040 – (Des)Amor, Maldade e Respostas da Vítima, ou seja, de todos

040 – (Des)Amor, Maldade e Respostas da Vítima, ou seja, de todos

Autor: Vicente do Prado Tolezano 09/10/2018

A raiz etimológica de vítima alcança o vocábulo latino victus, que denota vencido, como dominado.  Em outras palavras: é padecer de uma maldade.

Todo mundo, não só pode ser vítima, como, aliás, necessariamente o será por pessoas/coisas/circunstâncias diversas. Afinal, a vida humana é efetivamente dramática e driblamos com o mal e as dores que ele transporta todos os dias.

Superlativas ilusões são as crenças de que exista uma só vida isenta das agudezas de altos e baixos decorrentes de injustiça, abandono, rejeição, humilhação e traição e isso, para listar só as 5 feridas de índole emocional mais recorrentes.

Contudo, “ser”, neste uso, é ser na “categoria de estado”, algo que vale em um momento e em uma circunstância, mas não é condição integrante da substancialidade de alguém. Afinal, a categoria de estado é daqueles predicados mais fugazes que podemos ter. Mais fugazes até que os da categoria da qualidade, que também já são fugazes.

Não se olvidam dos tipos vitimistas, aqueles que sempre arrogarão pelo estado de exceção de forma contínua e ininterrupta em toda extensão e aspectos da vida. Estes, obviamente, padecem do mal, mas de uma maldade dos próprios contra eles mesmos – seguramente, o pior.

Em certo sentido, “vítima” é um papel de poder social, claro que baixíssimo, mas longe da raridade são as almas rasíssimas, que não apenas dependem dos ecos alheios sobre si – a rigor, sobre um EGO montado – como podem até depender que tais ecos sejam juízos comiserativos, mesmo que sabidamente fingidos.

A rigor, aliás, todas as inter-relações egóicas são fingimentos, seja lateral, bilateral, trilateral, multilateral e etc… Os males de que o egoísta maníaco vitimista diz padecer podem ser até mera fantasia e que segue sustentada pelo seu auditório, seja só incauto ou perverso.

O busílis do artigo, a seu turno, é, tirante casos de patologia identitária extrema como do ego maníaco vitimista, o que a vítima pode fazer para, dissipar-se desse estado o mais eficazmente possível, o que equivale, pois, a indagação: como melhor responder ao problema do mal? A dissipação do mal se pode também chamar de RESILIÊNCIA.

Assumida, como já foi, a inexorabilidade do encontro com o mal, urge, de partida, não o assumir como se de um escândalo não natural se tratasse e logo contra o EU, logo EU, “o” dolorido.

Por estranho que soe à primeira vista, achar-se “mais azarado”, “com sina amaldiçoada”, o “bode expiatório”, cuida de forma de ORGULHO, pois inculca um pseudo senso de que o mundo seria (ou até é) perfeito, mas não é perfeito para esse EU.

Essa estrutura de pensar, ao reverso da aparência, não “diminuiu o mundo”, mas “aumenta o EU”. Ela tem por detrás do pano uma busca por “dignidade especial” para atrair a atenção do mundo, que tanto lhe dá atenção em destaque que é nesse EU que concentrara a maldade.

Tinha plena razão NIETZSCHE (1844 – 1900) em lembrar aos homens miseráveis que o sol não brilha nem deixa de brilhar em função das pretensões subjetivas de qualquer um de nós.

Da ilusão orgulhosa de vermos o mundo como um sujeito, mais ou menos uno, e que estaria esse sujeito em alguma relação especificada com o nosso EU, surgem as PIORES respostas existenciais possíveis, ressentidas, ao problema do mal, da dor ou crueldade, que são, conforme o inventário judicioso de LOUIS LAVELLE (1883 – 1951):

(A) o abatimento (perda efetiva de potência ou vitalidade);

(B) a revolta (vontade destrutiva seja de vingança ao malfeitor ou generalizada ao mundo, mas que, acuradamente, só escamoteia senso de impotência);

(C) a auto-exclusão (em sentido em que a fuga dos outros é também uma fuga de si, da parte do EU que fora tocada pelo mal, parte que a consciência não consegue assumir);

(D) a complacência (uma forma de apego ao mal sofrido, como que uma busca de amplificação da maldade sofrida para justificar as desistências do EU, sejam elas associadas ou não ao próprio mal alegado);

Se o orgulho é pai do ressentimento ou se o inverso é que é o caso, tal não importa para saber onde moram, já que estão sempre sob o mesmo teto – e de mãozinhas dadas para molestar. Como o próprio nome diz RE-SENTIR é sentir de novo, que pode ser de novo, de novo, de novo, ad infinitum.

Custe o que for, mas frear a bola de neve do ressentimento urge a todo custo e urgência. A postura de HUMILDADE e de aceitação do mal e dor como próprios da dimensão mundana ainda é o mais eficaz para que, quando os sentirmos, ressintamo-los o menor número de vezes possível.

Também é duvidoso se a HUMILDADE é a mãe da GRATIDÃO ou se o inverso é que é o caso, mas ambas moram juntinhas para cooperar, sempre, e cooperam justamente para castrar EGOS.

Já vem da ética clássica de ARISTÓTELES (384 – 322 a.C.) o preceito de que o virtuoso (o forte) não é propriamente um fugitivo do mal (ou da dor); ele é buscador ativo do bem (em acepção inclusive transcendental-metafísica-contemplativa), único movimento, aliás, outorgante de felicidade não fingida.

Inspeciona todos os vitimados que descarrilharam de forma muito funda, e/ou com muito baixa ou muito lerda resiliência, após encontros maldosos e constata quantos eram “buscadores ativos do bem” e tira tuas conclusões. “Ser”, no sentido próprio, é das categorias da “substância” e da “ação”, jamais da categoria de “estado”.

O oposto de “buscador ativo do bem” não é necessariamente ou apenas “buscador ativo do mal”. A tão só leviandade ou espírito disperso ou diversionista lhe são opostas.

Só um buscador ativo do bem – entre cujos requisitos constam a HUMILDADE e sua inseparável filha ou mãe GRATIDÃO – logra assimilar e metabolizar o mal pelas formas eficazes e até tonificantes, a saber, e também conforme inventário do filósofo francês já aludido:

(A) advertência (o mal ou dor são sinais de alerta/reflexão não só ao EU, mas ao projeto de bem);

(B) aprimoramento e aprofundamento (a amargura da dor é pedagógica e pode descortinar forças interiores ou zonas de consciência até então desconhecidas);

(C) comunhão (o contato vivo com o mal pode ser elaborado por movimento ou reforço fusionante para com o ser/bem, seja em aspectos intra-consciência ou inter-subjetivos);

(D) purificação (sem incorrer em apologia à dor, mas é ela o fator divisivo e travessia para o despojamento dos bens materiais – zona do ter – e para abertura aos bens do espírito – zona do ser. Inclui-se aqui o perdão sincero, que é ato espiritual puro, que restitui e tonifica a substancialidade humana).

Fica evidente que a postura eficaz ante ao mal sempre pede um pé extra-mundo. Não poderia ser diferente, já que é próprio do mundo justamente ser maldoso e é próprio de toda bondade rumar para a transcendência. Na ótica puramente do mundo, se confinada a ele, bondade nem faz qualquer sentido e só, aliás, o egoísmo é que faz e bastante sentido e vítimas.

Tivesse a genialidade de DOSTOIÉVSKI (1821 – 1881) se limitado à criação da personagem RASKOLNIKOV, protagonista do clássico Crime e Castigo, seu assento no rol dos profundos conhecedores das sombras humanas estava garantido.

O romance se centra nos diálogos da consciência do protagonista que queria matar uma idosa agiota que lhe humilhava e precisava, pois, se fazer convencer de que tal ato era não apenas possível moralmente, mas até louvável.

A deformação deliberada da consciência, em um esforço subterfugioso prévio para abafar as vozes da reserva moral em um esquema em que estas, candidamente, pseudo acreditassem nas razões insinceras que outras vozes da mesma consciência contar-lhes-iam, era o mote central. Nem só parece, mas é estruturalmente igual ao tipo de gente que deliberadamente se embebeda/droga para fazer “merda” logo depois.

Se JÚLIO CESAR e NAPOLEÃO mataram tantos, inclusive inocentes, e foram homens louvados, porque logo ele, o RASKOLNIKOV, não poderia matar uma só pessoa, que era idosa e agiota, caso em que até com maior louvor se deveria agraciar. Por essa e outras vias ia o nosso protagonista deformando sua consciência para tentar se auto convencer do que sabia não ser convencível.

É muito raro alguém fazer MALDADES sem previamente SE AUTO-ENGANAR, como um drible prévio na própria consciência. “Não era eu”, é a escusa que ordinariamente o perverso dá quando é flagrado e justifica solenemente que “estava fora de si” quando fizera o ato.

Rigorosamente, o perverso está até correto na maioria das vezes em que dá tal escusa, só que ele se costuma a se afasta do aspecto de que fora ele próprio que deliberadamente deixara de ser a si para se substituir por um personagem, cuja tolice foi também por ele próprio engendrada…

O RASKOLNIKOV, o adúltero bêbado, o burocrata “inocente cumpridor de ordens” sem suspeitas, o gordo que esconde de si as embalagens das comidas porcas que comera, a namorada que fantasia consigo que seu namorado lhe trai para ela lhe trair, etc…, são farinhas do mesmíssimo saco diabólico.

“DIABO” tem raiz etimológica como “aquilo que divide”. A associação do termo com o maligno é evidente, já que, via de regra, a divisão da IDENTIDADE da pessoa é a antessala da sua MALDADE.

Toda identidade com esforço denso de sinceridade entrega sensação de preenchimento ou de uma fusão existencial. É uma forma de porta de entrada na transcendência, em um esquema em que se, se é o que se é, é-se mais do que se é, dada a “potência do ser, de ser mais ser”. Pode chamar isso de princípio da abundância.

Para que um ser abunde, tal como algo que se mova mais adiante, urge que ele seja ininterrupto como uma escada sem degraus faltantes ou que se quebram.

A cada vez que um ser deixa de ser o seu ser para ser ou viver como uma projeção de outro ser, ainda que criado por si, em certo sentido o ser originário já não é mais o mesmo, tal como a escada que tem degraus extraídos. O abaixamento é inevitável e a retomada da subida jamais prescinde de consertar/reparar/refazer os degraus.

Como provoca ANSIEDADE subir uma escada cujos degraus vão quebrando… A fumaça da ansiedade, aliás, costuma ser fiel indício do fogo do “jogo de identidades”. Imagina, sob outro giro, um ansioso subindo uma escada cujos degraus quebram-se e veja se seu comportamento não fará mais e mais degraus se quebrarem.

Há alguns psicopatas que escapam desse efeito de ansiedade, trocado por uma frieza extrema. Não é deles, contudo, que este artigo cuida.

O aforismo clássico de SÓCRATES (469 – 399 a.C.) “conhece-te a ti mesmo e conhecerá o universo e os deuses” já empilhava estoques imensos de saberes quanto à associação entre identidade e moralidade bem como entre a moralidade e a cognição.

A rigor, quando alguém altera/perverte sua identidade, ela está se esforçando (claro que em vão) para criar outro mundo, um mundo feito na medida para lhe servir, pois as coisas, valores ou circunstâncias deste outro mundo estariam dispostas a lhe assegurar o que quer fazer.

Veja que “fôssemos outros”, o mundo seria outro, já que é só nas cabeças vazias que há como haver vazios ou buracos no fluxo da identidade de si, mas a realidade/mundo jamais permite descontinuidade. Estamos no meio de um fluxo causal infinito antecedente e subsequente também.

Todo maldoso tem, ao cabo, muita pretensão de SOBERBA, ainda que o maldoso não tenha clareza desse aspecto, mas não se engane que ao menos uma “intuição difusa” sobre isso tudo ele tem.

Os maldosos podem não ser todos dolosos, mas que ao menos levianos o são sim. Aliás, normalmente a fase leviana é o começo da bola de neve que cresce até ficar dolosa. Quando, a seu turno, os maldosos negarem essa leviandade que lhes é própria, lembra-te de todo o esquema de que tratamos acima. A questão deles, mais que negar seus atos, é de negar suas identidades por enganos múltiplos que eles mesmos fazem contra eles mesmos e com contas amargas, contudo, a outrem.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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