Ritos: Viva os Ritos! Experiências na França e na Índia

Ritos: Viva os Ritos! Experiências na França e na Índia

Artigo do Vicente do Prado Tolezano

“Ritos” (ou rituais) são muito importantes para a SANIDADE humana, que imprescinde de “sentido transcendente” e também de “senso de mistério”. Se há escassez ou empobrecimento dos ritos, há escassez ou empobrecimento da vida humana, cuja essência, conforme advogamos, é justamente significar.

Vou definir, de forma ampla e sem muita ocupação de rigor, o rito como um “gesto mais alongado no tempo”.

Gesto, por sua vez, é um “ato para ter um sentido maior que ele mesmo” (um símbolo, pode-se dizer). Na nossa cultura, por exemplo, um sinal de polegar elevado é um sinal (gesto) de aprovação e de polegar rumo ao chão é sinal (gesto) de desaprovação. Uma festa de aniversário, nessa ordem de sentido, é um rito, pois é mais alongada que um gesto e mesmo integra e ordena conjuntos de gestos.

Sem rodeios: ou a vida humana é simbólica (revestida de semântica) ou não se cuida de “vida humana humanizada”. Imagine só o leitor uma vida sem ritos de início (batismo, recepção, posse, investidura, debutação, etc…) e sem ritos de fim (despedida, enterro, luto, etc…): a própria consciência terá dificuldade de ordenar a narrativa cronológica de si!

Analfabetos funcionais (vício de que este autor estuda muito) são débeis em semântica e, portanto, fruem existencialmente muito pouco de ritos: podem achar que uma “festa de aniversário é oportunidade feita para se comer coxinha e brigadeiro”. Eles alcançam uma função direta mas não captam uma significação decorrente. Aliás, a definição, de nossa autoria, de Analfabeto Funcional é a de que que este é “aquele que funciona, mas não significa”.

Outra forma de se entender os ritos é trata-los como “vivência dos mitos”, certo que mitos são justamente a fonte simbólica primária de todas as culturas, algo como o “estofo” para os ritos.

Os analfabetos funcionais, débeis em significação de gestos e ritos podem, por igual, significar um mito apenas como uma “estória fantástica” para entretenimento, mas não como um farol de luz, advertências e de lembranças para bem viver a vida.

Queremos sustentar, ademais, que a educação do imaginário pelos mitos, a sensibilização dos gestos e a vivência de ritos é meio de superação ou evitação da desgraça do analfabetismo funcional, entre outras formas de “vidas meramente banalizadas”, funcionais ou meramente vegetativas (comer, trabalhar, excretar e dormir).

O oposto da vida com semântica, chamo de vida banalizada ou mesmo vegetativa, a depender do grau de limitação envolvido.

O ímpeto para escrever este artigo é meu estado presente de Maravilhamento (com M grande mesmo) com minha recente experiência de ritos da cultura francesa. Estou no sul da França hoje, em término de uma peregrinação. Nos últimos 34 dias, dormi e jantei em 34 lugares diferentes com pessoas diferentes, mas o RITO DA COMENSALIDADE (nourriture ou restauration, em francês) foi sempre constante e intocado em sua beleza e fonte de significação de “civilidade”.

Em todos 34 os lugares por que passei, há um horário previamente combinado para jantar e tal que tanto o jantar será servido exatamente na hora marcada, sendo igualmente certo que todas as pessoas estarão lá na hora marcada. Isso não tem o sentido “funcional”, de cumprimento cego de ou de necessidade de “matar a fome”, mas tem entrosamento com o sentido de “respeito social” da pontualidade.

Há postura equilibrada entre o sóbrio e o descontraído para se manter à mesa, o tom de voz é ameno, não se usam celulares, não se fala de política e todas as pessoas olham-se nos olhos. Em várias situações, as pessoas apresentam-se sumamente. Fala-se do dia vivido, das interações das pessoas, aguarda-se o anfitrião explicar a sequência dos pratos (normalmente 4). Todos serão servidos ao mesmo tempo cada um dos pratos. Ao cabo de cada prato, todos os utensílios são retirados com a ajuda de todos os comensais e novos pratos são dispostos na mesa para, só então, se iniciar o prato seguinte, assim sucessivamente até a sobremesa. Nenhuma “dessincronização” de pessoas fruindo de pratos distintos se passa ao longo do fluxo todo do rito.

Esse “rito” do jantar pode levar mais de uma hora e meia, sem espaço para ansiedade ou atropelos. Sim, não é “fast food”! Ao cabo, todos vão ajudar o recolhimento, limpeza e, em alguns casos, até na lavagem. Só se dispersam as pessoas ao cabo disso tudo.

Isso tudo não é “alimentação para matar a fome”, como já dito, mas sim é RITO de riqueza de compartilhar a VIVÊNCIA, de se fazer presente, de receber a presença, atenta, alheia, de respeitar o esforço do anfitrião. A comensalidade é sinal de civilidade, urbanidade, integração, acolhimento, fraternidade, etc…

Uma pessoa banalizada, tosca, dessensibilizada, chula, etc… claramente não vai bem se comportar no tal rito e, ao mesmo tempo, é a participação ordinária, diária, em ritos dessa magnitude que inibem a banalização, a tosquice, a dessensibilização, a chulice, etc..

O rito da comensalidade lembra nossa consciência de ter senso de NOBREZA em TUDO e não, claro, apenas “no ato de comer”. Claro, contudo, que comer é ato “visceral” e não poderia logo ele “ser banalizado”.

Não subestime a força civilizatória que está por trás, inclusive com conotação sagrada, e de instigação desse senso de nobreza, sem que seja “mera etiqueta vácua” ou “frescura”, mas sim “vivência semântica”. Aliás, tratar comensalidade como “frescura” é sinal de tosquice mesmo.

Um outro rito que me impactou deveras em ver todos os dias ser repetido, mesmo de participar, foi o de lavagem e agradecimentos diários dos hindus, em viagem de um mês que fiz à Índia anos atrás.

Multidões de hindus, todos os dias sem exceções, vão, logo ao acordar, ao rios próximos para se banhar, com nítida semântica de que não estão lá para, meramente, lavar o corpo, mas para “lavar as disposições da alma”, de modo a instigar a pureza de espírito. Ao cabo do dia, as multidões voltam aos rios para agradecer por mais um dia recebido de graça.

Os efeitos para a disposição psíquica, atencional, de lembrança que “a vida é significação” são manifestos. “Tudo é de graça”, é o que eles estão a afirmar e lembrar para si diariamente.

Noutros artigos, quero avançar nesse belíssimo tema dos ritos. Quero explorar o rito do chá dos árabes (também de comensalidade), do sábado judaico (também de lembrança da graça) e do rito cristão do acasalamento, composto do fluxo namoro, noivado e, só então, casamento (rito da força de vontade em detrimento da paixão).

Viva, sim, os bons e nobres ritos. Tua sanidade crescerá. Se comeres apenas por “fome de barriga” ou se se viveres “sem o senso nítido e reiterado de que tudo é de graça”, ficando sutilmente empobrecendo tua vida.

Somos pobres em ritos na cultura brasileira. Não sem razão, padecemos muito de banalização e mesmo temos um pé na cultura da chulice. Uma sugestão de leitura sobre o tema: Sobre o Desaparecimento dos Rituais, do filósofo teuto coreano Byoung-Chul Han. Segundo ele, a crise dos rituais se dá também além do Brasil.

Vicente do Prado Tolezano

Bayonne, França, 14 de julho de 2025 

12 comentários

  1. ALESSANDRO VIANA MARIANO disse:

    O afastamento de sí, algo ja notado em tempos anteriores, por Durkhein, mostra que a liberdade sem uma base, transforma o indivíduo não livre, mas, vazio. Esses Ritos indicam uma base, algo simples, mas com um poder gigantesco. o cultivo desses Ritos e a sua compreensão, obrigatóriamente, eleva a pessoa e traz um folego de vida, não apenas de existência.

  2. Igor Capelatto disse:

    Excelente artigo. Fundamental. Desmistifica a leitura ocidental sobre a Índia e sua cultura. Parabéns pela jornada, peregrinação e artigo.

  3. Luci Rocha disse:

    Excelente reflexão.

  4. Fátima Gomes disse:

    Muito providencial e digno de ser compartilhado, principalmente em tempos de tantas telas nos momentos, também, de refeições que, há muito, minha mãe não se cansava de repetir e pedir silêncio, pois, “a hora de se alimentar é sagrada”.
    Confesso que eu desconhecia alguns ritos citados e que atiçaram a minha curiosidade. Parabéns pelo artigo!

  5. Marcelo Melo disse:

    Ótimo artigo.

  6. Douglas Melo. disse:

    Fiquei pensando na parte “somos pobres em ritos na cultura brasileira”. Gostaria de aprender mais sobre isso. Tem algum rito especificamente da cultura brasileira, que é observado em todo ou quase todo o território nacional? Somos uma mistura de indígenas, africanos e europeus; surgiu algum rito disso? A nossa “malandragem” vem da “malandragem” de tudo o que os europeus fizeram aqui, por isso damos o “jeitinho brasileiro”. Mas além dessa “cultura de cleptomania”, que rito particularmente brasileiro existe?

  7. Fernanda Marques Lisboa disse:

    Obrigada por compartilhar conosco tão ricas experiências! Um grande abraço e ótimos dias de viagem.

  8. Helia Dias disse:

    Obrigada pelo artigo. Leitura densa que nos recorda a necessidade da ordem interior. Que sua peregrinação siga sendo fonte de luz.

  9. FRANCISCO LUIZ DE ANDRADE BORDAZ disse:

    De certa forma o conteudo se conecta com o livro que comecei a ler de Gilles Lipovetsky: “O império do efêmero “. Obrigado por partilhar o conhecimento.

  10. […] Ritos: Viva os Ritos! Experiências na França e na Índia – Casa da Crítica […]

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