021 – Amor, Maturação, Mortes, Renascimento, Ex-covardes

021 – Amor, Maturação, Mortes, Renascimento, Ex-covardes

Autor: Vicente do Prado Tolezano 31-10-2017

O fruto nasce verde. É um recebedor pleno. Recebe a seiva da árvore, recebe proteção do galho para não ficar no chão, também é protegido pelas folhas e etc. Não é comestível, inclusive seu gosto é azedo, e nem dá sementes nessa fase.

Diz-se que o fruto está amadurecido quando chega ao ponto ótimo para servir de alimento a alguém e já provê sementes. Se for colhido, ele será deglutido por alguém e suas sementes tendem a ir ao chão, pois, via de regra, não são comestíveis. Se não for colhido, ele vai “cair de maduro” no chão, onde será decomposto e suas sementes serão desentranhadas.

Ou seja, o fruto morre (fusiona-se por dissolução com o todo), e seus efeitos ficam pelas sementes, situação contígua à sua morte. Vale um pequeno registro digressivo de que vários frutos, antes do ponto de maturidade, embelezam o mundo com suas flores, fase, contudo, sempre efêmera.

Os frutos todos, bem de ver, maturam e cumprem seu AMOR para com o mundo desde que passado o tempo cronológico próprio. Afinal, para eles e para todos os seres e coisas não humanas, se aplica exclusivamente a lei da inércia (instinto).

O mesmo esquema de maturação se aplica a nós, pois tal como o fruto, não nascemos prontos para servir – ou seja, não amamos ainda.

Quando bebês, somos recebedores totais e temos comportamento só egoísta, o que deve ser progressivamente dissolvido por muitas etapas até a vida anciã, a qual, se bem desenvolvida, provê o cume de amor humano. Esse auge não é meramente a reprodução (que possivelmente já se dera antes), mas a capacidade de, sem interesse próprio, orientar/dirigir/aconselhar/cuidar/proteger a vida dos mais jovens, com a autoridade do estoque de experiência acumulado.

Maturar, no sentido próprio, quer dizer “maturar para amar”, tal que se não matura não ama. A linha progressiva da maturação é a linha que vai do inútil ao útil, do improdutivo ao produtivo, do recebedor ao servidor, do azedo ao palatável, do errático ao razoável, do irresponsável ao responsável, da potência à impotência, etc…

Porque temos matéria, estamos sujeitos, claro, à lei da inércia. Gerado o corpo, ele se desenvolve e corrompe inexoravelmente. Como, contudo, nossa essência é espiritual, segue-se que nossa potência amorosa também há de pertencer ao domínio espiritual e sob o ditame de lei espiritual.

O domínio espiritual é nossa ALMA, cujo núcleo é a VONTADE e a nossa lei regente é a lei da INICIATIVA. O princípio é que se exercemos vontade, iniciativa, deliberação, decisão, atitude e etc., afirmamos nosso Ser, de essência espiritual, e no caso contrário, renunciamos ao Ser.

Vontade pode muito, mas não pode tudo, obviamente. O que a vontade faz, em termos bem precisos, é, sob limites, acelerar, retardar, desviar ou reparar o fluxo da INÉRCIA, mas não inventamos a INÉRCIA do mundo, com a qual só nos cabe harmonizar.

O fruto não tem iniciativa, morre só uma vez e cumpre o amor só material que dele se espera. Nós, como temos iniciativa, podemos morrer poucas (não maturar) ou várias vezes (maturar) e, pois, cumprir ou não os amores que se deveriam esperar de nós.

O fruto não padece do que nós padecemos, como fantasia de vaidade, apegos de ego, ilusões múltiplas, por isso não precisa morrer muitas vezes. Sua aparência já indica sua essência/identidade de forma inequívoca. Ao contrário de nós que somos a “espécie mais heterogênea”, justamente porque cada qual de nós varia em VONTADE, a única força contra os padecimentos aludidos e que, quanto mais exercida, mais mortes (mais maturações) vamos ter.

Obviamente, as múltiplas mortes a que aqui aludimos são mortes de antagonismos da alma como morte do EGO, a morte de níveis de consciência ou de patamares de personalidade, mortes essas que são seguidas de RENASCIMENTOS.

A maturação humana passa por mortes progressivas, sendo que cada vida renascida, óbvio, tem traços hereditários com a vida finada, mas sói ser mais vivaz/forte/lúcida/responsável/amorosa.

Conhece o leitor gente que envelhece sem amadurecer?  É porque não morreu a criança, o adolescente, o jovem, etc., naquela pessoa. Em termos mais precisos ainda, é porque essa pessoa resiste à morte de vaidades, egos e ilusões. Afinando mais a precisão, é porque essa pessoa é pouco útil ou pouco produtiva ou pouco responsável (senão mesmo inútil ou improdutiva ou irresponsável). Afinando mais ainda a precisão, é porque essa pessoa NÃO AMA.

Coragem de morrer sucessivamente e fé no renascimento também sucessivo e incrementalmente mais potente, escapa à maioria e o nome disso é COVARDIA, gênero de que são espécies, o egoísmo, a canalhice, a infantilização, etc. Uma espécie também pertencente a este gênero, não nova, mas recém rebatizada é a do “politicamente correto”, novo nome ao velho e manjado “cinismo”. O feminazismo está aí também.

COVARDIA é, sempre, recusa de AMAR, que é o mesmo que não maturar, não morrer para renascer. Isso é o mesmo que declinar de abundância para eleger o miserável.

As multidões de quarentões e quarentonas que não “caíram de maduro” e que sequer se sustentam, de cinquentões e cinquentonas juvenis nas baladas debatendo sobre as imperfeições das bundas de ciclanas e beltranas, das gentes de cabelo branco em jogos de sedução falseando identidades, dos casais comprando pets para substituir filhos, de jovens bradando em tom rixoso-arrogante as ideologias estúpidas, adultos mesquinhos, avarentos, possessivos, etc. e etc. e tantos etc. mais, é só ESCAPISMO do AMOR, da produtividade, da responsabilidade, da potência, ou seja, COVARDIA, conforme a definição.

Não é porque é duro que não seja verdade, mas são tipos que, na melhor das hipóteses, são inúteis, podendo até ser, nas piores hipóteses, bastante predatórios. Não te melindra em chamar o inútil ou predador de inútil ou predador. O único argumento deles não é sequer argumento no sentido próprio, que é dizer que pertencem à maioria.

Em termos coletivos, a COVARDIA camufla-se sob uma maldição chamada idolatria da juventude.

Outro nome que se pode dar para a idolatria da juventude é a Terra do Nunca, aquela terra em que o tempo nunca passa e que nunca alguém a viu também, mas que tantos fingem nela viver, normalmente estacionados em idiossincrasias até sub-juvenis, sem ter cuidado/produção/responsabilidade por nada. Já entrou até no nosso inconsciente o senso de que repetir/apegar-se a padrões juvenis fosse coisa positiva.

A única idolatria cabível é a ao AMOR PURO, cujo caminho único é pela maturação e conforme a metáfora do fruto. Isso é questão de inteligência. De qualquer forma, quem quiser chamar, por ato de fé, o AMOR PURO de Deus, que o faça sem embaraço e até porque coincidem semanticamente.

A vereda ao AMOR, ou seja, o caminho da maturação sucessiva pelas mortes e renascimentos sucessivos, sempre assumindo mais e mais responsabilidade por servir e cuidar de outrem, é o único para a FELICIDADE, no sentido pleno do termo, fusionante do ser interior com o Ser (ou Terra do Sempre ou da abundância), tal como o fruto é deglutido ou decomposto, legando sementes.

Fora dessa vereda, há a “felicidade-triste-angustiante” ou hedonista no sentido de “felicidade de puteiro”, daquele lugar excessivamente luxuoso, com adornos imponentes, em que as pessoas gargalham, ouvem música alta, brindam ao lado da maior miséria e alguns até se acham amados lá e têm orgulho disso. As felicidades de baladas, de amizades fúteis, de feministas-sedutoras-jactantes não diferem em demasia da felicidade de puteiro. Em outros artigos, vamos enfrentar em maiores detalhes a questão da felicidade fusionante e as angústias de dissociação.

Uma questão curiosa sobre o covarde, e que colhemos do legado que nos deixou o maior conhecedor da nossa covardia crônica, o Nelson Rodrigues, é que, via de regra, e em termos bem precisos, não existem corajosos, mas existem alguns EX-COVARDES. Brilhante, pois é a tal da LEI DA INICIATIVA, da INICIATIVA de se matar sucessivamente para RENASCER sucessivamente também. Boas mortes a ti, caro leitor.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

Sem comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mostrar Botões
Esconder Botões