063 – Amizade e Companheirismo – Ouro e Bijouteria

063 – Amizade e Companheirismo – Ouro e Bijouteria

Autor: Vicente do Prado Tolezano 10/01/2020

Amizade para consigo é condição para que tenhamos amigos externos de verdade, pois, a rigor, eles são um “outro eu”, mas integrativo do nosso “eu”.

O esquema é tal que qualquer melindre que tenhamos de nos auto inspecionar elide a possibilidade de amizades com “A” maiúsculo, aquelas que são fundadas apenas em virtude e no caráter pessoal dos envolvidos.

Do “A”migo, se espera sinceridade amorosa agigantada e, no mais das vezes, ele goza da permissão de ser um grande “desmancha-prazeres” por excelência das nossas ilusões e acomodações no fito de prover o nosso crescimento.

Em precisão, a possibilidade de amizade é um prêmio às pessoas virtuosas e de caráter bom, pois viciados em geral e pessoas de caráter quebradiço não têm amigos, ainda que “não raro” estejam rodeados de pessoas, até “ditas” amigas. Pessoas injustas mas poderosas, por exemplo, estão rodeadas de bajuladores, interesseiros ou meramente servis, mas de nenhum amigo.

Ter amigos não é condição para a sobrevivência; é condição, sim, para a “vida boa”, tal que não é nenhum exagero afirmar que viver sem amigos é viver mal, pois é, em grande medida, “viver sem amor”.

Amizade é espécie do gênero amor, bem espiritual, que, em si, é raro e a espécie amizade a mais rara, pois, além de demandar benevolência ativa e desinteressada de alguém em prol de outro, demanda a mesma rreciprocidade.

Ou seja, podemos amar até caritativamente alguém num esquema unilateral, mas isso não implica o amor de amizade. Tampouco o amor de par goza da mesma agudeza de sinceridade que a amizade provê. Raríssimo, aliás, que o amor de par não implique algum senso de “interesse”, ainda que lícito, mas que à amizade não pertine.

Numa vida desprovida de amigos, a posse de virtudes é até possível, mas deveras árdua, quase estóica ou espartana. Com amigos, há a “fruição” efetiva de ser virtuoso, retomando o senso de prêmio do bom a que já aludimos e também é com amigos se evitam deslizamentos para estados de carência existencial, num esquema em que o EU efetivo desabrocha e valha a pena viver.

Claro que a convivência com os outros é condição absoluta para a sobrevivência humana – somos sociais. Havemos de estabelecer muitas relações de “companheirismo” que tantas vezes se chamam “amizade”, mas só em acepção lato sensu.

Rigorosamente, companheirismo é “estabelecer companhia” para certos movimentos. Aristóteles (384 – 322 a.C.) dividia o companheirismo em duas classes por critérios de objetivos: a) para o prazer; b) por utilidade.

O prazer alcança também o senso do que hoje chamamos por afinidade. Companhias por prazer, como sói óbvio, pisam nas superfícies humanas e cessam por absoluto ao cessar a fonte ou a apreciação do prazer. “Sai-se da tribo quando não rola mais” conforme se diz na coloquialidade. Zygmunt Baumann teve essas relações em vistas quando cunhou o termo “amizades líquidas”.

Por utilidade, não se compreende meramente a conotação negativa de “interesseira”, mas as relações de troca justas inclusive, como sói propriamente ao trabalho, relações que tendem ao raso e cessam quando do “companheiro” cessam utilidade ou vantagens, eis que, em efeito, cuida de dimensão funcional-ferramental das pessoas.

A maioria das relações humanas é de companheirismo e é natural mesmo que assim seja, posta nossa condição material. Em maiores ou menores graus, o EU não é NÚ nessas relações e não necessariamente há uma falta grave nisso; o Eu aí se veste com roupas de ocasião chamadas de EGO ou IDENTIDADE ou ainda PERSONAS, como se queira.

Amigos são se ter poucos mesmo e até porque, num sentido, impõem alguma exclusão social, como é próprio de qualquer bem espiritual. Amizades rumam ao bastante espiritual e companheirismo à adaptação ou mesmo limitação material e a um ponto em que a sinceridade efetiva, o chão da amizade, tende até a inviabilizar o companheirismo, razão porque nudez não é caso nessas relações.

Prazer, interesse e ilusão têm em comum a efemeridade. É óbvio que o caráter de alguém pode mudar, mas é o mais permanente e profundo de nós, tal que a amizade propriamente dita é fundada no caráter daí tende à longevidade, máxime porque ela mesmo nutre e renutre reciprocamente os carácteres dos amigos.

Quem brada ter um milhão de amigos provavelmente não tem nenhum. Quem tem ouro guarda-o discretamente e quem tem bijouterias exibe-as ostensivamente e, de certa forma, deixa claro que quer que os demais pseudo confirmem que as bijouterias fossem jóias. Aí e exatamente aí mora o perigo do companheirismo, que é ser tomado como o que não é.

Quem não conhece x, y e z milhares de casos de frustrações de alguém achar que tinha “amigo”, mas só tinha companheiro de prazer ou de utilidade, não discernidos por mera ingenuidade?

Uma pessoa até virtuosa, ou seja, com condições de ter amizades, mas afetivamente carente faz esse tipo de confusão conceitual companheirismo/amizade muito facilmente, podendo se frustrar, senão mesmo ser usada.

O outro lado da moeda de que a amizade é “prêmio” a virtuosos, como não pode ser diferente, vem que à maioria só caberão relações de companheirismo, já que, ao cabo, a NUDEZ do próprio EU lhes é um tabu, tabu esse normalmente compartido de forma tácita nas “relações horizontais”.

A prova e corolário disso e que o leitor pode checar diretamente é que quem trata seus companheiros como amigos não aguenta “solidão”, mesmo de curta duração, pois essa, ao cabo, justamente exibe o EU ao EU, ou seja, justamente aquilo a que quem não tem amigos com “A” grande tende a não ter desenvolvido. As miríades de relações “companheiras” tendem só a dessensibilizar o desencontro do EU com o EU provendo jogos simbióticos.

Ao cabo, voltamos ao início: amizade é tanto meio de descoberta pura do EU como consequência daí decorrente. Quem tem amigos tem condições inclusive de suportar longos períodos de solidão, pois é jogo libertário.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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