O Gil, que gostava muito do Rolézio – Conto

Na aparência geral, ele sempre expressava cansaço ou alguma perda de viço crônicos, o que não impedia o seu sobressalto de simpatia nem a conversa expansiva. Ademais, trabalhava muito.

As manchas de calvice no meio da cabeleira branca deixavam claro que uns bons 60 ou quase isso já tinham passado na trajetória do nosso homem.

Apesar disso tudo, ele não era leal; só tinha orgulho – e que tremendo orgulho – de uma forma de lealdade que só existe nas cabeças dos masoquistas e nunca na realidade.

O Dr. Rolézio conhecera o Gil numa corrida de táxi tomada no ponto da Liberdade, bairro da japonesada das antigas de São Paulo e onde funcionava a Rolézio Advogados, escritório de advocacia empresarial.

A simpatia, elegância, postural reto e o apessoamento geral do Gil bem impressionaram o Rolézio. Coincidiu que o Rolézio ruminava aquele problema do Detran …

Dias antes de conhecer o Gil, o Rolézio houve, sob todo contra gosto, de entregar a carteira de motorista ao  Delegado do Detran, que fora cassada por explosão na pontuação. A sensação era de passarinho sem asa – o Rolézio realmente gostava de dirigir e no limite da potência do motor!

A solução estava à vista. Quem não tem carro, pode ter motorista e o Gil passou a ser o motorista inicialmente do Rolézio, depois da Rolézio Advogados, levando os advogados, depois da família do Rolézio, depois foi virando secretário de afazeres gerais do Rolézio e até o ponto de ter chaves do escritório e da própria casa do Rolézio.

O fluxo de trabalho aquele elegante motorista foi tal que ele houve te contratar mais motoristas ajudantes. Ele era o primaz, mas já deixava sob a manga cartas de até 3 coadjuvantes, sob arrumação, controle direto, mui meticuloso do próprio Gil, que já era um coordenador da gestão de expedição da Rolézio Advogados.

Recebia toda 5ª feira das mãos da secretária do escritório e conforme relatório que ele apresentava diretamente a ela. Nunca o Rolézio leu qualquer dos relatórios. A confiança, afinal, é o chão único para se pisar.

Numa das mãos do Gil, a prosperidade se destacava. De um carro de frota, com pagamento diário, em poucos meses, ele foi para um carro novo usado, mas quitado, sem féria para entregar.

Mais um ano e veio o caro novo novo, com financiamento suportável dignamente. O Gil até deu e conseguiu quitar a casinha dele na periferia, pulando sobre a draga do aluguel!

Ele nunca reconheceu, mas as estrelas devem ser testemunhas de que ele recebia comissão dos demais motoristas que ele convocava.

Ele até assumiu a recepção institucional da Rolézio Advogados; recebia clientes no aeroporto, levava-os para almoçar nos bistrots paulistanos e para tours na cidade, destinos que conheceu levando o Rolézio para aqui e para lá.

Nunca e absolutamente nunca ele atrasou, nem chegou desarrumado, nem deixou incurado algum afazer. 

Antes de ser motorista de táxi, dizia o Gil que, entre outras ocupações, fora gerente de RH de empresa metalúrgica e até mágico de shows, tudo condizente e até mesmo explicativo de como o motorista de táxi tinha tanta desenvoltura no trato com as pessoas.

Havia franco entrosamento entre o Gil e o Rolézio, tudo para ser relação ganha-ganha. Foram anos nesse fluxo.

A outra mão, contudo, teimava em destruir o que a primeira mão produzia. O homem tinha prole grande na quantidade … Gente acostumada a viver com pouco, mas que quando o muito pouco virou menos pouco, passou a reclamar mimos, desde “chinelos da moda” a viagem a Campos do Jordão, bolsa do shopping e coisas assim, aparentes na inocência isolada mas interminável na repetição.

E a mão do Gil se abria para uma. Daí tinha que abrir para outra, para outra, a para a uma de novo e aí vai ao infinito. As pessoas acham que simpáticos não sabem dizer não e têm razão quanto a isso na maioria das vezes.

O fato é que o homem já largara a escama de motorista de taxi de frota e era chofer e gestor de choferes do escritório, mas, tirante os proveitos efetivos do início, vinha se desfalcando financeiramente.

Numa ocasião, o Gil pedira ao Rolézio um adiantamento de pagamento, coisa de monta mínima, insuficiente para comprar 2 calças jeans. O Rolézio, emprestou e nunca mais falou do assunto até porque nunca mais se lembrou disso.

Segundo ulteriormente se verificou, aí houve uma bifurcada no psiquismo do motorista simpático.

Na frente do Rolézio, ele disfarçava, mas, como se sabe, os caguetes são onipresentes. Volta e meia contavam ao Rolézio que o Gil estava nervoso e, mais ainda, dera de ficar em dúvida sobre se o Rolézio gostava mesmo dele ou não. Aqueles tipos de paranóias que sempre têm natureza de profecia auto realizada … 

Dizem que não havia dia que o Gil deixasse de ligar pares de vezes para os advogados para saber se eles sabiam de alguma coisa pela qual o Rolézio estaria zangado com ele.

Entreter-se com a aflição alheia é passatempo de tanta gente e, logo, o foi também de vários da Rolézio Advogados. Diziam-lhe, em tom de chacota, que o Dr. Rolézio estava zangado com o Gil pelo simples gozo da disrupção!

A grandeza do quanto se riu dele é inexprimível em matemática não quântica.

Certa feita, a secretária estava de férias, substituída apenas por uma atendente ad hoc e calhou de que, numa quinta feira, o Rolézio saiu e não voltou. Diz o óbvio que os pagamentos usuais da quinta feira, pois, seriam feitos na 6ª feira cedo.

Na quase meia noite da dita 5ª feira, soa o fone do Rolézio. Era chamada da Roseli, esposa do Gil.

– Alô, Roseli, aconteceu algo ? Foi a indagação natural do Rolézio.

– Dr. Rolézio, boa noite. Não, está tudo bem, mas preciso contar uma coisa para o senhor, que é que o Gil gosta muito do senhor, viu?

– Ok, Roseli, mas você me chama para falar isso ou tem algo mais?

– Ele gosta muito do senhor. Pode contar com ele sempre. O senhor precisa saber disso, pois ele gosta muito do senhor. Gosta mesmo, de verdade.

– Roseli, é meia noite. Eu vou continuar a dormir. Boa nooooite!!!

– Mas ele gosta muito do senhor, viu?

No instante, o Rolézio não teve a sensibilidade de penetrar para nada além do distópico diálogo noturno.

Na 6ª feira, o Rolézio chega no escritório umas 10:30. A Soraia, a tal atendente ad hoc, estava exasperada, pois, o Gil ligara ao menos 10 vezes desde as 09:00 para ficar falando que ela tinha que dizer para o Rolézio de que ele, Gil, gosta sim do Rolézio.

Contou ainda que, na véspera, o Gil fora receber, no que foi frustrado pela ausência do Rolézio e que, então, teve chilique e ficou obsessivamente asseverando que gosta muito do Dr. Rolézio, deixando-a amedrontada de alguma loucura que fosse fazer.

Os advogados, a sua vez, vieram falar com o Rolézio que o Gil também estava desde a véspera ligando freneticamente a todos para dizer e até gritar que ele gosta sim do Rolézio e que esse pode confiar nele.

Disseram, ademais, que ele perguntava se o não pagamento seria por causa de algo que o Rolézio estivesse chateado, porque daí ele podia explicar qualquer coisa e que era para todo mundo avisar o Rolézio que o Gil gosta dele sim.

O homem não conseguia entender que pura e simplesmente a secretária, que ele conhecia de anos, estava ausente e que a atendente não teria, óbvio, a chave do caixa.

O Rolézio suspirou. Sentou e ficou mudo, perplexo, por uns 2 minutos. Foi subitamente tomado de profundo senso de desprezo pelo até então bastante estimado Gil.

Desprezo daqueles cristalinos, desprovidos de qualquer rancor. Ficou claro num giro mental do Rolézio que o homem nunca lhe fora leal; era só um servo amedrontado e eternamente incapaz de ser por si alguma coisa e que se agarrara na tábua de salvação da simpatia.

Nesse meio tempo, a Soraia volta dizendo que Roseli chamara em prantos doloridos informando que podia descontar do pagamento que era devido na véspera o valor que antes tinha sido adiantado pelo Rolézio, mas que sempre precisa ser lembrado ao Rolézio que o Gil gosta muito dele sim.

O Rolézio sacou o dinheiro do bolso, pôs no envelope e mandou entregarem-lhe bem longe da Rolézio Advogados.

Ao cabo, o maior legado que o Gil deixou ao Rolézio foi o hábito de não mais dirigir, mesmo após a reabilitação da carta junto ao Detran e num tempo em que o Uber não existia. De quem o Gil estará gostando hoje?

São Paulo, 05/09/20. O Autor.

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