065 – Todo/Parte, Cosmovisão e Ideologia

065 – Todo/Parte, Cosmovisão e Ideologia

Autor: Vicente do Prado Tolezano 05/05/2020

1) PARTE/TODO

Existem “partes” e “todo”, este um princípio de ordem sobre aquelas. Há todos parciais, partes de outros todos, ditos subtotais, e partes totais sobre outras partes da parte, ditas subpartes. Podemos dividir em tantas camadas queiramos, mas da tensão de discernimento entre “parte” e “todo” nunca escapamos, tal como o ovo não escapa da galinha e nem a galinha do ovo.

Mesmo quem não pense sobre o todo, tem uma intuição inconsciente/difusa dele. O psiquismo duma criança já desnuda esse esquema, de que alguma organização explicativa das partes avulsas por um todo há de haver. “Todo” sempre inculca, repetimos, um senso de “ordem”.

Na falta de recursos conceituais sobre violência, perigo, etc., crianças, por exemplo, aprendem a imaginar “o boi da cara preta”, que faz a vez ordenadora de um todo e sob o qual as próprias emoções de medo dessa criança se arrumam. Uma “parte” solta, sem um todo que dê alguma significação, ainda que falsa, é caos e o psiquismo não aguenta isso. Seria como membros sem cabeça!

Uma simples notícia, ou seja, uma parte da realidade, de que uma moça de minissaia dormira no banco do Uber e restou abusada costuma trazer reações de subconscientes  como “quem mandou dormir no Uber?” ou “safada!”, desnudando assunção de todos pressupostos, seja de tara masculina ou promiscuidade feminina.

Escapar da compulsão reativa de explicações irrefletidas, simplistas, justificadoras ou censórias, que os antigos chamavam de “opinião” demanda maturidade intelectual.

2) COSMOVISÃO

Às propostas de compreensão do todo último, no sentido de elucidar os modos de articulação entre as partes, dá-se o nome de COSMOVISÃO.  Aliás, o sentido da aglutinação etimológica de “cosmos” e “visão” se apresenta por si.

É óbvio que COSMOVISÃO é um valor, eis que sua afirmação sempre implica, explícita ou tacitamente, preterição de outras propostas de todo. Cosmovisões são a fina flor das possibilidades de significação. A posse de uma cosmovisão mais lúcida é luz de lampião perto da luz de vagalume dos desprovidos duma.

A rigor, propor cosmovisões é trabalho de filósofos, sábios e místicos e as partes, em si, são objeto de atenção dos cientistas, homens práticos e políticos.

Platão (428 – 348 a.C.) exemplificou com a cosmovisão paupérrima dos homens da caverna, reduzidos a um “pseudo todo” meramente sensível, e para os quais o mundo de luz plena era desconhecido e nem seria verossímil. Obviamente, o âmbito vital daqueles homens era ínfimo, recordando-se sempre que significar integra a vitalidade humana.

No próprio Mito da Caverna, Platão exalta o raro espírito dialético, como ação de síntese para, sucessivamente, alcançar mais e mais luz, num esquema em que todas as partes, da exterioridade e interioridade, sejam na perspectiva do conhecimento quanto da atitude, se explicam a partir de sucessivos “todos maiores”.

O conhecimento das partes do mundo que, por exemplo, Aristóteles (384 – 322 a.C.) teve é seguramente muito inferior ao de qualquer cientista contemporâneo medíocre, mas a intuição do todo por ele alcançada segue iluminando muito claramente as articulações das sucessivas descobertas de mais e mais “partes”.

Em termos muito precisos, cosmovisão não é questão de “razão”, mas de “inteligência” no sentido cristalino.

As grandes tradições religiosas trazem cosmovisões místicas explicadoras, sob perspectivas distintas, do todo mundano e transcendente. 

O dualismo e integridade eterna da alma consoante cosmovisão cristã, por exemplo,  elucida uma organização do todo e instiga a abordagens distintas das preconizadas por tradições religiosas orientais com base no monismo e reencarnação da alma.

Outro exemplo de distinção, inclusive por inversão, de cosmovisões entre ocidentais e orientais, agora focada no aspecto da senciência, foi anotado por Northrop Frye (1912 – 1991), tal que para os OCIDENTAIS a razão conta do mundo exterior e as emoções do interior ao passo que para os ORIENTAIS a razão conta do meu interior e as emoções contam do mundo exterior.

Não há nenhuma dúvida de que, por isso ou pelo menos também por isso, os modos de existência e experiências humana ocidental e oriental diferem-se em grandes linhas.

Aspecto muito importante é que a busca natural por um todo, próprio da cosmovisão, é uma busca de natureza sintética, no sentido preciso de uma submissão do homem-parte a um todo por ele buscado, que lhe explique, óbvio, lhe transcenda, sempre com vistas ao aumento da lucidez e da amplitude da vida até seus extremos.

Quem persegue cosmovisões sinceramente e pelo fim existencial em si tende, inclusive, a apreciar o encontro com cosmovisões distintas, sempre úteis na síntese dialética, como processo de ascensão do espírito.

O próprio Platão, no Mito da Caverna, Platão já salientava sobre o espírito de dialética (síntese) na persecução dos fios de luz, o qual é meio e atitude de travessia dolorosa da ignorância para a lucidez “em detrimento do espírito defensivo”, que é aquele de manutenção de mero hábito ou defesa/imposição de um estado de coisas.

Advertia ele do perigo do prisioneiro até matar o iluminado, ex-prisioneiro que fugira e viu o astro solar, ordem simbólica do cosmos, que voltasse à escuridão para anunciar o sol aos que veem sombras.

3) IDEOLOGIA

 Uma degeneração de cosmovisão tem nome certo, que é IDEOLOGIA, a qual tem cara, cheiro e jeito de cosmovisão, inclusive por ela quer se fazer passar, mas não a é, eis que carece da “alma sintética da cosmovisão”.

Ainda que a ideologia, na primeira vista, dê explicações de algumas totalidades (precisamente, sub-totalidades), tem INTERESSES e se presta de expediente ao espírito defensivo distinto da síntese, apegando-se nas “reduzidas” sombras, o que modernamente chamamos de “ego” ou “ego-expandido-coletivo”.

Por exemplo, o todo do ideólogo marxista é a mesquinharia da luta de classes, ao passo que o do ideólogo liberal é a benevolência da iniciativa individual, num esquema em que ambas as abordagens têm efeitos reducionistas do todo humano às suas formulações de abordagem do homem enquanto ato e efeito econômicos.

Ainda que efetiva a dimensão econômica do homem, ela é parte, quando muito um sub-sub-sub-total. As ideologias subvertem parte pelo todo, num esquema em que buscam conter o todo na parte ao invés de sintetizar a parte no todo. Noutras palavras, o que deveria ser explicado vira fonte da explicação!

Ideologias têm “quezinhos” de verdade e seus QUEZÕES de erros, absolutamente como as sombras da caverna platônica. O espírito reducionista é muito grave porque distancia do senso de realidade e é erro em si mesmo de perspectiva existencial.

A etimologia de ideologia elucida como “lei das ideias”, tal como que as ideias é que legislariam sobre realidade, criando-a, ao invés de captarem-na.

 Ideólogos, via de regra, têm ojeriza às ideologias adversárias (que são as contrárias) ou apenas adversativas (que são as mais amplas), eis que carecem de atitude e ânimo de síntese e rendição a um todo.

Sua ânsia é de PODER e a simples não confirmação de poder é irritantemente frustrante, fazendo lembrar que parte é só parte mesmo, tal que não se cria nada, apenas se descobre.

Pouco importa se a parte da ideologia é fundada em economia, sexo, nacionalismo, fundamentalismo religioso, ou outra parte destacada, que na questão de fundo é apenas busca de amparo/manutenção/defesa de uma posição em relação aos outros, seja para se defender, para atacar, influenciar ou deixar de ser influenciado, julgar, comparar, enfim, atritar mesmo.

Na perspectiva do indivíduo, aderir a uma posição ideológica é só fingidamente ato de crença e, substancialmente, é ato de busca de poder com arrimo em busca última consciente ou não, de amparo psicológico identitário num grupo real ou mesmo imaginário contra “outros”, igualmente reais ou imaginários a partir de uma narrativa que pode ser tão fantástica como uma simples “parte ser transformada no todo”.

A explicação psíquica, aliás, de toda ideologia é a mesma explicação do fenômeno do, um subterfúgio de escapismo existencial.

Fanatismo religioso, por exemplo, nada mais é que ideologia com roupa espiritual, pseudo purgativa de vida desordenada e até também para (pseudo) exonerar/expiar prática de maldade por um álibi de um todo perversamente concebido até como sagrado.

As “explicações de um todo”, mesmo que falso, como já assinalamos, são sempre buscadas, ainda que inconscientemente, e produzem efeitos concretos poderosos. Logo, é justamente aí que residem os esquemas de contingenciamento e manipulação de consciências, inclusive os autoenganos deliberados.

Também é perfeitamente possível adesão a ideologias por conta de manipulação de poder de “parte da consciência” contra “outra parte da consciência” dum mesmo indivíduo, caso próprio das pessoas “dissociadas”, coisa mais comum que peixes no mar.

Importante notar, e aqui o busílis do artigo, que o esquema causal entre cosmovisão e ideologia é oposto, tal que (i) se mudam os interesses, o ideólogo muda de ideologia, ao passo que (ii) se alguém muda de cosmovisão, aí ele muda seus interesses e ações.

Ideólogos sequer se avexam em insinuar que se suas ideologias não dão cabo dos fatos da realidade, o caso seria de erro dos fatos e não da explicação! Satisfazem-se em arguir que a ideologia alheia também não dá conta dos fatos e que seria “mais viciada” que a deles, reforçando o esquema que é o posicionamento para com o “outro” o centro da atenção.

Assunto tratado de forma quase que só ideológica às escâncaras no Brasil respeita ao ano de 1964. Há razoáveis consensos entre vários fatos (partes) passados (ditadura, AI5, torturas, guerrilha, explosões, atentados), pois mais objetivos, mas, quanto à compreensão explicativa, reina a Torre de Babel, eis que ela (a compreensão) sequer é buscada em primazia das preferências meramente ideológicas.

Aplaudir efusivamente ou ojerizar histericamente o regime verde-oliva é adesão ideológica interessada, no mínimo dos mínimos, numa afetividade de ego individual ou coletivo, para subterfugiar alguma ação/interesse de hoje, que, muito provavelmente, não tem nexo fático causal nenhum com o passado – só imaginário.

É absolutamente certo que, goste-se ou não, 1964, tal como eventos históricos quaisquer, terá sido apenas e tão somente uma “parte”, e nunca um “todo em si” suficientemente autoexplicativo e nem fundador das demais explicações, pouco importando as densidades argumentativas ou das narrativas imaginárias de maniqueísmo ideológico à la gauche ou à la droite.

Ao cabo: para viver em plenitude, é necessária busca por cosmovisão lúcida, alinhando-se o indivíduo a todos sucessivamente descobertos e, para fingir (a outros e a si) que se vive em plenitude mas com a certeza de que se vive muito reduzidamente basta uma ideologia.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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