Virtudes, Tema Eterno, Perspectivas de Platão

Artigo do Vicente Tolezano

O tema das virtudes, a rigor, não é novo nem antigo, mas perene. Afinal, condiz com a mais inevitável das questões humanas que é: como viver a vida? As reflexões dos pensadores gregos clássicos seguem a iluminar. Neste artigo, nosso foco é discorrer rapidamente sobre a visão de Platão (428 – 348 a.C.) a respeito delas.

Virtude (ἀρετή, em grego) significa força, bem-aventurança ou excelência, no sentido de vida humana excelentemente vivida, no que respeita a  uma valoração moral e espiritual. O oposto da virtude é o vício (διαφθορά), que significa fraqueza, desvio, corrupção, etc… e carrega valoração pejorativa.

Há um sentido em dizer “virtude” como “a virtude”, um senso do todo , da posse de uma excelência em geral, como um “caráter virtuoso, bondoso, forte”, etc… ou dizer “virtude” como “frações da virtude em geral”, frações essas que não são exatamente divisões reais, fixas, mas sim divisões meramente mentais para facilitação de entendimento.

Virtude não pode ser dada a ninguém, senão, no máximo, podem-se dar orientação e exemplo, mas necessariamente virtude é uma conquista pessoal, de si sobre si, ou simplesmente não é virtude.

A consideração anterior abre as portas para o entendimento de um aspecto central na teoria das virtudes, que é seu aspecto objetivo, independente do meio social. Platão inclusive cunhou, no diálogo A República, a metáfora do “homem ouro”, aquele homem excelente a tal ponto que não é influenciado pelo meio, tal que será virtuoso por si, nada lhe importando se o seu meio for plenamente viciado.

A oportunidade da metáfora é tal que o ouro é o metal mais resistente à oxidação. Fica claro que há grande intimidade entre os sensos de “virtude” e “santidade”. A intimidade é tão grande que ambas compartilham métrica “meta mundana”, transcendente da vida e convenções sociais, jurídicas, políticas, etc…

Para a cosmovisão grega, inclusive mas não limitada ao pensamento de Platão, a cosmovisão atual que temos de afirmar muito categoricamente que o “homem é filho do meio” oscilaria entre o risível e o vergonhoso.

A cosmovisão dos helenos era de que o homem era filho do cosmos, cabendo-lhe captar a ordem cósmica para si (senso de vocação) e mover-se de acordo com ela num processo de desenvolvimento sucessivo de “vitória sobre si” e cujo oposto é a “autoderrota”.

A pólis, a comunidade, o meio, etc… podem até ser um obstáculo para a posse das virtudes ao invés de ser “provedora” delas. Aliás, a maior dor existencial de Platão, da qual jamais se resignou, foi a injustiça social feita contra o mais virtuoso dos homens, Sócrates, que foi condenado à morte num julgamento totalmente manipulado.

Os sensos de “vitória sobre si” ou de “autoderrota” não são “meras palavras” sem propriedade. Suas consistências decorrem de uma concepção muito pormenorizada de uma “estrutura fragmentada da alma” e tal que há vitória sobre si quando esses fragmentos se conciliam por meio da virtude e há derrota quando, pelos vícios, esses fragmentos se dissociam mais.

O específico tema da fragmentação da alma será objeto de artigo próprio deste autor.

Um dos efeitos da posse da areté é o gozo da felicidade, felicidade aqui discernida como um bem espiritual, muito mais contundente que os sensos de prazer ou de sucesso, bens “eventualmente” úteis, mas materiais e, portanto, passíveis de ser “ouro de tolos”.

Platão tinha muita lucidez quanto à  possibilidade da  vida ser bem guarnecida de prazer, de sucesso, de conforto, etc…, mas ser infeliz. Sócrates, a seu turno, o maior paradigma intelectual e de vida virtuosa de Platão, não só não era rico ou poderoso como sofreu a mais terrível das injustiças, mas morreu feliz e também convicto da sua felicidade post mortem, cônscio do que se passava, certo da sua conduta bem orientada a partir de uma ordem cósmica atuante sobre a ordem meramente convencional . Toda trama, drama e banho de lucidez sobre o particular está no diálogo Fédon.

A disciplina, por sua vez, que estuda as virtudes e os meios de seu alcance, e por via de consequência a felicidade, é a “ética” (ηθικων). Ainda usamos contemporaneamente esse termo, mas até mesmo pela nossa alteração de cosmovisão, alteramos seu sentido de “viés transcendente”, de conexão até divina, dos gregos para regras de “viabilidade da convivência social”.

Passemos às virtudes principais, vistas pela perspectiva de frações.

Platão inventariava em 4 as virtudes basilares, também ditas cardeais, comumente ditas por Sabedoria (φρονήσει), Temperança (σώφρων), Justiça (δικαιοσύνη) e Coragem (ἀνδρεία). É da preferência deste autor dizer “discernimento” em vez de Sabedoria, dizer “autodomínio” em vez de Temperança e dizer “fortaleza” em vez de Coragem.

O discernimento (φρονήσει) é a capacidade de inteligir ou entender, ser lúcido quanto a coisas, situações, pessoas, separar valores bons de valores maus, raciocinar, ponderar objetivamente, estabelecer objetivos, etc… Discernir é operar com semântica.

Os opostos do discernimento são a ignorância, ingenuidade e estupidez.

Não confundir discernimento com erudição, até porque eruditos nada lúcidos não são poucos … Ademais, pessoas não eruditas mas muito lúcidas há também.

Analfabetos Funcionais, ou seja, a maior parte das pessoas, não têm a virtude do discernimento. Ao cabo, eles não têm “fins semânticos”, mas só fins “funcionais”. Os desatentos crônicos, então, sequer os tais “fins funcionais” têm.

O discernimento dos carácteres humanos é uma capacidade de discernimento árduo de se obter,  coisa só alcançável na senioridade. Aliás, Platão é uma grande fonte também para colher e articular elementos nas reflexões dos carácteres humanos. Uma dica: aproximar-se de qualquer pessoa sem ativamente se ocupar de discernir seu caráter é coisa de, cumulativamente, ignorante e ingênuo.

O meio de desenvolvimento do discernimento é a reflexão sóbria muito ativa e muito constante. Diz-se estúpido, por sua vez, aquele que recusa ativamente refletir e conhecer, nutrindo ojeriza a isso, comumente aliada a um senso de orgulho de repudiar a razão.

Autodomínio (σώφρων), por sua vez, denota tanto (i) a capacidade de aplicar o discernimento a situações concretas no absolutamente aqui e agora quanto (ii) a capacidade de não reagir por ímpeto emocional.

Os opostos do autodomínio são a reatividade, sugestionabilidade, instabilidade, precipitação, procrastinação, compulsão, luxúria, apatia, etc…

A virtude do autodomínio é a mais árdua para se obter e também a mais ruinosa de carecer. Sem ela, a pessoa está simplesmente à deriva completa ante  inúmeras manipulações e seduções do dia a dia. Fala-se demasiado correntemente do vício em dopamina – caso típico da falta de autodomínio, seja pela sujeição à pornografia, álcool, droga, entretenimento chulo, jogos, etc…

O alcance do autodomínio passa por toda a educação dos próprios afetos e temperamentos pessoais. Ou seja, inclui o corpo e os desejos.

A metáfora de “sangue frio” para o autodomínio é, em parte, boa, mas carrega um perigo de validar a “apatia” ou “indiferentismo” como se bons fossem. Um apático ou um indiferente certamente já trabalharam em si seus afetos mas o fizeram também viciosamente, de forma defensiva.

Uma afetividade equilibrada, não reativa, passa por ter afetos harmonicamente equilibrados e jamais anulados como fazem os apáticos e indiferentes.

Grandes recursos para a tonificação afetiva e de autodomínio pugnados por Platão são a ginástica e a música. Oportunamente, serão temas de artigos por parte deste autor.

A justiça (δικαιοσύνη) é tema amplíssimo, repleto de derivações, nuanças e viéses. O aspecto a destacar neste artigo é de um equilíbrio entre “dar” e “receber” e, ainda, numa perspectiva de cristalização geral de caráter.

Dar é uma das grandes características propriamente humanas e nosso principal meio de contribuição. Quem não dá, dá pouco, dá insinceramente, dá com desgosto não é justo, mas sim avaro, parasita, sovina, acumulador, hipócrita, etc…

Também não são justos os que dão mal (à pessoa errada, na hora errada, na oportunidade errada, etc…). Podem ser ingênuos, masoquistas, desperdiçadores, etc…

Igualmente viciado em injustiça é o pratica injustiça contra si e que não exige receber o que lhe é devido nos limites do razoável, caso que pode até implicar o masoquismo.   Exigir justiça a si é, inclusive, meio de dar ajuda ao próximo para que este não se corrompa arruinando a nós. Vem de Sócrates o asserto que a não punição de um culpado é, inclusive, uma grande injustiça contra este próprio, que “normaliza” o absurdo. Sim, no sentido aqui tratado, o masoquista e o débil em autoestima são mesquinhos.

A fortaleza (ἀνδρεία) também tem espectro semântico amplo. Vamos cá focar o seu aspecto fulcral, que é a boa gestão sobre o pior dos conselheiros humanos que é o medo. Medo não filtrado, por sua vez, aniquila uma das grandes dimensões do espírito humano que é a esperança.

A ideia de que fortaleza é a capacidade de matar dragões com uma espada é uma ideia romantizada e apenas nada mais que isso. Em sentido estrito, matar dragões só e só é uma ação da fortaleza se este dragão é, em efeito, um obstáculo a uma missão nobre a cumprir, tal que será, naquele contexto, covardia não o matar.

Nada é mais covarde do que não cumprir uma missão efetiva por medo. Isso é particularmente fácil de observar nos casos de vocação e amor em geral. A generalidade das pessoas declara ardorosamente que quer cumprir vocação (que é altamente imbricada com o destino) e amar, mas, tantas e tantas vezes, por medo disso se sabotam  por meio de apegos e subterfúgios múltiplos. Todos conhecemos muitos covardes assim.

Regra prática para constatar a covardia: o volume de apegos que a pessoa nutre e defende exaltadamente.

O senso cá pugnado, pois, é de não paralisar missão efetiva por medo. A cada ato de covardia, tenha certeza o leitor, o grau de esperança da pessoa desce e daí gera mais medo, que implica em minoração da esperança, num ciclo viciado abominável.

Ao cabo: se uma das virtudes cardeais faltar muito, as demais não operarão e todo o conjunto d`alma declina. “Viver é dificultoso”, dizia o Guimarães Rosa. Temos, entre outros, Platão, para ajudar na “Travessia”.

Platão está há 25 séculos nos iluminado e assim seguirá. Em breve, teremos aqui na Casa da Crítica um curso sobre a Filosofia de Platão em especial sobre A República, um curso orientado para prover, acima de tudo, senso de virtudes cá indicado. Seremos professores eu e o Dr. Joathas Bello.

 SP, 04/05/25

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6 comentários

  1. Aurora disse:

    Excelente artigo, aliás, como sempre os conteúdos da Casa da Crítica são enriquecedores. Com a explanação sobre as virtudes não poderia ser diferente. Parabéns, pelo ótimo trabalho realizado, sempre no combate ao analfabetismo funcional.
    Gostaria de mais informações sobre o próximo curso de filosofia, tipo : conteúdo, horários, valores, etc.
    Boa noite e obrigada !

    • Olá, Aurora. Me chama para uma sessão de mentoria. Aguardo. Abraço. Vicente

      • Gisele Cristine Matheus disse:

        Excelente!! Muito obrigada, Professor, por compartilhar ensinamentos condensados, a fim de que os neófitos na filosofia possam se alimentar de “pratos refinados” dentro da capacidade de compreensão e absorção individual. Abraço fraterno.

  2. Vanessa disse:

    Prezado Professor, considerações sobre a leitura: 1) 25 séculos no ano de 2025 são números agradáveis; 2) agradecida pela dica; 3) virtude é algo que a própria pessoa desenvolve por repetição? Exemplo: um pianista reconhecido mundialmente, ou um jogador de xadrez, ou um esportista de olimpíadas, que tem esta sementinha no seu cerne e a treina até chegar ao magnifico? 4) Amei o trecho da injustiça. Tirei print 🙂 Agradeço as palavras para refletir.

    • Olá. Toma cuidado com o termo “repetição”. Ele é verdadeiro como etapa para a virtude, mas urge discernir “rotina”, que é má, de “hábito”, que é bom. A rotina tem um senso de “piloto automático”, ação material repetitiva e SEM ATENÇÃO. Hábito é também ação repetitiva, mas sempre ATENTA, tal que se se faz 100 vez algo, são “100 diferentes” ações do ponto de vista psíquico e de aprofundamento.

  3. Helia Dias disse:

    Fico entusiasmada com o tema que é de meu interesse. Ser virtuoso é uma conquista pessoal, e essa ponte entre a ética antiga e o que se entende por ética contemporânea me convida à refletir sobre autoconhecimento. Um texto atual e profundo. Muito obrigada pelo banquete intelectivo.

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