PEREGRINAÇÃO COMO EXERCÍCIO ESPIRITUAL

Peregrinação como Exercício Espiritual

Artigo do Vicente Tolezano

Exercício não é trabalho propriamente, pois seu fim não é resolver algo concreto e presente, como um problema ou uma necessidade prática e material. Por exemplo, dar trocos em transações comerciais ou analisar balanços de empresa são trabalhos que demandam conhecimentos aritméticos.

Supõe-se que quem fará tais trabalhos já praticou antes exercícios, em condições abstratas/gerais, simuladas ou preparatórias de matemática, com o fim de agregar a si competências para futuros trabalhos. Os exercícios para a posse de numeramento, nesse sentido, outorgam as tais competências para futuros trabalhos bem como aprimoram a alma na agudeza da inteligência, capacidade de atenção, articulação de raciocínio, pensamento abstrato, etc… e isso tudo independentemente de fins “imediatamente práticos/utilitaristas”.

A rigor, ir para escola não é “trabalho”, mas “exercício” para capacitações a ulteriores trabalhos e para o próprio aprimoramento existencial. O mesmo se diga, entre muitos exemplos possíveis, da prática de esportes ou frequência em academias, que não hão de ser vistos como um trabalho em si, mas exercício, seja para capacitar em movimentos mais agudos/específicos do corpo ou para a posse de saúde em geral para o indivíduo.

Querer, por sua vez, ter boas condições, seja para eficiência em trabalho, de rigor de inteligência e saúde sem praticar exercícios para esses fins é equivalente a querer colher fruta sem ter plantado a árvore, ou seja, coisa que fora da “Ilha da Fantasia” não existe mesmo.

Tudo o já dito se aplica também ao Espírito Humano, por vezes referido como “força espiritual” ou “grandeza de alma”, passível de ser tonificado por exercícios.

Um espírito ou alma fortes é mais capazes de: florescer em virtudes, desapegar-se do mundo, libertar-se de egos, praticar caridade, suportar provações, contemplar/significar a existência, autoconhecer, perdoar, decidir, entre várias outras vias de felicitação da vida.

Exercícios espirituais, por sua vez, são vários: oração, jejum, retiro de recolhimento, mortificação, meditação e, entre outros, a peregrinação, que é o busílis deste artigo.

Ousamos sustentar a tese de que a peregrinação é ou tende a ser o mais completo dos exercícios espirituais pois, de certa forma, integra todos os demais. Numa peregrinação se ora com frequência, há controle mais agudo sobre os apetites/apegos, há tempo de recolher em solitude, há muita meditação em diálogo interior, sem embargo de muito exercício físico e controle emocional “ao longo dos perrengues, tédios e incertezas da travessia”, etc…

O que nunca pode ser tratado como uma peregrinação é o “trabalho de ir de um lugar para outro”, seja para algum fim prático qualquer ou por estímulo meramente esportivo. Seria equivalente a tratar, como exemplo, o jejum de cunho de exercício espiritual como “dieta para emagrecer”.

O teólogo cristão e filósofo neoplatônico Pseudo-Dionísio, que viveu entre final do século V e o início do século VI, discerniu etapas integrantes dos exercícios espirituais em geral, discernimento esse que exerce grande influência desde então.

Em síntese, são três as etapas sucessivas e circulares dos exercícios espirituais: a) purgação; b) iluminação; c) contemplação.

Purgar diz limpar, filtrar, deixar, largar, etc… Toda atividade espiritual, de certo modo, é para “deixar o mundo” ou limpar-se dele. O próprio do mundo e que há de ser purgado são os vícios de um modo geral. Essa, aliás, a regra primária de toda reflexão ética em todos os sistemas filosóficos clássicos (grego platônico/aristotélico, chinês confucionista, hindu, etc…) e de tradições religiosas, qual seja discernir e purgar os vícios.

Em linguajar coloquial se diz: “primeiro, esvazia o copo antes de colocar qualquer nova coisa lá”.

Numa peregrinação, esse senso geral de purgação é muito evidente, pois o peregrino está deixando, e por tempo longo, casa (até seu país), rotina, vínculos, trabalhos, etc… Comumente, essas “coisas deixadas” são plenas de vícios.

Ademais, o peregrino anda muito e todo dia fica algo para trás. Numa peregrinação, via de regra, não se dorme duas vezes no mesmo lugar. A cada dia, pois, se deixam lugares, pessoas, impressões e afetos diversos. Testemunhamos aqui que nos primeiros dez dias o peregrino iniciante padece de tontura por não ter um lugar fixo para dormir, variando todo dia de cama e configurações de quarto e companheiros. Depois, isso se transforma em senso de desapego e tonificação pessoal.

O peregrino também, via de regra, começa a jornada com pouquíssimos bens, pois há de carregar tudo na mochila. Contudo, sem embargo de que se carregue pouco desde o começo, todo dia é dia de jogar coisa fora, pois a cada dia aumenta o senso de desnecessidade progressiva de coisas. O impacto psíquico disso é muito agudo.

Iluminar é ver ou buscar o novo. Coisas, pessoas, vínculos, ideias, crenças, apegos, trejeitos vão sendo largados e outras coisas hão de entrar, em patamar mais alto que as que vão. Em sentido de ética clássica, vão se purgando os vícios e tal que as virtudes podem começar a entrar. O copo não será preenchido com conteúdo bom sem que se purgue o conteúdo ruim ou apenas obsoleto. A crença espiritual, por sua vez, é tal que se o ruim for purgado, não virá o vazio, mas o bom.

Por mais que se planeje uma peregrinação, ela é incerta todos os dias ante todos os tipos de imprevistos. Não se sabe, a rigor, aonde se vai e nem como serão as coisas senão muito difusamente. Todo dia é dia de surpresa adiante.

Ao longo da marcha, a cada dia, o senso de insegurança com o futuro ou erraticidade diminui, ainda que alguma imprevisibilidade prossiga, mas sem que esta seja desconfortável. Afinal, a mudança não é no “meio”, mas sim no “sujeito da experiência”, que se aprimora.

Contemplar é significar com objetividade, sem projeções e com sentimento de união com o todo divino, ou seja, de gratidão simplesmente por existir. Também se diz de contemplar como uma experiência de superação do tempo, pois na contemplação, via de regra, o corpo está em repouso.

Na peregrinação, a experiência da contemplação se dá, acima de tudo, na chegada ao destino, comumente um Santuário. É muito intensa, comovente, a experiência. O corpo vai parar, mas a alma e o psiquismo não. Muitas e muitas reflexões, insights, afetos, vivências, etc… passadas ao longo do caminho vão se unir e se reordenar em vários sentidos de unidades biográficas que perpassam o tempo. Haverá sustos, surpresas, epifanias, etc… De certa forma, a contemplação implica uma Metanoia de consumação do exercício espiritual para que a vida seja vivida a partir de um patamar diferenciado.

Eu, Vicente Tolezano, autor deste artigo pratico peregrinações há muitos anos no Brasil (Caminho da Fé, Caminho das Missões, Caminho da Beata Nhá Chica, Caminho dos Passos do Anchieta, Caminho do Mosteiro, entre outros). Em 2024, há um ano, fiz minha primeira peregrinação a Santiago de Compostela pelo tradicional Caminho Francês, de 811 km de extensão que percorri em 33 dias. Chorei de alegria diante da Catedral de Santiago e voltarei a chorar lá todos os anos da vida terrena. Aliás, em poucos dias, parto para lá e desta vez sairei do Santuário de Le Puy en Velay, na França, distante 1.640 km de Santiago, que percorrerei em 71 dias.

Afirmo que: a) o esquema de discernimento do exercício segundo a abordagem de Pseudo-Dionísio é deveras lúcido e auxilia o gozo e fruição de efeitos profundos da experiência; b) consegui captar nitidamente a tonificação de força espiritual e desmundanização passadas, ficando por demais nítido o sentido de “travessia” da vida, sendo este o único sentido real e todo o resto é ilusão mesmo.

João Guimarães Rosa, o mais místico fino de nossos autores, que colocava toda experiência humana sóbria no esquema de travessia tinha toda razão. Segundo ele, “o real está na travessia” e tal que quem quer o destino há de atravessar e o nosso destino, claro, não é aqui. Em breve, redigirei um artigo cotejando o esquema de Pseudo-Dionisio com as “travessias roseanas”.

Fica o conselho a todos: peregrine!

São Paulo, 3 de junho de 2025

Vicente Tolezano

7 comentários

  1. Helia Dias disse:

    Leitura preciosa, Vicente. Seu texto convida à escuta, à estrada, ao essencial. É um belo convite à interioridade.

    • FRANCISCO LUIZ DE ANDRADE BORDAZ disse:

      A peregrinação é dotada de uma complexidade de sentimentos espirituais e físicos. Caminhar para dentro é uma boa forma de se começar a definir essa atividade.

      Há aqueles que encontram sentido apenas no movimento de deixar a homeostase que nos persegue.

      Desapego também é uma das essências da peregrinação, pois ao deixar o que não é essencial para traz nos traz a consciência de nós mesmos.

      Entender nossas falhas, limites, desajustes são outras características.

      Em outros aspectos também descobri potências físicas e espirituais as vezes adormecidas…

      Peregrinação se apreende peregrinando…

      A peregrinação nao

  2. Roberta Resende disse:

    Que lucidez rara! Que bela síntese entre vida prática e elevação espiritual! Quero trilhar esse caminho.

    • Maria Bernadete disse:

      Parabéns pelo texto e pela desmundanização. Algo tão difícil de ser entendido e alcançado. O caminho da fé foi muito forte para mim e o de Santiago, uma conquista

  3. Quézia Acioly disse:

    Uma leitura rica de aprendizado e reflexão. Palavras acessíveis e fáceis de compreensão. Obrigada por compartilhar este texto.

  4. Américo disse:

    Belíssimo texto, Vicente! Sempre nos presenteando com um estudo fino da alma humana e um texto inspirador. ❤️‍✨

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