{"id":15542,"date":"2018-05-22T23:18:02","date_gmt":"2018-05-23T02:18:02","guid":{"rendered":"https:\/\/casadacritica.com.br\/site\/?p=15542"},"modified":"2020-09-05T23:21:04","modified_gmt":"2020-09-06T02:21:04","slug":"so-de-nova-rica-a-miseravel-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/casadacritica.com.br\/site\/so-de-nova-rica-a-miseravel-conto\/","title":{"rendered":"S\u00f4, de Nova Rica \u00e0 Miser\u00e1vel &#8211; Conto"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"15542\" class=\"elementor elementor-15542\" data-elementor-post-type=\"post\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-4785c19 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"4785c19\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-099f52b\" data-id=\"099f52b\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-154bd4b elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"154bd4b\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<h4>Os tempos eram duros l\u00e1 na ROL\u00c9ZIO ADVOGADOS. Apenas o Dr. Rol\u00e9zio como advogado para dar cabo a um volume de trabalho quase invenc\u00edvel e que seria pr\u00f3prio para, ao menos, dois advogados plenos, sen\u00e3o mesmo tr\u00eas e mais um estagi\u00e1rio.<\/h4><h4>A injusti\u00e7a ou agonia de alta demanda de trabalho contrastante com o baixo capital para contratar recursos de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 uma, entre tantas provas de fogo, que os que ousam empreender h\u00e3o de atravessar.<\/h4><h4>O arranjo salv\u00edfico ao problema era um s\u00f3: o Dr. ROL\u00c9ZIO fazer companhia \u00e0s corujas e dormir muito pouco! Situa\u00e7\u00e3o que perdurou ao longo de muuuuito tempo, em que alguns recordes de noites n\u00e3o dormidas iam sendo superados sucessivamente.<\/h4><h4>Em um dado momento, os recursos dispon\u00edveis, no raso e quase furado bolso da ROL\u00c9ZIO ADVOGADOS, n\u00e3o davam ainda para prover a solu\u00e7\u00e3o cabal da escassez de for\u00e7a produtiva. Mas, permitiam um pequeno al\u00edvio. A contrata\u00e7\u00e3o de um estagi\u00e1rio de meio per\u00edodo, cujo pagamento mensal iria concorrer apertado com tantas outras despesas.<\/h4><h4>O Rol\u00e9zio cuidava da primeira contrata\u00e7\u00e3o de \u201cgente do direito\u201d para aquele micro escrit\u00f3rio de advocacia, situado no bairro dos japoneses em S\u00e3o Paulo, em um pr\u00e9dio misto, o qual s\u00f3 contava com o pr\u00f3prio ROLEZIO, o office boy e a recepcionista. Sim, era tempo em que office boys existiam, junto com impressoras matriciais, com telefones que eram alugados e etc. Era ainda a \u00e9poca em que papel de parede e carpete grosso no ch\u00e3o era coisa apreci\u00e1vel.<\/h4><h4>O Dr. ROLEZIO passou um fax para a PUC para divulga\u00e7\u00e3o da vaga de est\u00e1gio para alunos do quarto ou quinto ano, no per\u00edodo da tarde e com o gozo de um contra cheque no valor de R$280,00!<\/h4><h4>Veio a primeira candidata, Solange: um primor de mo\u00e7a desde a primeira vista.<\/h4><h4>Ela era inteligente, aplicada na faculdade, cursava o quinto ano. Era daquelas mo\u00e7as que seguramente escreviam todas as aulas em caneta azul, mas com t\u00f3picos em letra vermelha e sublinhados com r\u00e9gua. A S\u00f4 j\u00e1 tinha experi\u00eancia pr\u00e9via de est\u00e1gio bem significativa, feito em um escrit\u00f3rio muito s\u00e9rio. Tinha lhaneza de trato, bom humor, era muito elegante. Como \u00e9 t\u00edpico \u00e0s pessoas puras, a at\u00e9 ent\u00e3o candidata contou tudo de tudo de si durante a entrevista, da fam\u00edlia, do namorado e sobre outras \u00e1reas da vida.<\/h4><h4>Ela padecia de uma situa\u00e7\u00e3o familiar e financeira muito dif\u00edcil. Vivia s\u00f3 com a m\u00e3e em uma casa alugada de um bairro perif\u00e9rico da capital bandeirante. A casa estava em p\u00e9ssimo estado, mas sem que elas tivessem verba at\u00e9 para reparar as goteiras gordas. O pai largara o lar uns anos antes, a fim de se aventurar com uma mo\u00e7a. \u00c0 filha e \u00e0 ex-esposa nada mais mandava que n\u00e3o desprezo.<\/h4><h4>Para complicar, a m\u00e3e padecia de paralisia facial, n\u00e3o trabalhava a n\u00e3o ser em pequenos bicos dom\u00e9sticos. A fonte de renda era a minguada aposentadoria de invalidez da progenitora.<\/h4><h4>O custeio da faculdade da Solange era uma luta sem tr\u00e9gua, sufoco a ser enfrentado m\u00eas a m\u00eas junto com aluguel, IPTU, mercado b\u00e1sico, feira, condu\u00e7\u00e3o, etc. Ou seja, parcos que fossem os R$ 280,00, sem eles, o or\u00e7amento familiar da mo\u00e7a colapsaria.<\/h4><h4>A rigor, se n\u00e3o chegassem os R$ 280,00, mas apenas R$ 279,00, o impacto j\u00e1 seria de monta. De qualquer forma e, at\u00e9 por obviamente n\u00e3o terem condi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito, n\u00e3o havia d\u00edvidas de coisas vencidas. Sob rigores espartanos, a subsist\u00eancia do m\u00eas era vencida no m\u00eas, ao menos isso.<\/h4><h4>No meio da entrevista a mo\u00e7a j\u00e1 foi contratada, e ao cabo dela, j\u00e1 come\u00e7ou a trabalhar. Tinha nisso, obviamente, ansiedades do ROL\u00c9ZIO ante o imenso represamento de trabalho que finalmente iria ter mais uma vaz\u00e3o, mas tamb\u00e9m era claro que o vento da sorte, aquele que sempre socorre os aflitos virtuosos na hora \u201ch\u201d, trouxe uma excelente candidata logo de cara.<\/h4><h4>Nos primeiros dias de trabalho, a mo\u00e7a n\u00e3o meramente impressionou bem. Em efeito, e para muito mais que isso, ela surpreendeu em demasia mesmo as j\u00e1 elevadas expectativas que o Dr. ROL\u00c9ZIO depositara.<\/h4><h4>Claro que era uma estagi\u00e1ria formanda e, pois, tinha limites pr\u00f3prios, mas tinha experi\u00eancia para a posi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, fez a faculdade com seriedade, mas, acima de tudo, contava em seu prol que tinha MUITA DISPOSI\u00c7\u00c3O para trabalhar, o que fazia com alegria. Foi muito af\u00e1vel com o office boy, recepcionista, clientes, etc. S\u00f3 se ouvia no escrit\u00f3rio falar em \u201cS\u00f4\u201d, se a S\u00f4 fez, se a S\u00f4 mandou, se a S\u00f4 j\u00e1 revisou, se a S\u00f4 ligou para n\u00e3o sei quem e por ai vai.<\/h4><h4>Rigorosamente, a S\u00f4 cuidava de ser a pessoa certa, na hora certa e no lugar certo. Ainda que seu expediente formal fosse de meio-per\u00edodo vespertino, s\u00e3o incont\u00e1veis as vezes que ela atravessou noite no escrit\u00f3rio para dar cabo do trabalho. Trabalho muito bem feito e nunca ficou de mau humor por isso.<\/h4><h4>Ela gozava do raro atributo de assumir responsabilidades sem vacilo. Al\u00e9m de fazer trabalhos t\u00e9cnicos, j\u00e1 tinha assumido frentes de coisas administrativas, gest\u00e3o dos clientes e cobran\u00e7as, sempre comprometida. Precocidade e vontade de ir avante aos degraus da escada de crescimento estavam \u00f3bvias nela.<\/h4><h4>A vida era bem demandante dela. Faculdade de manh\u00e3, trabalho \u00e0 tarde e, frequentemente, at\u00e9 beeem tarde! Nas noites em que n\u00e3o era convocada pela ROL\u00c9ZIO ADVOGADOS, estudava, de verdade mesmo, para conhecer, n\u00e3o s\u00f3 para tirar nota. Nas sextas feiras era dia de namorar com o Joca.<\/h4><h4>Houve alguns expedientes de s\u00e1bado e ela estava l\u00e1. Sempre \u00e9 caso de celebrar os raros casos de estudante da PUC paulista, jovem, que nem fuma maconha e tampouco se deixa seduzir por ideologias, ilus\u00f5es ou subterf\u00fagios esquerdistas que proclamam o vitimismo como bandeira unidimensional da vida. Era o caso da nossa S\u00f4, que passara inc\u00f3lume a essas tenta\u00e7\u00f5es escapistas baixas.<\/h4><h4>Ela se mostrava c\u00f4nscia, em conhecimento e a\u00e7\u00e3o, de que o \u00eaxito vem aos que acordam mais cedo, dormem mais tarde e assumem responsabilidade ativamente sem muito choror\u00f4.<\/h4><h4>O dinheiro dela era sempre contadinho na ponta do l\u00e1pis, e que ponta afiada do l\u00e1pis era essa: saldo para despesas discricion\u00e1rias: R$ 0,00. Zero mesmo. O sufoco financeiro era dos bravos. A casa seguia com goteiras gordas abertas. A moral seguia alta por conta do esp\u00edrito dos espartanos, que era incorporado pela jovem mo\u00e7a e bem como pela m\u00e3e dela. Afinal, pobreza material n\u00e3o implica pobreza de esp\u00edrito, e \u00e9 a riqueza deste que conta para quem quer ser gente grande com \u2018G\u2019 mai\u00fasculo!<\/h4><h4>Obviamente, a mo\u00e7a caiu nas gra\u00e7as do Dr. ROL\u00c9ZIO. Tornaram-se amigos \u00edntimos e confidentes rec\u00edprocos da experi\u00eancia de viver. A rigor, ambos eram jovens-verdes-de-tudo, com diferen\u00e7a de idade de apenas 3 anos entre eles.<\/h4><h4>As m\u00e1s l\u00ednguas, por evidente, sussurravam que haveria um affair entre o ROL\u00c9ZIO e a S\u00f4, pois, n\u00e3o seria cr\u00edvel aquele desprendimento todo dela apenas por senso de dever profissional, mas esse era o caso e \u00e9 fato que, as m\u00e1s l\u00ednguas da oposi\u00e7\u00e3o, nem sempre acertam.<\/h4><h4>Sempre o ROL\u00c9ZIO bradou, e ainda bradar\u00e1 totae vitae, por saudosismo que n\u00e3o se deixa apagar aos ventos a verdade de que, a S\u00f4 foi pe\u00e7a fundamental, n\u00e3o s\u00f3 para fazer frente aos desafios daquele momento cr\u00edtico do escrit\u00f3rio, mas muito mais como para desembotar para valer o neg\u00f3cio, que veio a ser muito pr\u00f3spero, mas sem a presen\u00e7a da mais valiosa colaboradora, como este conto desnudar\u00e1 aos que a seu cabo chegarem.<\/h4><h4>O escrit\u00f3rio passou a um ciclo de crescimento sustent\u00e1vel. Obteve o primeiro cliente pessoa jur\u00eddica, uma famosa f\u00e1brica de m\u00f3veis, gerando uma renda mensal razoavelmente garantida.<\/h4><h4>Em paralelo, a S\u00f4 se formou e, obviamente, foi contratada como advogada integral, calhando que o escrit\u00f3rio j\u00e1 conseguia ter um m\u00ednimo de f\u00f4lego. Em poucos meses adiante, j\u00e1 foi o caso de contratar mais um advogado j\u00fanior e uma estagi\u00e1ria. E, a mui precoce S\u00f4, passou a ser a gerente do time. Novamente, ela n\u00e3o se limitou aos pequenos nos patamares de prover boa impress\u00e3o, mas da supera\u00e7\u00e3o de expectativas.<\/h4><h4>Em um ano e meio seu sal\u00e1rio tinha evolu\u00eddo de R$ 280,00 para R$700,00 e, depois, para R$ 900,00. Obviamente, n\u00e3o era fortuna e nem implicava o fim de aperto financeiro em casa, mas necessariamente trazia alegre suaviza\u00e7\u00e3o dos pesos dos fardos da vida.<\/h4><h4>As goteiras da casa foram resolvidas, como exemplo dos efeitos do novo patamar de prosperidade. No anivers\u00e1rio da m\u00e3e, houve at\u00e9 uma pequena recep\u00e7\u00e3o para convidados, ROL\u00c9ZIO inclu\u00eddo, coisa de que h\u00e1 anos estavam privadas a mo\u00e7a e sua m\u00e3e.<\/h4><h4>No horizonte da ROL\u00c9ZIO ADVOGADOS, e n\u00e3o sem a justa contribui\u00e7\u00e3o da S\u00f4, coisas boas se insinuavam com for\u00e7a. A mais da empresa moveleira, ingressou uma boa empresa no ramo de telefonia celular, com promessas pululantes para novos neg\u00f3cios e que o tempo veio a consagrar positivamente.<\/h4><h4>O trabalho seguia denso, a S\u00f4 seguia focada, comprometida e sob seus bons predicados. Postos os limites de uma rec\u00e9m-formada, pode-se afirmar que vinha muita fruta de seus galhos.<\/h4><h4>A rigor, tamb\u00e9m o ROL\u00c9ZIO era um precoce no meio de marmanjos do mercado. A uni\u00e3o dos dois compunha uma unidade \u201cbrancaleone\u201d de respeito.<\/h4><h4>Por conta de momento e justi\u00e7a, mas tamb\u00e9m por imaturidade para com as coisas sombrias das personalidades, o ROL\u00c9ZIO prop\u00f4s \u00e0 S\u00f4 virar s\u00f3cia do escrit\u00f3rio, deixando de receber sal\u00e1rio e passar a ter resultados. O que ela aceitou de pronto, coisa que tanto era querida quanto esperada por ela. Ela recebeu 20% do neg\u00f3cio.<\/h4><h4>No primeiro m\u00eas como s\u00f3cia, calhou de ingressar no escrit\u00f3rio uma bela, memor\u00e1vel e, infelizmente, n\u00e3o repetida causa judicial complexa no Cear\u00e1, e tal que a S\u00f4 recebeu R$6.000,00, ou seja, fez em um m\u00eas, como s\u00f3cia, o que fizera nos sete meses anteriores como funcion\u00e1ria-gerente!<\/h4><h4>Claro que o resultado foi motivo da mais fina e sincera alegria com regozijo entre a S\u00f4 e o ROL\u00c9ZIO. O jantar da comemora\u00e7\u00e3o comportou ocorrer no requintado BASSI em S\u00e3o Paulo.<\/h4><h4>Os resultados mensais subsequentes da ROL\u00c9ZIO ADVOGOS foram tamb\u00e9m bons, ainda que n\u00e3o repetissem o recorde da partida da talentosa S\u00f4 como s\u00f3cia. Ela recebeu, no m\u00eas seguinte, R$ 3.500,00, depois R$ 4.000,00, baixou para R$ 1.000,00, subiu para R$ 3.000,00 e, num dado m\u00eas, foi NEGATIVO, ou seja, ZERO para ela. Vida de s\u00f3cio, afinal, \u00e9 vida de oscila\u00e7\u00e3o entre tempos de vacas magras e gordas, coisa t\u00e3o natural como que ap\u00f3s a escurid\u00e3o da madrugada vem o raiar do sol.<\/h4><h4>A S\u00f4, como lhe era pr\u00f3prio, nunca se queixou propriamente de nada, mas sinais de abatimento ou ansiedade emergente estavam no ar. Muita pergunta sobre \u201cse\u201d isso ou \u201cse\u201d aquilo, etc. Alguns dias ela atrasou, coisa at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita. Em um certo dia, n\u00e3o apareceu e nem dera aviso pr\u00e9vio.<\/h4><h4>\u00d3bvio que ao ROL\u00c9ZIO coube investigar o que se passava com a alma da querida S\u00f4, \u00a0at\u00e9 para espantar ou assumir seu temor maior, que era saber se ela estava articulando-se com algum outro escrit\u00f3rio.<\/h4><h4>Ap\u00f3s algumas conversas com ela veio \u00e0 tona uma sutileza: a S\u00f4 estava FALIDA e entrara em colapso nervoso, sem condi\u00e7\u00f5es de tralhar. Sim, isso a\u00ed, FALIDA, devendo dinheiro para muita gente, incluindo desde joalherias a bancos, sem contar at\u00e9 d\u00e9bito com agiota &#8211; daqueles cujo nome n\u00e3o se revela &#8211; com quem se socorrera.<\/h4><h4>Lembram-se da retirada de R$ 6.000,00? Pois \u00e9, a S\u00f4 gastou uma \u00ednfima parte deles em consumo de coisas pagas no pr\u00f3prio m\u00eas e usou a vasta maior parte para fazer frente \u00e0 primeira parcela de v\u00e1rios financiamentos de compras que fez. Ela n\u00e3o poupou R$ 1,00 e comprou, com presta\u00e7\u00f5es de financiamentos, joias para si e para m\u00e3e, ternos para o namorado, perfumes, fullday servisse para si e para a m\u00e3e em sal\u00e3o de beleza, viagem em alto estilo para Campos do Jord\u00e3o com o namorado, entre outras coisas.<\/h4><h4>A nossa espartana, para espanto, transmutou-se numa pr\u00f3diga. Afinal, pode-se ter em mente que os espartanos da era cl\u00e1ssica tinham contra si inimigos de espadas e lan\u00e7as, mas n\u00e3o enfrentavam a tem\u00edvel oferta de financiamento f\u00e1cil, esse sim, o perigo dos perigos.<\/h4><h4>A mo\u00e7a devia mais de R$ 30.000,00! J\u00e1 corria prazo para inscri\u00e7\u00e3o do seu nome no SERASA, SPC e Cart\u00f3rio de Protestos. Tinha cheques pr\u00e9-datados voando na pra\u00e7a, dois deles com o tal do agiota, daqueles cujo temor se releva, mas n\u00e3o o nome do mesmo.<\/h4><h4>Ela empenhou praticamente R$ 6.000,00 na primeira parcela de v\u00e1rios financiamentos. Nos meses seguintes, como n\u00e3o tinha como honrar as v\u00e1rias 2\u00aas parcelas, contraiu empr\u00e9stimos para as diferen\u00e7as, sob a cren\u00e7a de que resgataria tudo logo adiante.<\/h4><h4>Como isso n\u00e3o se sucedeu, no 3\u00ba m\u00eas contraiu mais d\u00edvida com terceiros para honrar as 3\u00aas parcelas iniciais mais as parcelas dos financiamentos que sobrevieram. \u00c9 aquele papo da bola de neve que j\u00e1 deu partida. Segue por si, e n\u00e3o interrompe sua in\u00e9rcia crescente antes de deixar as marcas fundas de destrui\u00e7\u00e3o de coisas e sonhos.<\/h4><h4><em>&#8211; Voc\u00ea ficou louca? Como \u00e9 que voc\u00ea faz uma coisa assim? &#8211; <\/em>Indagou duplamente o ROL\u00c9ZIO sem ter muito tato com a situa\u00e7\u00e3o?<\/h4><h4><em>&#8211; Foi muita despesa, eu sei, mas o problema \u00e9 que o escrit\u00f3rio n\u00e3o est\u00e1 rendendo tanto. Para que eu fui virar s\u00f3cia? Agora, at\u00e9 a minha m\u00e3e est\u00e1 nervosa com voc\u00ea, p&#8230; ! &#8211; <\/em>Respondeu a S\u00f4 com conota\u00e7\u00e3o de deprecia\u00e7\u00e3o do escrit\u00f3rio.<\/h4><h4><em>&#8211; S\u00f4, voc\u00ea recebeu em poucos meses o equivalente a mais de dois anos de sal\u00e1rio que vinha ganhando. Agora \u00e9 fase ruim e tu precisa segurar as pontas, mas n\u00e3o tem sentido voc\u00ea ter feito tudo isso que voc\u00ea fez, criatura. Ser s\u00f3cio \u00e9 assim.<\/em><\/h4><h4><em>&#8211; Qual a vantagem de ser s\u00f3cia e n\u00e3o receber todo m\u00eas como os funcion\u00e1rios est\u00e3o recebendo? Voc\u00ea me quis como s\u00f3cia para n\u00e3o ter que pagar quando n\u00e3o entrar dinheiro, \u00e9 isso.<\/em><\/h4><h4><em>&#8211; Eu vou respeitar teu momento de calor, S\u00f4, mas voc\u00ea recebeu uma merecida e muito boa oportunidade para ficar como s\u00f3cia.O fato \u00e9 que voc\u00ea mal geriu a informa\u00e7\u00e3o do aumento de sal\u00e1rio e j\u00e1 est\u00e1 com problem\u00f5es que eu n\u00e3o posso te ajudar a resolver, em especial com esse tratamento de tom que est\u00e1 me dando. Eu conhe\u00e7o bem tua situa\u00e7\u00e3o pessoal. O que voc\u00ea fez com o dinheiro \u00e9 o absurdo dos absurdos. O fato \u00e9 que voc\u00ea precisa estar aqui, no escrit\u00f3rio, focada no trabalho, at\u00e9 mesmo para gerar resultados e sair dessa vala inacredit\u00e1vel que voc\u00ea entrou.<\/em><\/h4><h4>N\u00e3o interessa que a S\u00f4 fosse \u2013 e o era sim, em ess\u00eancia geral \u2013 pessoa de bom n\u00edvel, mas padecia do mal maior das gentes, particularmente mulheres, que jamais se revelara antes, chamado VAIDADE e que tem filhotes terr\u00edveis como o negacionismo, a invers\u00e3o de responsabilidades, etc.<\/h4><h4><em>&#8211; Esse escrit\u00f3rio n\u00e3o presta! Voc\u00ea me quis como s\u00f3cia para n\u00e3o me pagar, s\u00f3 isso! &#8211; \u00a0<\/em>berrou a S\u00f4 &#8211;<em> Como \u00e9 que eu fico agora com a minha m\u00e3e!?!<\/em><\/h4><h4><em>&#8211; B.a.i.x.a. o.b.r.i.g.a.t.o.r.i.a.m.e.n.t.e. o teu tom &#8211; <\/em>respondeu o ROL\u00c9ZIO com o tom g\u00e9lido que a situa\u00e7\u00e3o impunha.<\/h4><h4><em>&#8211; N\u00e3o vou baixar nada. Quem \u00e9 voc\u00ea para falar da minha fam\u00edlia e das minhas coisas? Eu fa\u00e7o o que eu quiser e n\u00e3o preciso da tua autoriza\u00e7\u00e3o e deste teu escrit\u00f3rio de merda. Olha s\u00f3, olha aqui \u00f3, tem recado, tem aviso que o meu nome vai para o Serasa se eu n\u00e3o pagar. Eu n\u00e3o vou pagar porra nenhuma, t\u00e1 sabendo? Os funcion\u00e1rios, voc\u00ea viu, v\u00e3o receber sal\u00e1rio, mas eu n\u00e3o vou receber nada esse m\u00eas. N\u00e3o \u00e9 uma merda de R$ 1.000,00 que paga as minhas contas. Eu j\u00e1 quis devolver parte das coisas que eu comprei, mas as lojas n\u00e3o aceitam. Eles que se fodam tamb\u00e9m.<\/em><\/h4><h4><em>&#8211; T.u.- m.e. p.e.d.e.s. d.e.s.c.u.l.p.a.s, S.\u00f4., e i.m.e.d.i.a.t.a.m.e.n.t.e.<\/em><\/h4><h4>Replicou o ROL\u00c9ZIO de forma mais g\u00e9lida e bem pausada. E complementou: <em>&#8211; a tua outra op\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o me pedir desculpas e falar como gente, \u00e9 pegar tuas coisas e se retirar. \u00a0Mas vir desmoralizar as coisas ou a mim, n\u00e3o vou aceitar!<\/em><\/h4><h4><em>&#8211; N\u00e3o \u00e9 isso! Mas eu preciso de dinheiro, como \u00e9 que eu vou pagar as coisas?<\/em><\/h4><h4>O ROL\u00c9ZIO baixou o tom e seguiram conversando para ver o quanto de estrago financeiro ela tinha feito e o que se podia fazer. Era grave. N\u00e3o era mais R$ 30.000,00. Nem se sabia mais o quanto ela gastou, como e onde. Ela ainda omitia as coisas, os papos estavam truncados. Afirmou de p\u00e9s juntos que n\u00e3o diria o nome do agiota. Tudo para pagar j\u00f3ia, terno, perfume, viagens, brinquedos para uma afiliada, para a amiga que casou e etc. Tudo por um sonho de ser a nova rica do peda\u00e7o.<\/h4><h4>De qualquer forma, passados uns hiatos breves de conversa assertiva e realista, a t\u00f4nica da VAIDADE, sempre essa mazela, retomou o tim\u00e3o e a, at\u00e9 ent\u00e3o magn\u00edfica mo\u00e7a, surpreendente, comprometida e tudo o mais, n\u00e3o deixava de ser apenas mais uma mo\u00e7a vulgar ou apenas uma ordin\u00e1ria, como se diz.<\/h4><h4>Toda a austeridade, rigor, comportamento r\u00edgido sucumbiram ante a cupidez do \u00edmpeto de consumismo, t\u00e3o represado e t\u00e3o dissimulado. Os recursos naturais da vergonha, do poss\u00edvel auto perd\u00e3o, dos efetivamente arrependidos, pela funda dor advinda dos erros pr\u00f3prios n\u00e3o vieram \u00e0 tona por igual, recursos esses que seriam os \u00fanicos a viabilizar o in\u00edcio de uma longa jornada para sanear, no futuro sabe-se l\u00e1 qual, a estupidez passada. Voltou ao protagonizar no palco a VAIDADE, com negativa de responsabilidade pr\u00f3pria qualquer, com imputa\u00e7\u00f5es ao escrit\u00f3rio, ao pa\u00eds, ao capitalismo, etc.<\/h4><h4><em>&#8211; S\u00f4, hora de despedida, pois. Tuas atitudes chegam ao rid\u00edculo. Fico com pena e perplexo contigo. Voc\u00ea ficou louca. Com dor, te pe\u00e7o para partir. Saio da tua sala para que voc\u00ea pegue suas coisas com a tranquilidade que for poss\u00edvel.<\/em><\/h4><h4><em>&#8211; Humm.., t\u00e1 vendo s\u00f3!!!<\/em> &#8211; Berrou a S\u00f4, antes de virar o rosto com nariz empinado para cima, esbanjando conota\u00e7\u00e3o de superioridade moral sobre o ROL\u00c9ZIO, fazendo o olhar de desprezo de quem est\u00e1 com falsa indigna\u00e7\u00e3o.<\/h4><h4>O ROL\u00c9ZIO saiu da sala da ex-nova rica e agora falida. Ela pegou suas coisas em poucos minutos, deu tchau seco a todo mundo, menos ao ROL\u00c9ZIO, saiu sem olhar para tr\u00e1s e nunca mais voltou.<\/h4><h4>Os avisos dirigidos a ela, vindos do SERASA, SPC, Cart\u00f3rio de Protestos, liga\u00e7\u00f5es de banco, de credor xingando e outros, seguiram chegando por muito tempo.<\/h4><h4>A m\u00e1xima, de que o jeito mais garantido de conduzir o pobre \u00e0 mis\u00e9ria absoluta \u00e9 dar-lhe algum dinheiro, n\u00e3o abriu exce\u00e7\u00e3o no caso da nossa S\u00f4. Ela era muito feliz, e mesmo rica, com R$ 900,00 e n\u00e3o sabia.<\/h4><h4>S\u00e3o Paulo, 22\/05\/20. O Autor.<\/h4><p>\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os tempos eram duros l\u00e1 na ROL\u00c9ZIO ADVOGADOS. Apenas o Dr. Rol\u00e9zio como advogado para dar cabo a um volume de trabalho quase invenc\u00edvel e que seria pr\u00f3prio para, ao menos, dois advogados plenos, sen\u00e3o mesmo tr\u00eas e mais um estagi\u00e1rio. 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