir nem ouvir, mas para “achar” que há presença por causa dos sons. Ao cabo, é uma forma de não dirigir atenção a si.

É o esquema das multidões. São uma forma de fuga de si. Todos conhecemos quem luta, paga, gasta, implora, dá muito, bajula etc. … só para entrar nas multidões, seja para lá se radicar ou apenas ser visto lá no meio. É a luta-fugitiva, que dá o entorno do dueto do instinto mais basal.

Multidões gostam de multidões. Quem está nelas gosta mais das multidões que propriamente de si. Elas parecem o paraíso e o solidão física representa o inferno!

Às vezes, essas multidões não se compõem de milhares de corpos, mas só de um pequeno grupo, eventualmente até familiar ou mesmo um grupo meramente imaginário.

Precisamente, multidão é uma turba, real ou imaginária, de corpos ruidosos, com aparência de sentido, mas dele substancialmente desprovidos, senão quanto ao sentido de baralhar o autoconhecimento e anestesiar a sensação de desamparo. É claro que essa anestesia tem duração curta e que se encurta mais e mais sucessivamente em cada aplicação, eis que mantém intocadas as causas da dor.

O filósofo francês Louis Lavelle (1882 – 1951), abonado de razão, assentou que a experiência de presença propriamente humana nunca é material ou corpórea. Anotou ainda que os corpos são meios divisivos e que só a consciência, ou seja domínio espiritual, é meio de comunhão ou fusão.

O romancista norte-americano Francis Scott Key Fitzgerald (1896 – 1940), dedicou o monumental O Grande Gatsby para o desnudamento do terror da solidão e da pseudo superação por proximidade física de pessoas pela oferta de festas de pompa. Gatsby, o personagem protagonista e festeiro, só aumentava a carência de si diluindo-se naquelas multidões que ele mesmo convocava.

A maioria não tem o dinheiro do Gatsby, mas vive solidões de si meramente anestesiadas por grupos tal como e ele vivia e nutre a ilusão de que se tivesse bastante dinheiro, então estaria rodeada de mais, mais e mais pessoas, sem qualquer possibilidade de solidão. Leda imaturidade desta e das demais sendas materialistas!

Se a maturação existencial ocorre ao ponto de superação dos instintos basais, os impulsos interiores predominam em relação aos condicionamentos meramente ambientais e a turba humana pode implicar exatamente o inferno e, a solidão física o retorno ao Éden.

Em graus diferentes, todos nós somos estranhos (desconhecidos) para nós mesmos e temos elementos adversativos internos, que nos fazem falhar à vontade. Pode se chamar isso de fragmentação ou dissociação. Platão (428 – 348 a.C.) já apontou esse fenômeno e o sugere como fator divisivo entre a liberdade (menos dissociação) ou dependência (mais dissociação).

Esses elementos interiores desconhecidos e adversativos podem ser chamados de “diabos”, da cepa de “diabolos” tal como “aquilo que divide”, não como um “homem vermelho maldoso e que porta um tridente”, apesar de que, em comum, é desses elementos que vem o mal.

Morremos de medo de ver nossos diabos, ao ponto de que se ficamos sozinhos, no sentido de dizer que “se ficamos sem nós mesmos e aí urge a compensação com diabos” de fora, sem que estes tenham as aparências respectivas. Para redundar: medo de solidão física é medo de si mesmo.

Toda consciência é, acuradamente, “consciência de si”, de conhecimento e afirmação de um eu que está em si e no mundo também, mas não de um eu que seja propriamente as suas relações no mundo, como sói ao caso dos egos imaturos.

Toda maturação é um processo de expansão dessa consciência de si cumulada com a integração dos elementos dissociativos interiores.

Quanto mais ativa a consciência, maior a existência própria do eu, menor o temor de desamparo e, portanto, menor a dependência das multidões. Isso porque a consciência tem natureza de um diálogo entre várias vozes interiores a nós, incluindo aí as tais “vozes diabólicas” próprias. As vozes de fora da consciência poderão soar até como um ruído que incomoda o diálogo interior.

Se este diálogo interior fica bem estruturado como uma intralocução genuína e ocupa o centro da personalidade, pode-se dizer, então, que a pessoa não está sozinha, mas que está consigo. Outros nomes à essa estruturação do diálogo interno são conscienciosidade ou reflexividade e aos sujeitos que o exerce os nomes são consciencioso e reflexivo.

Platão indicava como exemplo-mor da reflexividade justamente Sócrates (470 – 399 a.C.) e narrou vários “ensimesmamentos” dele ao longo de vários de seus diálogos. Platão também não deixou de anotar que são poucas as pessoas com capacidade de reflexão, ainda que, claro, em patamares mais modestos que o de Sócrates.

O reflexivo percebe seu ser em si e o não reflexivo projeta seu ser fora de si, em alguma das múltiplas relações que ele tem junto às multidões ou como se ele fosse um somatório dessas referências. O reflexivo não só não se acha nas multidões, como se irrita ou cai em tédio com elas, as quais lhe são até infernais.

O não reflexivo não compreende nem minimamente o reflexivo e a recíproca não é verdadeira, máxime porque, em termos precisos, o reflexivo é um ex-não reflexivo que maturou, gozando de algum grau de liberdade.

O reflexivo, dentro de proporções, não padece da sensação de desamparo pela sua solidão física e pode ele mesmo a desejar. O maior reclamo de Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881) quanto ao seu encarceramento na Sibéria não foi propriamente a prisão do corpo, mas que o “suplício inenarrável é não se poder estar sozinho”!

Este artigo pugna pela expansão da consciência e experiências de encontro consigo, mas que se frise que não há qualquer apologia à vida de ermitão. O consciencioso não é necessariamente individualista e tem condição de conviver comunitariamente, numa dimensão fina em que “comunidade” é uma certa “comunhão de consciências” em que há a interlocução efetiva entre as partes, que são “mais do que corpos”.

A multidão pode ter aparência de comunidade e até se intitular assim, mas sua natureza é de rebanho, em que o que conta são os corpos unidos e normalmente pelo medo que a solidão de si provoca, que é a falta de intralocução. No ambiente de rebanho, via de regra, não há interlocuções, mas só interações.

“Fazer coisas juntas” não quer dizer que se comunguem conteúdos de consciência qualquer. É exatamente como o caso já referido de ligar a televisão sem a assistir ou ouvir. Quem não pratica intralocução não tem sequer conteúdos de originalidade para praticar interlocução, senão simulacros disso, tal como a retrodita televisão. E, obviamente, fica carente-dependente do fluxo de determinações externas para anestesiar-se, anestesiar-se e anestesiar-se …

A intralocução, mãe da interlocução, tende ao paraíso da liberdade. Quem não dialoga consigo, só finge que dialoga externamente e fica sempre sozinho, ainda que no meio de multidões, num esquema infernal.

SP, 02/12/21

2 comentários

  1. Luciane Cerri disse:

    Bela reflexão. Mostrou a importância de nos tolerarmos, nos tratarmos bem e amar nossa própria companhia, a qual nos acompanhará pelo resto de nossas vidas

  2. Zilda de Oliveira Zolio disse:

    Amei o texto. Eu amo viver só em silêncio. O silêncio é minha melhor companhia.

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