Peregrinação e Enriquecimento (Anábasis)

Peregrinação e Enriquecimento (Anábasis)

Artigo do Vicente Tolezano

Comecemos esta reflexão com uma afirmação bastante contra intuitiva: “em alto grau de rigor, não existem RIQUEZA nem POBREZA”. Ambas são “ilusões de estacionamento contra a realidade que é, por natureza perene, fluxo”.

O que, sim, existe rigorosamente são os movimentos de ENRIQUECIMENTO e de EMPOBRECIMENTO, ditos propriamente em gerúndio verbal. Afinal, a categoria da ação – verbo – é muito mais realista (e concreta) que nomes substantivado, que categorias de qualidade ou de estado, puras abstrações mentais.

Quem tiver interesse em se aprofundar na reflexão da supremacia ontológica do “sendo” sobre o “ser”, tem à disposição as notáveis e mui lúcidas Filosofia Concreta e Decadialética do filósofo brasileiro Mario Ferreira dos Santos (1907 – 1968), um gigante pouco conhecido justamente porque subiu a “alturas muito elevadas”.

Os gregos antigos não conheceram o nosso Mário Ferreira dos Santos, mas alcançaram intuição bastante semelhante pelos termos anábasis (ἀνάβασις) e catábasis (κατάβασις), que denovatavam, respectivamente e em termos literais, “movimento de subida” ou “movimento de descida”.

Em semântica mais profunda, se liam pelos ditos termos: “subida ao mundo divino (Campos Elíseos – Ἠλύσια πεδίαe) e descida ao inferno (Tártaro – Τάρταρος)”, “aquisição de virtude ou erosão em vício”, “aumento de felicidade autêntica ou queda em infelicidade” ou, ainda, mais diretamente “enriquecimento ou empobrecimento de alma”.

O rico no sentido material do termo, por acumulação de posses, se dizia πλούσιος (ploúsios) e rico no sentido d`alma se dizia μεγάλη ψυχή (megalê psyché), característica de quem ordena sua alma, continuada, progressiva e ininterruptamente rumo ao divino (anábasis – ἀνάβασις).

A anábasis é sempre “sendo”, tal que não permite um estoque ou acumulação de riqueza que se possa gastar e ainda ser rico – coisa que só se dá com a “riqueza material”. No momento em que a ordenação cessa, oscila, desordena, “descansa” (no sentido pejorativo do termo), etc…, já é o caso de catábasis (κατάβασις), empobrecimento, pois.

Filosofia grega, aliás, como é deveras sabido, é a rigor, filosofia dos movimentos (cosmológicos, naturais, psíquicos e espirituais) – e, por isso mesmo, deveras lúcida.

Os educadores físicos atuais usam os termos “anabolizar” e “catabolizar”, indicando se um dado exercício concreto, que é um movimento do corpo, está a gerar tonificação muscular/saúde ou sua debilitação. Podemos usar esse senso, paralelamente, a todos os demais domínios em que se possa enriquecer ou empobrecer: investimento financeiro, energia afetiva, aos estudos, à capacidade atencional, etc…

O busílis é que: “todo dia é dia para buscar lucidamente enriquecimento e evitar empobrecimento, sem que exista exatamente movimento neutro”. Sem reflexão diária, ativa e atenta sobre isso, tudo milita para que se esteja empobrecendo sem se aperceber.

E a atividade de peregrinação com isso?

A peregrinação em seu sentido próprio é um exercício espiritual que só e só tem valia se “anaboliza a alma” do peregrino tanto durante sua duração quanto para efeitos após os dias de marcha peregrina. Do contrário, será dispersão catabólica, explícita ou sutilmente.

Uma peregrinação se estrutura como se estrutura a vida que busca boa auto ordenação: movimento para frente, sucessivo, progressivo para a saúde física e psíquica, por iniciativa e com forças próprias, propício para reflexão solitária e alguns encontros sociais significativos.

Em toda minha experiência de peregrino, afirmo que a vasta maioria dos peregrinos, ainda que sem saber lucidamente, está buscando ao menos difusamente “movimento em ordem de enriquecimento para a sua vida e reflete efetivamente sobre isso todos os dias da peregrinação”, que pode ser inclusive de mais de um mês de duração. Muitas vezes, o peregrino diz tudo isso dentro do jargão em que cabe tudo: “busca de autoconhecimento”.

Obviamente, de todos os movimentos que operam numa peregrinação, o mais visível deles é o do corpo, expressado pelo deslocamento, pela qualidade do andar, pela postura, pelo semblante, etc…

Uma peregrinação enriquecedora há de enriquecer o corpo também. Dureza, cansaço, desconforto e mesmo algumas bolhas, assaduras e dores musculares são esperadas, mas no sentido em que isto seja “anabolizante”, sem que seja o caso de exaustão exasperante, lesões graves, sofrimentos deprimentes, etc…, sejam aceitáveis, eis que são “catabólicas”. Peregrinação não é flagelamento e nem corrida de obstáculos.

Não cuidar do corpo é empobrecer sim e este empobrecimento alcançará as demais dimensões da pessoa. Não é raro ver peregrino “estourado” fisicamente pelo esforço que lhe foi impróprio mas até se orgulhar disso, como se fosse algum sinal de perseverança enriquecedora e não de pura estupidez ou romantização empobrecedora. Ou seja, andam de mãos dadas falta de cuidado deliberado com o corpo com vanglória mesmo.

A primeira vez que este ensaísta peregrinou, há uns 15 anos, (no Caminho da Fé, no Brasil, rota de 400 km em 15 dias), incorreu em catábasis no corpo sim e também na vaidade por ter ficado mais de mês indo a médico após a peregrinação para curar lesões diversas.

Em todo caso, consegui seguir na maturidade (que é forma de enriquecer). Escrevo este artigo no meio de uma peregrinação rumo a Santiago de Compostela, na Espanha. Precisamente, estou no dia 65 de marcha, após mais de 1.600 km realizados. A previsão é andar 1.800 km em 75 dias.

Estou em anábasis, cada dia, de um modo geral, mais tonificado que o dia anterior em sentidos físico, psíquico e de disposição de vontade! E isso, claro, não é “do nada”, mas porque estou atento a isso tudo. Lembre o leitor que o busílis do artigo é a atenção ativa sobre o enriquecimento em todas as dimensões da vida para “não tolerar o empobrecimento”.

Se eu tiver sinais de catábasis, hei de ajustar (volume de marcha, intensidade de marcha, extensão dos trajetos, sono, hidratação, alimentação, motivação, reflexão, etc…), suspender ou mesmo desistir da atividade, mas jamais tolerar o movimento para empobrecer, sob qualquer pretexto. É caso de reflexão diária e exame de consciência ao longo da peregrinação que hão de ser em todas as demais dimensões da vida para sempre. Peregrinação, repetimos, há de ser um exercício, estruturalmente similar à trajetória da vida, que transcende a si e se presta a ordenar a alma do peregrino.

É bastante oportuno trazer aqui a proposta pugnada por Platão (428348 a.C.), no diálogo As Leis, sobre a ordenação ente os bens/riquezas humanas para anabolizar rumo ao divino. Peregrinação há de ajudar nessa ordem!

O pensador grego admite obviamente que a riqueza material (de dinheiro, posses, bens, etc…) é um bem nobre. É, inclusive, um bem primário tanto quanto se preste de meio para bens maiores, mas que, claro, se se cuidar de um “fim em si”, caso em que a busca por dinheiro seria um movimento desordenado e empobrecedor.

Platão assinalava que o rico de dinheiro tem mais facilidades em cuidar da sua saúde, que é um bem mais elevado. Dizia que o rico pode obter melhor alimentação (aquela com bons temperos e com mais carne), pode dispor de mais tempo para a ginástica e oportunidade para a boa audição musical (boa música era indicada como fonte de educação dos afetos e humor, aspectos da saúde humana).

O pobre de dinheiro, por sua vez, come “farelos que sobrarem”, se sujeita a trabalhos degradante e não ouve boa música e, logo, tende a estar catabolizando sua saúde. Contudo, é claro que um rico de dinheiro que seja sedentário, coma desregradamente e ouça “música porcaria” também cataboliza sua saúde e, pois, é pobre no sentido essencial. Todo leitor conhece centenas de ricos de dinheiro e pobres no mais.

Aliás, anoto aqui que, sem dinheiro, um peregrino não custeia suas despesas e nem mesmo pode se ausentar de suas atividades cotidianas por mais de mês para peregrinar. Eu nunca tive “renda financeira direta” por peregrinar, mas já ganhei muita estimulação de desapego material, de atitude minimalista e mesmo frugal por peregrinar, o que, claro, tem muito impacto financeiro.

A boa saúde, por sua vez, conforme o dito pensador apontava, também é um meio que propicia os atos de coragem (ἀνδρεία), englobando a defesa e proteção de si e de outrem, bem como estatura moral centrada para a prática da reflexão intelectual (sempre indissociável da coragem, conforme ele propunha).

Se, por sua vez, a saúde não for um “meio” para de anábasis rumo a tais outros bens maiores, tende a ser catabólica, tal que o saudável limite-se a jactar-se pelo seu corpo e, ao invés de corajoso, será apenas um vaidoso e, pois, pobre também. Qual dos leitores não conhece muitas almas catabolizadas pelo culto ao corpo?

Por sua vez, o intelecto desenvolvido, pela virtude do discernimento (φρονήσει), é, por sua vez, um meio para bem separar o verdadeiro do falso, o útil do inútil, o belo do feito, a aparência da essência e, claro, para dividir os joios da catábasis dos trigos da anábasis.

O intelecto desenvolvido pode se desvirtuar para a jactância, para apoiar as pretensões de poder ao invés de superação do poder, para rixar ao invés de examinar, etc…, caso de pobreza também. Atenção: não se confunda “intelecto desenvolvido” com “erudito”, pois não se confundem. Um não erudito pode discernir muito mais que um erudito.

Durante peregrinações, comumente eu não estudo, no sentido de ler livros ou equivalente, mas peregrinações me implicam muita atividade intelectual de reflexão intensa, que é mais valorosa, em muitos sentidos, que “estudar objetos de estudo”. Este próprio artigo, aliás, é fruto de reflexão durante uma peregrinação, como já dito. Outros dois artigos já frutificaram e há outros em gestação ao longo desta mesma peregrinação.

Rico, no sentido pleno, será aquele cujo o intelecto que progride continuamente (gerúndio) na clareza da supremacia do bem do espírito sobre todos os demais bens e que, então, também persevera (gerúndio) na ordenação concreta de todas as suas dimensões de vida (material, saúde e intelectual) para tanto. Sinal de bom rumo nesse sentido se dá pela ação (mais precisamente pela “atitude”) de “contemplar a existência pelo simples fato de existir”, que é atitude humana mais essencialmente espiritual.

Outro peso pesado dos pensadores gregos, Aristóteles (384-322 a.C.), por sua vez, afirmava que “contemplar é a forma possível de antecipar neste mundo terreno alguns efeitos do mundo divino”.

A atividade de contemplar, por sua vez, é a finalidade efetiva e última da peregrinação (tema sobre o qual já discorremos em artigo anterior), alcançada ao cabo de muito esforço ordenado, mas que nunca é um “alcance de fim ou estável”, mas um alcance de vislumbre progressivo sob muito esforço, sem o qual o empobrecimento será o caso.

Ou seja, peregrinação é um meio sim para enriquecer nas muitas gradações de bens humanos já indicadas, mas não é o caso de realizar uma peregrinação, por mais longa e tradicional que seja, e então ficar RICO absoluto por conta disso.

Que a peregrinação proveja clareza, mas urge viver “a vida peregrina” sempre, com desapego material, cuidado do corpo, atitude corajosa, reflexivamente lúcida e contemplativa. Do contrário, será o caso de vida pobre mesmo.

Deixo meu testemunho do quanto a atividade de peregrinação me ajudou e segue me ajudando, pois eu sigo peregrinando. Entre vários outros aspectos relevantes da minha biografia, a minha própria reordenação de vida de profissional do direito (sim, minha profissão primária era a de advogado) para a de filósofo foi muito germinada, refletida, gestada, etc… ao longo de muitos quilômetros a pé.

Ao cabo: todo dia é dia de enriquecer a alma (anábasis) e de evitar empobrecimento de alma (catábasis) e, logo, todo dia é dia de “vida peregrina”.

Sobrado dos Monxes, Espanha, 16 de Agosto de 2.025

Vicente do Prado Tolezano

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7 comentários

  1. Américo disse:

    Seus artigos sempre contribuem para o enriquecimento da nossa alma. Parabéns pelo texto! Desejo a você uma excelente conclusão da sua peregrinação atual! Um abraço.

  2. Fernanda Marques Lisboa disse:

    Excelente artigo, como sempre! Obrigada pela sua preciosa partilha!

  3. Helia Dias disse:

    A Alma em peregrinação: luz ou sombra, todo dia. A decisão é diária.

  4. Raslan Blanco disse:

    Alimento nutritivo pra alma!

  5. Quezia disse:

    Ler o texto foi uma “peregrinação “ para o meu enriquecimento psíquico e intelecto.
    Ainda temos muitas amarras que nos impedem rumo ao desapego.
    Obrigada por compartilhar sua experiência.

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