023 – Amor – Temperamento e Caráter

023 – Amor – Temperamento e Caráter

Autor: Vicente do Prado Tolezano 14-11-2017

Em termos precisos, não se fala de pessoa amorosa, mas sim de “pessoa de caráter amoroso”, pois amorosidade é questão de caráter humano.

É muito comum a confusão entre caráter e temperamento e, pois, muito comum também, e com resultados com graves distorções, o juízo acerca da amorosidade de alguém por perspectivas do temperamento ao invés do caráter.

Está dentro desta confusão grosseira a confusão de tratar pessoa meramente “simpática ou gentil” como pessoa amorosa. Quanta decepção não advém disso, senão mesmo coisa bem pior…

Urge, pois, distinguirmos temperamento de caráter e bem como os diversos tipos de caráter, pois o caráter amoroso é apenas um contra diversos caráteres desamorosos.

A salada pode ser melhor ou pior temperada, normalmente essa qualidade vem mais do gosto de quem come que da salada em si. Há quem prefira o vinagre ao limão, mais ou menos sal, shoyo ou balsâmico e por aí afora. Há temperos, que não apenas não agradam preferências de um indivíduo entre muitos, mas mesmo lhe provocam ojeriza.

De forma absolutamente independente do tempero, contudo e seja ele qual for, a salada pode, por qualidades suas em concreto, ser saudável ou até nociva (tóxica) à saúde em graus diversos e nesse caso não são preferências gustativas que estão a dirimir qualquer juízo, pois as condições de saúde são universais, independentemente de qual homem come a salada em questão.

Podemos com total tranquilidade analogar o humano com a salada. Como ela tem temperos, nós temos temperamentos que atraem ou repelem preferências de terceiros. Como ela tem potência para ser saudável ou tóxica por qualidades suas e para qualquer um que a coma, nós temos caráter próprio que pode ser bondoso (amoroso) ou maldoso (desamoroso) e para qualquer um com que intersectemos.

Os temperamentos são nossa SUPERFÍCIE REATIVA ao mundo externo, têm associação com nossa composição somática, pertencem à categoria de PAIXÃO (pathos) e meramente reverberam ao mundo a paixão rasa da pessoa face algo, afetando as demais pessoas de forma mais SIMPÁTICA ou ANTIPÁTICA, a partir também de paixões, cada uma delas, tal como a experiência gustativa de quem comeu a salada.

O primeiro mapa dos temperamentos humanos remonta a HIPÓCRATES (460 a.C. – 370 a.C.) e que foram, cada qual dos 4, associados a um elemento conforme a contribuição de EMPÉDOCLES (495 a.c. – 430 a.c.), conforme quadro abaixo:

– Temperamento Colérico, Elemento Fogo; reações abruptas, muita energia;

– Temperamento Sanguíneo, Elemento Ar; reações expansivas, impulsivo;

– Temperamento Fleumático, Elemento Água; reação pacifista, dócil;

– Temperamento Melancólico, Elemento Terra; reação rancorosa, controlador.

O temperamento – padrão reativo – de cada qual de nós é uma mescla destas possibilidades. O que urge destacar é que, seja qual for essa mescla, ela só respeita ao que provocamos de simpatia/antipatia nas inter-relações, variáveis, relação a relação e sem que a amorosidade esteja em questão, até porque seria absurdo que elementos de constituição corporal/quase instintiva atinassem com elementos de alma, de espírito, como é o caráter.

Em outras palavras: a forma de reagir (temperamento, também chamado de comportamento) não pode determinar a forma de agir (caráter, também chamado de atitude).

É óbvio que existem aspectos positivos e negativos em cada mescla temperamental, mas a medição é sempre circunstancial, em um juízo, pois, de melhor ou pior adequação e não cuida de juízo moral/ético, ao qual só as atitudes humanas condizem.

Já adiantamos, pois, que caráter é um padrão mais ou menos estável de atitudes – categoria da AÇÃO – que o humano toma perante a vida/realidade/coletividade em relação a como ele produz e em relação a como ele se relaciona socialmente.

ERIC FROMM, com muita propriedade, definia caráter: a forma (relativamente permanente) por que a energia humana é canalizada no processo de assimilação e socialização (in Análise do Homem).

Ao reverso de nossa constituição somática, nosso caráter é objeto de constituição com peso, óbvio, de condições externas, mas com preponderância de nossa conciensiosidade e por nossa força de vontade em prover transformações e nossa integração/coerência entre sentir/pensar/agir/expressar.

O caráter, pois, parafraseando, é uma resposta existencial profunda do indivíduo em alinhamento de sua essência íntima à sua biografia explícita. São dois os grandes grupos de caráter: produtivo/potente/amoroso e improdutivo/impotente/desamoroso.

O produtivo é o caráter da pessoa amorosa, também conhecida simplesmente por “pessoa de caráter”.

O sentido de amor que usamos aqui é o sentido amplo, de “decisão voluntária, via de regra, gratuita, em fortalecer/vitalizar outrem”. Isso é “produzir” no sentido próprio, tal como na acepção aritmética, de resultado da multiplicação.

Usando de termos metafóricos, o amoroso semeia, aduba, cuida da planta, protege, visa aos frutos, reparte os frutos e ajuda os frutos a dar mais frutos, ou seja, tem viés de socialização doadora.

Nunca se esqueça de uma máxima que nunca mente: o amor se vê pelos frutos (multiplicação). A própria Bíblia já advertia para isso, que uma árvore se conhece pelos frutos e que às árvores que não dão frutos, ou dão frutos ruins, o fogo é destino justo.

É tão íntima a relação entre amor e produção que se pode afirmar taxativamente que quem não produz, não ama. Não se confunda produção com simples trabalho, o qual tende a ser apenas somatório (conforme a operação de adição na aritmética) e não multiplicador.

O princípio é que o corpo, na melhor das hipóteses, apenas soma (atenta à questão etimológica em que “soma” significa corpo) e a “presença de espírito amoroso”, próprio do caráter amoroso, multiplica.

A lei da INICIATIVA/VONTADE está na alma, é meta-corpórea e amor é produção por iniciativa do amoroso.

Normalmente, quem simplesmente trabalha é autômato, opera sem ser por sua iniciativa, cria coisa, mas não cria potência de criar, coisa própria do caráter amoroso propriamente dito.

Quem só trabalha, quanto mais trabalha mais exaure sua capacidade de trabalhar – lei da escassez – e quem ama, quanto mais ama mais potente para amar fica – lei da abundância. O amoroso, fica claro, é empreendedor no sentido amplo do termo, de gerador de valor.

O grupo de caráteres improdutivos (ou dos “sem caráter”), dos que não amam, ou amam deficientemente – vasta maioria – se divide em 4 tipos:

1) Parasitário-Recebedores;

2) Destrutivo-Necrófilos;

3) Destrutivo-Vendedores;

4) Parasitário-Acumuladores.

Claro que nenhum tipo é absoluto e as pessoas mesclam-se em vários deles. Examinemos as linhas de cada orientação de caráter.

O parasitário-recebedor, o tipo mais comum na população, também chamado por autômato; é o medíocre geral. É pessoa que nunca crê em nada que parta de seu interior e, em caso extremo, só tem por referência o que vem de fora, donde depende de tudo, já que não decide, senão para fazer desarmar ações externas que implicariam alguma mudança sobre si. Alguns são fúteis, alguns trabalham sem produzir, no sentido já explicado, ou são meros utilitaristas-rasos. Em termos de socialização, têm tendência para o masoquismo.

O destrutivo-necrófilo também é chamado de explorador, de sanguessuga, de vampiro, etc… Pode até empreender ou produzir algo, mas tem vistas as destruir mais que o que constrói. Castrar a força alheia, coisificar outrem ou arrasar os frutos é seu objetivo. Pode atuar de maneira sutil ou explícita. Coloquialmente, é chamado de psicopata. Em termos de socialização, ocupa os lugares dos sádicos.

O tipo destrutivo-vendedor também é chamado de jogador-sedutor e tem crescido muito, particularmente no meio feminino e condiz com a noção de “tempos líquidos”. Não orientam sua potência para a criação de frutos na realidade, mas na criação de ilusões/sonhos para ser vendidos e normalmente não entregues, muitas vezes compulsivamente, podendo haver concomitância de ilusões contraditórias entre si. Seu afeto central é a vaidade. Coloquialmente, são chamados de gente de vida dupla, tripla, quádrupla, etc… São craques na dissimulação. Têm em comum com os parasitas-recebedores o medo da interioridade essencial (e de da verdade em geral) e algum utilitarismo raso. Podem provocar, por leviandade, efeitos destrutivos tal como os destrutivo-necrófilos. Seu perfil social é o de indiferente/leviano/insensível para com o outro e até mesmo indiferente à realidade.

O tipo parasitário-acumulador nunca produz, só acumula. Tem razoável senso de realismo, mas nunca confia em ninguém, apesar de, geralmente, ser confiável. Costuma ser muito explícito no seu objetivo que é o de preservar. Tem tendências a neuroses e seu perfil social tende ao isolamento ou agir reservado.

Cabe não ter meias palavras: o verso da alma humana é a conduta do caráter amoroso, esforço de coerência integrativa e orientada à multiplicação proveitosa, a única resposta amadurecida à existência.

As condutas dos demais caráteres são sim patologia existencial/moral/ética e não vem ao caso que a maioria esteja perversa, pois a métrica amorosa jamais é a métrica social, mas sim medida cósmica, de fusão individual para com o todo ou Divino e que é deflagrada pela centelha da vontade individual.

A vontade é o que é objeto do juízo moral e, pois, ser ou não pessoa “de caráter” também o é. Ao contrário do que o senso comum costuma reverberar, não existe posição neutra no tema de amor ou bondade-maldade: ou amas/produz ou é perverso/mina (destrói) produção alheia. É igualzinho ao tema da salada que alimenta ou não, independentemente do seu tempero.

Que se valha o leitor do sucinto mapa de temperamentos e caráteres aqui exposto para melhor reconhecer a amorosidade dos seus. Preste muita atenção e verás que, não raro, os resultados são de tremer.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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