Analfabetos Funcionais, Masoquistas e Fungos

ANALFABETOS FUNCIONAIS, MASOQUISTAS E FUNGOS

Artigo de Vicente do Prado Tolezano. 

Este artigo se volta a associar muito intimamente e dar clareza a duas mazelas comuníssimas, majoritárias entre a população, mas, a rigor, só conhecidas,  percebidas e apercebidas em termos grosseiros: o masoquismo e o analfabetismo funcional.

Os sensos meramente vulgares, caricatos, apontam que:

  • Masoquista seria quem padece de patologia de índole sexual envolvendo gosto por apanhar na cama ou, ainda, o “gosto por sofrer”;

  • Analfabeto funcional seria aquele que tem restrição de índole cognitiva, tal que consegue ler, mas não capta significados mais sutis ou que não formula raciocínios.

Há verdades nesses sensos comuns, mas em caráter muito grosso modo. A rigor, tantos identificam alguns efeitos aparentes do masoquismo e do analfabetismo funcional e tratam os tais efeitos como se o característico substancial ou causa dos tais fenômenos fossem.

É evidente que há doenças propriamente psíquicas de perversão sexual (exemplos: fetichismo diversos, transtorno obsessivo e até coprofilia), tal como há doenças propriamente neurológicas-cognitivas (dislexia, demência, déficit de atenção, etc …). Essas dimensões de assuntos não são focos deste artigo.

Também é evidente que há situações de externalidade brutais sobre as pessoas como miserabilidade, desnutrição, traumas agudos, violências efetivas, etc … e que também não atinam com os focos deste artigo.

O masoquismo tanto quanto o analfabetismo funcional são formas de renúncia de liberdade. São doenças prioritariamente de índoles ontológicas e existenciais, assumido, claro, que liberdade seja o nosso estado vital natural e sobrenatural humano saudável.

Pessoas não padecentes das doenças sexuais, neurológicas ou vítimas de externalidades agudas acima apontadas podem padecer – e na maioria das vezes padecem – das doenças existenciais de liberdade, pouco importando qualquer consideração de classe social, étnica, religiosa, etc …

Não existe uma só pessoa que goste de sofrer, de apanhar, de ser humilhada, etc … Existe, contudo, a horrível e gravíssima “dor de existir”, no sentido de “existir por si”. O masoquista e o analfabeto funcional, em medidas próprias, são farinha deste saco de horrores.

Erich Fromm (1900 – 1980), foi muito feliz e felicitante ao dar os contornos do caráter daquele que padece de sentimentos crônicos de “solidão”, de “impotência” ou “insignificância” e que, por isso, busca “desfazer-se do fardo da liberdade” ou o “esquecimento do próprio eu”, cognominado de masoquista.

Vide a dicção exata do próprio autor aludido: “a pessoa masoquista quer que seu senhor seja uma autoridade fora dela mesma, quer seja interiorizado como uma consciência ou uma compulsão psíquica, poupa-se da necessidade de tomar decisões e da responsabilidade última sobre o destino de seu eu, e, portanto, da dúvida de qual a decisão a tomar”. 

O masoquista relacionar-se-á servilmente com seu “dono de fato” e é longe da raridade que será ele quem terá a iniciativa (sim, a única iniciativa que masoquistas tomam) de buscar o tal dono.

Não é exatamente necessário que o tal dono buscado seja propriamente perverso (caso em que o dono será chamado de sádico), mas se o for simplesmente é e o masoquista segue encalhado nessa simbiose mesmo se apanhar, for humilhado, etc …

O masoquista “funciona” a seu dono de alguma forma. Ele é “em função” do dono, eis que não goza de substancialidade ou de ação já que essas dimensões lhe provocam dor maior que a dores dos maus tratos. Sua única categoria ontológica é a de “relação”.

Podem ser donos do masoquista uma pessoa, algumas pessoas, grupo, chefe, ídolo, sejam eles reais ou mesmo só fictos.

Essa conformação de modo de ser do masoquista é absolutamente a mesma de um analfabeto funcional, ou seja, aquele que, conforme definição de nossa autoria, “lê para funcionar, mas não para significar”.

Claro que se cuida de uma “falsa leitura”, pois, a rigor, ler, no sentido próprio, é pensar e, ainda mais rigorosamente, pensar é sempre “decidir sentido”, ou seja, é significar.

A própria etimologia latina de inteligência, intelegere aponta a associação entre “ler” e “eleger”. É captar a variedade de sentidos por trás de qualquer signo e escolher um.

A leitura sem decisão não é leitura e, pois, é só meio de mando, próprio do modo verbo gramatical imperativo, modo para o qual o analfabeto funcional verte tudo, pois não alcança modo verbal indicativo.

Pergunta a um analfabeto funcional se “há um copo sobre a mesa”. Ele, antes de responder, olha mais para interlocutor que para a mesa. Afinal, ele projeta em si “o que o interlocutor quer ou não quer de mim” para funcionar para ele, mais do que significar a objetividade da pergunta ou da realidade concreta a mais do que a relação entre ele e o “dono” do destino.

Dá um romance a um analfabeto funcional. Ele continuará se perguntando “o que querem que eu faça com isso” e poderá absolutamente instável ante que ele vai tentar – apesar de que não vai conseguir – transformar as letras do romance nas letras que  ele alcança “ler”: manual de regras, de procedimentos, comandos imperativos fixando limites, enfim ordens para ele cumprir.

A ele, na sua cosmovisão difusa e mesmo inconsciente, só existe o código alfabético porque é meio de dar instruções, ordens, etc …, tal como a cosmovisão do masoquista é a da simbiose para com seu dono.

Não precisa aplicar os testes do “copo” ou “do romance” só com “limpadores de latrina” para verificar as eficácias dos próprios testes. Eles são igualmente eficazes mesmo se feito com universitários. As renúncias de liberdades são muito socialmente democráticas, como já adiantado.

O modo verbal imperativo é uma união direta, milimetricamente paralela da simbiose que há entre o masoquista e seu dono, que se estabelece entre o analfabeto funcional e seu “instrutor” (que pode ter “aparência” de interlocutor, mas é só mandante mesmo).

Pelo modo gramatical indicativo, não há relação “direta” entre as pessoas, mas sim uma relação indireta e “através da realidade indicada”, maior do que ambos e sempre passível de confirmação, negação, ponderação, entre tantas possibilidades decisórios-interpretativas. Ou seja, é dimensão em que o parasita, qualidade do analfabeto funcional e do masoquista, não alcança, pois haveria de deixar de ficar “parado” junto ao dono simbiótico.

 O Analfabeto Funcional quer ser instruído, instruído e instruído sobre o que deve exatamente fazer para sempre ter a certeza que não decidiu, ainda que, por vezes, busque a aparência de que tivesse decidido alguma coisa.

Se souber que há algum erro, inclusive absurdo, numa ordem que recebeu, cumpre-a ainda assim fingindo que não entendeu o erro que efetivamente entendeu que existe. Isso de não significar lhe dá um senso de aterramento ou pertença simbiótica, garantidor do parasitismo. Hannah Arendt (1906 – 1975) chamava-os de homenzinhos-obedientes-de-ordens, autora que já fixava a debilidade cognitiva como derivada da debilidade existencial do eu.

Afinal, nada, absolutamente nada, é mais solitário que “tomada de decisão”, seja ela qual for. No ato de decidir, quebra-se a inércia parasitária e sempre há um senso imediato de vazio e de responsabilidade pelo preenchimento que virá em seguida.

Decisão, incluídos interpretação de um texto ou julgamento da bondade ou maldade de um afeto, é o cume do encontro do “eu consigo”. Se o eu é vácuo, o encontro é do nada com o nada, mais amedrontador ainda.

Para evitar a dor de decidir, significar ou de ter poderes concretos o masoquista aceita horrores afetivos, degenerativos de dignidade e garantidores do obstáculo à progressão, jogando jogos de simulação diversos em que a obediência ao sádico e valorização do falso afeto dele tivesse algum valor, ao invés de simplesmente partir em busca de afetos honestos.

O analfabeto funcional, a sua vez, aceita a sucessiva castração de sua inteligência, em processo igualmente degenerativo que obstaculiza progressão, jogando jogos de simulação diversos em que se passar por mentecapto mesmo ante instrução absurda tivesse algum valor, ao invés de decidir o significado de qualquer contato direto com a realidade.

Afinal, parasita, por definição, quer parar e para em alguém ou algo que chama de “dono”.

Platão (428 – 348 a.C.) tinha toda razão quando afirmou que a aparência, apesar de ser igual ao nada, segue preferida pela maioria em detrimento da essência, que sempre é dinâmica. Se houvessem, naquela época diplomas de faculdade, ele teria incluído esse expediente ou fetiche na forma de aparência.

As semelhanças psíquicas estruturais entre o masoquista e o do analfabeto funcional não são fruto do acaso, mas sim do caso mesmo. Ambas são o mesmo caso de caráter parasitário de pessoas que renunciaram à liberdade.

Monteiro Lobato (1882 – 1948), tenaz crítico do caráter parasitário predominantes entre nós evocava a imagem de um urupê aos masoquistas e analfabetos funcionais. Urupê é um fungo, que vive dos nutrientes do seu hospedeiro sem nunca propriamente agregar-lhe valor algum (nem dá frutos a terceiros) e, ao reverso, mina-lhe a vitalidade, ainda que sutilmente.

É absolutamente impossível alguém ser livre sem exigir “sinceramente” tanto respeito e dignidade afetivos e intelectuais, seja dos outros, para com os outros ou mesmo consigo. A dispensa da sinceridade implica renúncia de liberdade própria ou validação das renúncias de liberdade alheias abrindo o espaço ao império dos fungos.

As dignidades afetivas e intelectuais são mais íntimas entre si que pessoas de mãos dadas. Acuradamente, a liberdade deve ter forma de moeda e tal que cara será afeto e a coroa inteligência ou vice-versa, mas aonde for a cara vai a coroa ou também vice-versa.

Nossos trabalhos de mentoria, vivências e experiência de contatos diretos corroboram inequivocamente que quem atrofia sua inteligência a um patamar de analfabeto funcional vive em toxidade afetiva em alguma ou várias dimensões da vida ou vice-versa.

A sutileza causal, contudo, é que liberdade pode ser buscada, mas não pode ser imposta. O ser livre busca afetos honestos e desenvolve sua inteligência, inclusive para julgar os tais afetos.

O ser que renunciou à liberdade busca os afetos desonestos e o atrofiamento da sua inteligência, pouco importando que o cadeado da corrente dos pés esteja destravado e a porta da escola aberta.

A busca ou renúncia são questão de atitude e de natureza de predomínio metafísico. As estruturas biológicas, neuronais e psíquicas sempre ajudam a “decisão de liberdade” ou a “decisão de renúncia da liberdade”, reafirmando o primado metafísico sobre o físico.

No primeiro caso, o vetor flui para aumentar a consciência das fragilidades e ignorâncias que impedem a progressão. A emoção de culpa costuma ajudar nesses casos. O livre dela se vale para ir corrigindo seus rumos. Vai ficando cada vez mais sensível. Ele “se” (reflexivo mesmo) acha culpado se não der vazão à liberdade. O dono dele é ele mesmo, afinal.

No segundo caso, o vetor flui para aumentar a ignorância sobre as fragilidades e consciências que mantém o parasitismo simbiótico. As emoções de orgulho ou vitimismo costumam ajudar nesses casos. O parasita delas se vale para ir mantendo seus fingimentos. Vai ficando cada vez mais insensível e hostil contra quem não valida sua miséria, pouco importando as fotos públicas em que beija seu sádico e dos diplomas que acumula.

Nada é mais metafisico que a liberdade, com eco material de satisfação em afetos sempre honestos e autodidatismo. Todas as deturpações ou corrupções que se lançam ao termo liberdade como “poder”, “liberdade política”, “direitos”, etc …, são, via de regra, só deturpações mesmo.

Bem de ver, ademais, que metafísica também é só metafísica mesmo, não é pensamento mágico.

Quem descobrir solução para o problema do masoquismo terá achado também solução para o problema do analfabetismo funcional e a recíproca é verdadeira, pois essencialmente são a mesma coisa.

3 comentários

  1. Alexandre Gonçalves Veiga disse:

    Há relação do abandono da sã doutrina cristã e da filosofia aristotélica tomista ao arrepio das filosofias modernas e do subjetivismo, ter como consequência esses dois males? Outro dia, vi em um frase de parachoque: Não sou dono do meu cachorro (perceba o pronome possessivo), sou seu Amigo (o que é impossível pelas suas diferentes naturezas). Há esperança???

    • Esperança é virtude teologal, mais que meramente moral. É metafísica, “meta mundo”, e é o chão da liberdade. Mesmo sob predomínio de CULTURA cristã ou realista-aristotélica nas sociedades, é pregado que a “porta é estreita”. Numa cultura meramente materialista, é mais estreita ainda.

  2. Valéria disse:

    Aproveitando a resposta dada para a pergunta anterior sobre a esperança: A solução para o problema do masoquismo e do analfabetismo funcional está na Virtude teologal da Caridade, a maior das três virtudes teologais, a qual somente se alcança depois da fé e da esperança.
    É o nível de caridade das interações humanas que desperta os indivíduos para o reconhecimento de si verdadeiro e os impulsiona para as mudanças necessárias para o alcance de mais liberdade e, portanto, mais caridade. É possível perceber isso na história da humanidade, onde a morte do Cristo( ápice da caridade), provocou mudanças nas pessoas próximas a ele, as quais ao longo da história mudaram o tecido social pré-existente,fazendo o mundo antigo sair da barbárie para a mais elevada contemplação da beleza, bondade e verdade. O problema que este site denuncia constantemente esbarra em um outro artigo que aqui também foi publicado: A Crise de Santidade.
    Conclui -se, portanto, que as denúncias das mazelas existentes atualmente só terão efeito prático na medida em que se aumentar a caridade tanto em quem denuncia, bem como nos que lêem, ou seja, em uma atmosfera mais santa ou mais metafísica, como queiramos chamar a presença do transcendente em nós.
    Parabéns pelo maravilhoso artigo.

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