{"id":23053,"date":"2022-08-16T05:51:12","date_gmt":"2022-08-16T08:51:12","guid":{"rendered":"https:\/\/casadacritica.com.br\/site\/?p=23053"},"modified":"2022-11-26T10:57:48","modified_gmt":"2022-11-26T13:57:48","slug":"da-orfandade-a-liberdade-travessia-grande-sertao-veredas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/casadacritica.com.br\/site\/da-orfandade-a-liberdade-travessia-grande-sertao-veredas\/","title":{"rendered":"Da Orfandade \u00e0 Liberdade &#8211; Travessia &#8211; Grande Sert\u00e3o: Veredas"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"23053\" class=\"elementor elementor-23053\" data-elementor-post-type=\"post\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-2130c28a elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"2130c28a\" data-element_type=\"section\" data-settings=\"{&quot;background_background&quot;:&quot;classic&quot;}\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-6247cb34\" data-id=\"6247cb34\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-63fd90c2 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"63fd90c2\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-xl\">DA ORFANDADE \u00c0 LIBERDADE - TRAVESSIA - GRANDE SERT\u00c3O: VEREDAS<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-1dc85413 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"1dc85413\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<h4 style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Artigo do Vicente do Prado Tolezano.\u00a0<\/span><\/strong><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 animais que caem do ventre materno, saem andando e at\u00e9 mesmo j\u00e1 tomam conta de si. Outros recebem cuidados perinatais de nutri\u00e7\u00e3o e defesa at\u00e9 a chegada hora da partida do \u201cninho\u201d para sobreviver, por si, no habitat natural. Toda dramaticidade animal \u00e9 sobreviver.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Humanos s\u00e3o os animais mais vitalmente dependentes dos progenitores. Ademais de cuidados de ninho (nutri\u00e7\u00e3o e defesa), demandamos, e por tempo longo, de cuidados de \u201clar\u201d (suprimentos psico-afetivos-lingu\u00edstico-espirituais) at\u00e9 sairmos \u201cdo lar\u201d. Ademais da sobreviv\u00eancia, o humano tem o \u201cdrama do desamparo\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Ninho s\u00f3 protege e prepara para a \u201csobreviv\u00eancia no habitat\u201d. Lar, por sua vez, \u00e9 mais que prote\u00e7\u00e3o, pois tamb\u00e9m deve orientar \u00e0 \u201csupera\u00e7\u00e3o do habitat\u201d, outra express\u00e3o para \u201ccondi\u00e7\u00f5es de emancipa\u00e7\u00e3o\u201d, sem a qual a vida n\u00e3o ser\u00e1 propriamente humana.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">\u201cViver \u00e9 dificultoso\u201d \u00e9 asserto frequente de Riobaldo, protagonista de Grande Sert\u00e3o: Veredas. Em sentido acurado, podemos bem ler o asserto no sentido de que s\u00f3 a vida humana \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil porque s\u00f3 a ela \u00e9 posta necessidade de travessia do estado de desamparo \u00e0 qualidade da liberdade, outra express\u00e3o, por sua vez, da emancipa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">O habitat natural, sobrenatural e simb\u00f3lico com que Guimar\u00e3es Rosa ilustra a \u201ctravessia\u201d, permeada de err\u00e2ncias diversas, \u00e9 o Sert\u00e3o, em refer\u00eancia expressa ao sert\u00e3o norte-mineiro. O romance consiste num mon\u00f3logo de Riobaldo, expressivo do seu fluxo de consci\u00eancia sobre a travessia, fluxo esse que est\u00e1 longe de ser retil\u00edneo, mas que outorga o senso do tumulto que \u00e9 emancipar.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Em beleza metaf\u00f3rica, Rosa nos conta pela boca de Riobaldo o paradoxo de que \u201co sert\u00e3o est\u00e1 em toda a parte\u201d, bem como que \u201csert\u00e3o \u00e9 onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Cabe a explica\u00e7\u00e3o de que \u201csert\u00e3o\u201d deriva do termo \u201cdesert\u00e3o\u201d, onde muito pouco h\u00e1. A evoca\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica, pois, \u00e9 que pouco \u00e9 propriamente dado e tudo que valha decorre de esfor\u00e7o \u00e1rduo de extra\u00e7\u00e3o, seja de n\u00f3s, seja do ambiente. Veredas s\u00e3o \u201cpequenos caminhos de \u00e1gua\u201d, como fios sutis de vida e que imprimem movimento sobre o Sert\u00e3o. \u00a0<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Muito se fala que o romance Grande Sert\u00e3o: Veredas retrata a constitui\u00e7\u00e3o do Brasil, tese que, pensamos n\u00f3s, merece mais abono que reparos. Salientamos neste artigo que no aspecto da \u201corfandade essencial\u201d, problema nefasto e cr\u00f4nico brasileiro, a veracidade do romance \u00e9 certeira.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">O todo do romance versa a supera\u00e7\u00e3o do vazio do desamparo rumo \u00e0 plenitude da liberdade pelo senso de \u201ctravessia\u201d, abordagem que j\u00e1 \u00e9 cl\u00e1ssica na literatura como odisseias, regressos, jornada, peregrina\u00e7\u00e3o, etc&#8230;, mas o entrosamento do senso geral de liberdade como \u201csupera\u00e7\u00e3o de orfandade afetiva\u201d real ou ps\u00edquica \u00e9 destacadamente forte.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Sai da boca do pr\u00f3prio Riobaldo o dado social cr\u00f4nico da orfandade no Brasil: &#8220;<em>orf\u00e3o de conhecen\u00e7a e de pap\u00e9is legais, \u00e9 o que a gente v\u00ea mais, nestes sert\u00f5es<\/em>.&#8221;<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o se perca de vista, contudo, que a estatura de Rosa era finamente metaf\u00edsica e que, a despeito de que fale de dimens\u00f5es sociais, a abordagem de liberdade, em toda sua obra, respeita \u00e0 liberdade metaf\u00edsica, muito mais sutil e relevante que os sentidos de liberdade pol\u00edtica, jur\u00eddica, etc&#8230;<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">A ideia de travessia emancipat\u00f3ria de um desamparo de v\u00e1cuo existencial para uma plenitude de liberdade metaf\u00edsica pela como \u201csupera\u00e7\u00e3o do meio social rumo ao transcendente\u201d se desume do todo do romance, do todo do legado roseano, do j\u00e1 aludido paradoxo envolvendo os lugares f\u00edsico e ps\u00edquico do Sert\u00e3o e tamb\u00e9m pela observa\u00e7\u00e3o direta do Riobaldo, o \u00fanico que fez a travessia libert\u00e1ria, ao expressar seu di\u00e1logo interior: &#8220;<em>De que bando eu sou?\u201d \u2013 comigo pensei. Vi que de nenhum<\/em>.\u201d<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">S\u00f3 n\u00e3o \u00e9 de \u201cbando\u201d nenhum (grupo sect\u00e1rio-identit\u00e1rio) quem saiu do habitat horizontal e \u00e9 livre metafisicamente, o que quer dizer que alcan\u00e7ou ser \u201cpai e m\u00e3e de si\u201d, sem depender de lar ou de lar posti\u00e7o.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">A rigor, toda forma de amor \u00e9 uma dimens\u00e3o f\u00edsica com abertura ao metaf\u00edsico e com fundamento neste. Qualquer fundamenta\u00e7\u00e3o do amor por \u201cmeros sentimentos\u201d n\u00e3o se sustenta, sen\u00e3o perante os intelectualmente d\u00e9beis, pois s\u00e3o \u201cmeras depend\u00eancias\u201d travestidas de amor. Com os amores de paternidade e maternidade, de ordin\u00e1rio num lar, esse aspecto de porta metaf\u00edsica \u00e9 muito vivaz.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">A demonstra\u00e7\u00e3o explicativa de supera\u00e7\u00e3o do desamparo ou vazio existencial pela liberdade metaf\u00edsica, composta essa pela obten\u00e7\u00e3o de dois elementos tamb\u00e9m paradoxais entre si \u2013 a autoestima e o senso de pot\u00eancia \u2013 \u00e9 da lavra do fil\u00f3sofo e psicanalista Erich Fromm (1900-1980).<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Autoestima significa algu\u00e9m gostar de si simplesmente porque existe e a despeito de qualquer eventual err\u00e2ncia de sua vida, de resultados ou desaprova\u00e7\u00f5es alheias.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Senso de pot\u00eancia, por sua vez, significa uma capacidade de gostar de si porque consegue fazer exig\u00eancias perante si pr\u00f3prio e as cumprir.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 paradoxal gostarmos de n\u00f3s mesmos simplesmente porque existimos, mas tamb\u00e9m exigirmos resultados de n\u00f3s mesmos para gostarmos de n\u00f3s. N\u00e3o \u00e9 porque seja um paradoxo que \u00e9 falso. Afinal de contas, \u201cviver \u00e9 dificultoso\u201d&#8230;, como o Riobaldo n\u00e3o cansa de repetir, entre, ali\u00e1s, v\u00e1rios outros paradoxos.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">A fonte prim\u00e1ria para a recep\u00e7\u00e3o objetiva e assimila\u00e7\u00e3o subjetiva desses sensos paradoxais da liberdade s\u00e3o justamente paternidade e liberdade. Segundo o mesmo fil\u00f3sofo e psicanalista:<\/span><\/h4><ol><li><h4><span style=\"color: #000000;\">a fun\u00e7\u00e3o materna, por excel\u00eancia, nos imprime senso incondicionado de amor, tal que sempre h\u00e1 um ref\u00fagio seguro, ainda que falhemos, desviemos, etc&#8230; A maternidade apropriada \u00e9 a antessala \u00edntima da autoestima, no sentido de que, se assimilada, nos achamos valorosos \u00fanica e t\u00e3o somente por que existimos, tal como amor incondicional de m\u00e3e.<\/span><\/h4><\/li><li><h4><span style=\"color: #000000;\">a fun\u00e7\u00e3o paterna, a seu giro, inculca um dever de exig\u00eancia, como um amor sob condi\u00e7\u00e3o ou um dever de m\u00e9rito para gozar do amor. Assimilado o senso de pot\u00eancia da paternidade, achamo-nos valorosos na medida em que somos capazes de realiza\u00e7\u00f5es, tal como uma crian\u00e7a mostra seus feitos ao pai numa conquista de amor.<\/span><\/h4><\/li><\/ol><h4><span style=\"color: #000000;\">F\u00e1cil de ver que a din\u00e2mica libert\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 meramente receber as fun\u00e7\u00f5es paterna e materna, mas \u00e9 assimil\u00e1-las e transformar-se em pai e m\u00e3e de si, condi\u00e7\u00f5es de for\u00e7a para a \u201ctravessia transcendente do Sert\u00e3o\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">O \u201cdilema da travessia\u201d, a que ora referimos em pronome demonstrativo dos \u201cdilemas do desamparo e da liberdade\u201d \u00e9 posto a todos, sejam eles \u00f3rf\u00e3os em termos objetivos ou n\u00e3o.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o faltam exemplos reais de:<\/span><\/h4><ol><li><h4><span style=\"color: #000000;\">pessoas que gozaram objetivamente das fun\u00e7\u00f5es paterna e materna, mas, por motivos m\u00faltiplos, n\u00e3o as assimilaram no sentido proposto acima e tal que \u201cseguem \u00f3rf\u00e3os\u201d, sem for\u00e7as para a travessia individual, quedando-se err\u00e1ticas no Sert\u00e3o ao longo de toda a vida. N\u00e3o aprenderam a viver a vida propriamente humana;<\/span><\/h4><\/li><li><h4><span style=\"color: #000000;\">pessoas \u00f3rf\u00e3s objetivamente, que n\u00e3o gozaram das fun\u00e7\u00f5es paterna e\/ou materna ou as receberam at\u00e9 perversamente, mas que, mesmo assim, ao cabo de naturais err\u00e2ncias no Sert\u00e3o do mundo tornaram-se pais e m\u00e3es de si e fizeram a travessia, tal que vivem vida propriamente humana.<\/span><\/h4><\/li><\/ol><h4><span style=\"color: #000000;\">Outro asserto digno de Riobaldo digno de destaque \u00e9 que &#8220;&#8230; aprender-a-viver \u00e9 que \u00e9 o viver, mesmo.\u201d Leia-se o tal asserto como \u201csaber extrair do seu sert\u00e3o interior as condi\u00e7\u00f5es de for\u00e7a para vencer o sert\u00e3o de fora\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Dessa forma, que se diga que uma crian\u00e7a \u00e9 \u00f3rf\u00e3 se n\u00e3o tem pai e m\u00e3e e que se diga que um adulto \u00e9 \u00f3rf\u00e3o se n\u00e3o se tornou pai e m\u00e3e de si. Nesse \u00faltimo caso, algum bando (no caso do romance, \u201cbando jagun\u00e7o\u201d) far\u00e1 o papel de pai, mantendo os esquemas de depend\u00eancia vital que castram a travessia emancipat\u00f3ria, por medo do \u201csert\u00e3o interior\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Todos podem atravessar, no sentido de que todos t\u00eam como perseguir a liberdade. Claro, contudo, que \u201ca for\u00e7a de um lar com parentalidade efetiva\u201d facilita muito a jornada.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Contudo, ainda que todos possam atravessar, poucos atravessam concretamente. A liberdade metaf\u00edsica \u00e9 rara mesmo, fen\u00f4meno inclusive j\u00e1 anotado por Plat\u00e3o (428-348 a.C.), Arist\u00f3teles (384-322 a.C.), entre v\u00e1rios outros antigos.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">A excepcionalidade da liberdade metaf\u00edsica \u00e9 constantemente anotada na obra roseana. No romance em aten\u00e7\u00e3o, s\u00f3 e s\u00f3 Riobaldo atravessou propriamente o Sert\u00e3o. No conto, O Burrinho Pedr\u00eas, s\u00f3 o pr\u00f3prio burrinho \u201catravessou o rio\u201d. Na novela, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, s\u00f3 o pr\u00f3prio Matraga \u201calcan\u00e7ou a reden\u00e7\u00e3o\u201d libert\u00e1ria.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Em comum, Riobaldo, Burrinho Pedr\u00eas e Matraga, eram pais e m\u00e3es de si, solitariamente (na acep\u00e7\u00e3o de solitude), em rela\u00e7\u00e3o de si para consigo e na contram\u00e3o do meio social. Riobaldo tamb\u00e9m assevera: \u201cquanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago.\u201d<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">A travessia, pois, \u00e9 dilema sempre e s\u00f3 individual, sem nexo com sensos de liberdade social.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Como j\u00e1 dito, s\u00f3 Riobaldo se tornou pai e m\u00e3e de si, pleno de autoestima e pot\u00eancia. O romance centra nas sucessivas err\u00e2ncias da travessia at\u00e9 a cristaliza\u00e7\u00e3o da liberdade dele e at\u00e9 a um ponto em que ele mesmo logrou refletir sobre ela e, ent\u00e3o, narr\u00e1-la a um interlocutor. Mais que alcan\u00e7ar a liberdade, ele entendeu reflexiva e lucidamente que a alcan\u00e7ou. Sobre a cegueira dos n\u00e3o livres, jagun\u00e7os em bandos, ele anota: &#8220;n\u00e3o podendo entender a raz\u00e3o da vida, \u00e9 s\u00f3 assim que se pode ser vero bom jagun\u00e7o\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Jagun\u00e7os s\u00e3o os analfabetos sociais: funcionam (est\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m), mas n\u00e3o significam (n\u00e3o captam raz\u00e3o\/liberdade).<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Praticamente todos os personagens do romance eram \u00f3rf\u00e3os.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Riobaldo s\u00f3 tinha m\u00e3e at\u00e9 que ela morre quando ele ainda era pequeno. Foi, da\u00ed, acolhido por Selorico, um \u201cpadrinho\u201d. Contudo, quando soube que o padrinho de Riobaldo, era, na verdade seu pai sem isso assumir, Riobaldo se revoltou e partiu errantemente pelo Sert\u00e3o.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Riobaldo era forte em autoestima, inclusive por isso teve for\u00e7a para se revoltar ante o \u201cdesrespeito\u201d de Selorico que, apesar de cuidar materialmente de Riobaldo, n\u00e3o lhe dava a dignidade de se assumir ser seu pai.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Havia vacila\u00e7\u00e3o de Riobaldo quanto ao senso de pot\u00eancia, tanto que foi Diadorim que muitas vezes impunha exig\u00eancias de \u201ccoragem\u201d. A travessia \u00e9, de certa forma, a busca da auto parentaliza\u00e7\u00e3o paterna que Riobaldo fez, incluindo um pacto\/desafio junto ao Diabo, numa clara transfer\u00eancia de \u201cdor de falta de pai\u201d. O romance se encerra com a quebra da ilus\u00e3o do dito pacto, tal que o diabo n\u00e3o \u00e9 o caso, mas sim a \u201ctravessia humana\u201d \u00e9 o caso.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Diadorim, personagem tamb\u00e9m de destaque, era \u00f3rf\u00e3, n\u00e3o fez a travessia emancipat\u00f3ria e, pois, seguiu \u00f3rf\u00e3 at\u00e9 o cabo. Morreu tragicamente na persecu\u00e7\u00e3o da vingan\u00e7a do assassinato do seu pai que n\u00e3o a acolhia, ao mesmo como ela era.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Ao inv\u00e9s de se tornar \u201cpai de si\u201d, seguiu o pai, chefe jagun\u00e7o, sob um esquema que cheira masoquismo de mendic\u00e2ncia afetiva. Travestiu-se de homem, castrou-se em seu amor por Riobaldo e morreu de forma ingl\u00f3ria.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Ela tinha alto senso de pot\u00eancia, ao ponto de encorajar o pr\u00f3prio Riobaldo, mas a debilidade em autoestima era evidente.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Os jagun\u00e7os, de modo geral, eram \u00f3rf\u00e3os tanto em termos biogr\u00e1ficos quanto por n\u00e3o se emanciparem. Eram como c\u00e3es sem dono que estacionam junto ao primeiro que lhes prov\u00ea comida e cuidados meramente prim\u00e1rios e a ele juram lealdade. N\u00e3o cultivavam quaisquer ideais que n\u00e3o lutar mesmo sem entender os porqu\u00eas da luta \u2013 vida puramente diversionista.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Sempre se destaca no romance a regra de que qualquer jagun\u00e7o podia deixar o bando a qualquer tempo, mas pouqu\u00edssimos deixavam, sen\u00e3o por morte est\u00fapida em combate igualmente est\u00fapido.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Riobaldo contava que <em>&#8220;&#8230; jagun\u00e7o n\u00e3o passa de ser homem muito provis\u00f3rio<\/em>.\u201d Os pr\u00f3prios chefes jagun\u00e7os chamavam-lhes de \u201cmeus filhos\u201d, salientando a transfer\u00eancia ps\u00edquica do lugar do pai, sem supera\u00e7\u00e3o da falta, contudo.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Os jagun\u00e7os de Rosa equivalem \u00e0s massas dos ativismos ou sectarismos passionais identit\u00e1rios, pol\u00edticos ou religiosos do Brasil de sempre. Todo mundo buscando pai e fingindo que \u00e9 valent\u00e3o! Rixam por causa que desconhecem, ou seja, por nada mesmo, sen\u00e3o por uma manuten\u00e7\u00e3o idiossincr\u00e1tica, est\u00fapida, da orfandade\/car\u00eancia essencial.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Outro extrato de \u00f3rf\u00e3os indicado no romance \u00e9 o da soldadesca. Tratados depreciativamente como se fossem \u201cboys in the box\u201d. Faziam barulho, mas eram de baix\u00edssima efic\u00e1cia. Eram \u00f3rf\u00e3os despersonalizados e o governo era o pai impessoal deles.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Arranjo mais terr\u00edvel para o drama da travessia, desprovido de qualquer fio m\u00ednimo de autoestima e de senso de pot\u00eancia, era o dos catrumanos. Eram \u00f3rf\u00e3os na condi\u00e7\u00e3o da mais absoluta e tal que foram mesmo escravizados de forma expl\u00edcita e n\u00e3o meramente sutil como os demais que n\u00e3o fazem a travessia.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Como j\u00e1 dito, s\u00f3 Riobaldo atravessou o Sert\u00e3o da orfandade. Ficou mais forte que as for\u00e7as desse pr\u00f3prio Sert\u00e3o f\u00edsico quanto do vazio dele pr\u00f3prio. Ele entendeu t\u00e3o bem o tema da liberdade conquistada tanto que n\u00e3o apenas \u201cn\u00e3o foi servo do poder\u201d quanto, igualmente, \u201cabriu m\u00e3o do poder\u201d sobre os demais. Liberdade metaf\u00edsica n\u00e3o coaduna com qualquer forma de ativa ou passiva de poder, ainda que sob nome de \u201cliberdade pol\u00edtica\u201d, uma ilus\u00e3o para ing\u00eanuos e incautos.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Viver \u00e9 dificultoso! A condi\u00e7\u00e3o humana ou \u00e9 de desamparo \u00f3rf\u00e3o dolorido ou de liberdade com paternidade e maternidade exercidas de si para si, a autoestima e senso de pot\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 \u201cmeio termo nisso\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">Este artigo integra uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es instigadas pela travessia que o autor fez, a p\u00e9, de 200 km do Sert\u00e3o mineiro que inspirou Rosa no seu romance. Outros vir\u00e3o. O legado de Rosa \u00e9 inesgot\u00e1vel e \u00e9 fonte de muita ilumina\u00e7\u00e3o para as \u201ctravessias\u201d.<\/span><\/h4><h4><span style=\"color: #000000;\">SP, 16\/08\/22<\/span><\/h4>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4e0c2e8f elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4e0c2e8f\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-3dc15e23\" data-id=\"3dc15e23\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-44e21452 elementor-widget-divider--view-line 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