026 – Amor, níveis de consciência, segurança ou força

026 – Amor, níveis de consciência, segurança ou força

Autor: Vicente do Prado Tolezano 12-12-2017

A principal característica humana, em diferenciação de qualquer outro ser, é a posse da ESTRUTURA CONSCIENCIAL, a qual, apesar de aparente trocadilho de palavras, opera sobre nós mesmo “inconscientemente”. Queremos, com isso, dizer que mesmo sem consciência da própria estrutura consciencial, ela irradia efeitos sobre nós.

A nossa tomada de CONSCIÊNCIA é a tomada da CONSCIÊNCIA DE SI, do nosso EU e de tal forma que, em nível fino, nós SOMOS a nossa própria CONSCIÊNCIA.

Essa consciência de nós mesmos é, em grande sentido, a consciência de um PARADOXO, o de que, ao mesmo tempo, somos integrantes da natureza/do todo e também somos uma unidade separada dessa natureza/todo.

Noutras palavras, é a consciência que, ao mesmo tempo nos faz COMUNICAR com o universo, quando nos outorga uma LUZ pela qual vemos essa “relação eu-todo”, mas ao mesmo tempo nos dá SOLIDÃO desse mesmo todo universal por meio de VOZES INTERIORES, tal que umas FALAM e outras ESCUTAM, mas só entre elas mesmas, cada qual uma “fração” de nós.

A parte de SEPARAÇÃO/SOLIDÃO contida nesse paradoxo é, evidentemente, manancial de muita angústia, ansiedade, vergonha e sentimento de culpa. Com ou sem a tomada própria de consciência sobre isso, todos os nossos movimentos, de um jeito ou de outro, são respostas a essa condição de separação, percebida/sentida/vivida afetivamente muitas vezes como “sensação de tédio/desamparo/vazio”, podendo alcançar até o grau de desespero.

Nosso desafio, pois, é, na balança do paradoxo, diminuir o peso do prato da SEPARAÇÃO e aumentar o peso do lado da UNIÃO/FUSÃO. Se revertemos a balança, troca-se a ansiedade/angústia por sentimento de CONTENTAMENTO.

Veja que é tão natural a partida do processo que uma criança pequena, ainda em estado de inocência pré-consciente, instintivamente BUSCA cura para o estado de solidão/desamparo pela presença física da mãe até que, num momento, essa presença não mais bastará e será necessário BUSCAR outros meios para superação da separação.

Passadas fases etárias mais instintivas, o “como” do movimento em vistas da fusão indica o nível de consciência da pessoa, em outras palavras, o próprio “grau de ser” dela. O “como” desse movimento é a face reversa de “qual a busca” da pessoa.

Na ascensão da consciência, as buscas podem ascender a vários patamares que podem ser classificados, em ordem crescente em busca de (i) prazeres, (ii) reconhecimento social, (iii) cumprimento de dever e (iv) libertação. Quem está nos patamares de cima goza de alguma realização também dos patamares de baixo, mas quem está nestes nem consegue vislumbrar os de cima.

A busca por prazer goza de miríades de possibilidades e flerta fortíssima com os vícios em geral como sexo, álcool, drogas, jogo, baladas, etc… Especial destaque é que o CONSUMISMO materialista também está nesta categoria. Todo prazer, no sentido aqui tratado, é, contudo, predominantemente triste, pois seus efeitos contra a angústia evaporam efemeramente. Uma vida hedonista é vida de “enxugar gelo”.

Para a escala de reconhecimento social, há um modo intenso para apaziguar a ansiedade da separação, até porque duram pouco seus efeitos, que são os rituais orgiásticos.

Nas sociedades arcaicas, esses rituais eram mais explícitos. Urge esclarecer que o que caracteriza uma orgia não é exatamente e apenas prática de sexo grupal, mas, mais precisamente, estados de transe grupais, que podem também ser alcançados sem prática sexual. Contemporaneamente, o carnaval, futebol em estádios, grandes shows carregam elementos dos ritos orgiásticos arcaicos.  O famoso “circo romano”, incluindo os espetáculos de gladiadores, está nessa zona. É muito frequente haver, na dimensão orgiástica, expressões de ímpeto destrutivo, ao menos simbolicamente.

O jeito mais ordinário de todos para tentar apaziguar o drama da solidão integra o nível de busca de reconhecimento social e, ao contrário da orgia, não é intenso, mas sim até muito sutil, embutida na ROTINA. que é a via de união pelo pertencimento/conformidade grupal, também conhecida por “conformidade de rebanho”, num esquema que inculca que é “normal” o que é feito pela turba.

A maior parte da população sempre esteve nesta zona. ARISTÓTELES, a seu modo, já tinha apontado esse fenômeno quando tratava da escravidão sutil. A urbanização só cresceu desde então e segue crescendo e tal que esse fenômeno dos autômatos-rotinizados-medíocres está em solo fértil para crescer, já que nela a própria estrutura de trabalho condensa essa lógica.  ERICH FROMM, nos idos da década de 50, já explicitou o fenômeno naquela altura, sendo inequívoco que só se incrementou. Vide o dizer do psicanalista alemão sobre o homem de rebanho e coteja com a contemporaneidade:

“O homem torna-se “sujeito a ponto”, é parte da força de trabalho, ou da força burocrática de escreventes e gerentes. Tem pouca iniciativa, suas tarefas são prescritas pela organização do trabalho; existe mesmo pouca diferença entre os que estão no alto da escada e os que ficam em baixo. Todos realizam tarefas prescritas pela estrutura total da organização, a velocidade prescrita, da maneira prescrita. Mesmo os sentimentos são prescritos: cordialidade, tolerância, lealdade, ambição e capacidade de conviver com todos sem atritos. A diversão é rotinizada de maneiras semelhantes, embora não de todo tão drásticas. Os livros são escolhidos pelos clubes de livros, os filmes pelos donos dos cinema e pelas sugestões de anúncios que eles pagam; o resto é também uniforme: o passeio dominical de automóvel, a sessão de televisão, o jogo de cartas, as festas sociais. Do nascimento à morte, de segunda a segunda-feira, de manhã à noite, todas as atividades são rotinizadas e pré-fabricadas.”

Mutatis mutandis, a mais das relações no trabalho, também as relações de par, “ditas” conjugais, podem estar no mesmo esquema de rotinização inalada sutilmente. A maior parte das relações de par estão orientadas por bases bastante pragmáticas ou de exibição e sob o chão da rotina. Igualmente se passa com muitos grupos ideológicos, incluindo religiosos, etc… Vacas querem rebanho, é o princípio.

Acrescente que, não sem razão, a ideia de IGUALDADE (reconhecido por ela) passou a estar em voga, pois inculca valor na “mesmice”, tal como que ter os mesmos trabalhos, mesmos hábitos, mesmas formas de lazer, mesmas concepções abstratas, etc… fosse alguma forma de união. Ouro de tolo.

As buscas da união existencial por prazer e por reconhecimento revelam quase nenhuma ou muito pouca maturação. Costumam ser avizinhadas de muita mesquinharia, vaidade, orgulho e vícios em geral. São buscas de SEGURANÇA/ESCAPISMO contra o desamparo e não são buscas de FORÇA. As posições são predominantemente DEFENSIVAS e têm mais interesse em RECEBER, conservar amor e não têm interesse em produzir/dar amor, senão em formas de “aparência”.

Como sói a tudo que é defensivo, nessas buscas há “pouca abertura” da pessoa para com o todo, o que, pois, já mostra a ineficácia de união efetiva, pois algo fechado não se une com um todo externo!

O dilema existencial nosso não é responder ao peso da ansiedade de separação, pois a resposta sempre será dada, mas se vamos responder buscando SEGURANÇA ou FORÇA, ou seja, resposta que “finge que resolve” ou que resolve. Essa é a diferença entre ILUSÃO e REALISMO, ou DIVERSÃO e VERSÃO, ou FÚTIL e ÚTIL, POSTURA EVASIVA ou POSTURA INVASIVA etc…, até que, ao cabo, seja a diferença entre PULSÃO DE VIDA e PULSÃO DE MORTE.

As vias de superação do peso do desamparo existencial por FORÇA demandam o desabotoamento amoroso, que se inicia com a via do CUMPRIMENTO DE DEVER, fase em que o alguém tem a consciência de que não faz X ou Y coisa por conta de tais e quais retornos imediatistas pragmáticos ou por cobrança de alguém , mas por que TEM que fazer isso por SI num sentido de resposta difusa a Deus/Universo/Natureza/Cosmos e com um sentido de SER UM CARÁTER.

É o caso de SER HONESTO porque tem que ser HONESTO e não apenas ser honesto para evitar ser punido; mais, de que se tiver que ser DESONESTO por força de alguma circunstância qualquer, ele arca até com a consequência punitiva respectiva e descumpre o ímpeto da circunstância mas não descumpre o mandamento do dever.

Outro nome que se dá a “mandamento do dever” é “mandamento do amor” ou, mais simplesmente, “amor” apenas. Dentro das vozes do diálogo da consciência, sempre fala de forma mais grave a voz que proclama em nós e para nós esse mandamento do amor. As atitudes de foco no prazer ou na conformidade não são atitudes de resposta própria a essa voz, mas até e mais precisamente são atitudes para “deixar de ouvir” a voz mandamental.

A rigor, o nível de consciência de assunção de dever é uma permissão/abertura para ouvir a voz mandamental e é o começo da FORÇA, pois uma vez que se comece a ouvir a voz interior, a pessoa começa seu processo de integração de ser, que é um fenômeno puramente espiritual, constituinte de uma “unidade razoavelmente constante de vida” (com caráter).

Os níveis de consciência anterior não permitem isso, já que a vida nos prazeres tem por regra ser quebradiça/oscilante/inconstante e a vida na dependência grupal, a seu turno, é totalmente circunstancial e, pois, flutuante por elementos externos. Os níveis anteriores são improdutivos, pois produção só começa na assunção do dever de produzir/amar, já que é só nessa altura que surgem as pergunta “o que devo fazer da minha vida?” (ou invés de “do que eu gosto”), como “qual minha vocação” (ao invés de qual o trabalho/profissão), “quem eu amo” (ao invés de “será se vai dar certo” com x ou y pessoa?), qual a obra a deixar (ao invés de quando posso curtir o ócio/aposentadoria, coloquial “tempo para mim” com viés até hedonista) , etc…

No sentido próprio, só produz quem assume, por sua iniciativa e por conta apenas à própria voz mandamental, RESPONSABILIDADE por gerar/fortalecer/cuidar/fomentar/aconselhar a cadeia da vida. Produzir tem raiz na aritmética, como resultado a multiplicação. É próprio do amoroso multiplicar. Os demais podem, na melhor das hipóteses somar (“soma” em grego vem do corpo e quem não ama é “apenas corpo”), mas frequentemente dividem ou subtraem (formas sutis de destruição).

O movimento de ouvir ao mandamento e responder-lhe de acordo é um movimento de ABERTURA.

É óbvio que ganhar amor é maravilhoso, mas a questão central do amor que aqui tratamos, de alcance do contentamento existencial, é pela perspectiva de DAR AMOR. Nova licença pedida para trazermos o ERICH FROMM:

“Dar é a mais alta expressão da potência. No próprio ato de dar, ponho à prova minha força, minha riqueza, meu poder. Essa experiência de elevada vitalidade e potência enche-me de alegria. Provo-me como superabundante, pródigo, cheio de vida e, portanto, como alegre.”

Sem meias palavras: quem alcança a fase adulta da vida e não alcança a consciência de ouvir a voz da “norma” universal do amor padece de PATOLOGIA MORAL e, pois, não é “normal” e experimenta sensações de “vida não vivida”, para não sermos mais mórbidos. O fato de que a maioria não é normal, não invalida a “norma”, que é universal e não é circunstancial/cultural/jurídica. Assim é a ESTRUTURA DA CONSCIÊNCIA, tal como apontamos na partida deste texto. Não é tema de opinião ou de vão relativismo.

As pessoas podem fingir normalidade e felicidade (e esconder vergonhas), mas esta só é efetiva a partir da FORÇA DE AMAR. Antes disso, é só felicidade de “foto para a rede social”. Uma curiosidade pertinente é que “felicidade” vem da cepa etimológica latina “felix” que denota ao mesmo tempo a “felicidade” e a “fertilidade”.

Ainda que seja o amor a vereda do contentamento existencial, o único a trazer a fusionante paz existencial como aqui tratamos, o ingresso no nível da consciência do amor é muito traumático no primeiro momento e implica sofrimentos diversos. As pessoas podem até entrar em “pânico” com a tomada de consciência do mandamento universal por conta de tantos lutos de seu ego por que terás que atravessar e, mais duro ainda, que é evidenciar – e sofrer por isso – com mais vivacidade que o seu entorno social é composto, em esmagadora maioria, de gente desamorosa/impotente/farsante/tóxica (para não descer muito …).

Esforços até estoicos/espartanos podem ser necessários para se manter a força de ser o único ou um dos poucos vagalumes da noite. Aos que perseverarem, contudo, a fase do trauma se esvai em alguma hora. Será a fase da LIBERTAÇÃO, momento cume de ABERTURA, já praticamente fusionante por inexistência de resistência, e em que o cumprimento do mandamento universal seguirá intocado, mas sem muito espanto com as impotências do meio, trocando o estoicismo-espartano por fluidez a um ponto de parecer fruta madura.

Lembramos a metáfora de que a fruta madura, se não for deglutida (fusionada) como alimento para alguém cairá naturalmente (dever natural de amar) do galho ao chão onde se decomporá, FUSIONANDO-SE com o todo, pondo, pois, fim ao seu SER SEPARADO.

Em qualquer das possibilidades, se deglutida ou decomposta, a fruta deixa as sementes para novas árvores e frutos com efeitos ad infinitum para a cadeia da vida. Veja que quando ela se fusiona, já ficaram para trás suas fase egóica em que recebia a seiva da árvore e proteção do galho e fase de reconhecimento pela beleza de flores antes da maturação.

A fruta é FORTE e sempre cumpre seu dever mandamental de amar. Nós podemos buscar a ilusão da SEGURANÇA, que nem dá alegria temporal como não impede o fluxo, mas pode nos tolher do poder de alimentar outrem tanto quanto de não deixarmos efeitos ou vestígios no infinito da cadeia da vida. Nesses casos, a voz consciência vai GRITAR. A vida é para sermos felizes. Logo, amemos.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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