020 – Amor: Ter ou Ser, eis a questão?

020 – Amor: Ter ou Ser, eis a questão?

Autor: Vicente do Prado Tolezano 29-09-2017

Tente captar a distinção entre afirmar: “tenho um filho” ou “sou pai”. Ainda, entre milhares de possibilidades exemplificativas: “tenho um cônjuge” ou “sou casado”, “tenho namorado” ou “sou namorado”, etc… Só em patamar muito grosseiro, larguíssimo, as expressões comparadas são sinônimas entre si, já que o mínimo de rigor basta para sublinhar o fosso semântico que as divide.

Ou seja, já se vê, de partida, que a dimensão do AMOR, no sentido próprio, está fora do quadrante de significados do TER e cabe muito mais propriamente no quadrante de significados do SER.

A quem conhece o be-a-bá da ontologia, sabe que a noção de TER pertence à categoria ontológica de ESTADO e que a noção de SER, por sua vez, pertence às categorias da QUALIDADE ou da SUBSTÂNCIA mesmo.

Ou seja, “TER” denota, via de regra, um senso de predomínio circunstancial, sem penetração ou mesmo integração na essência de quem tem, atributos esses da qualidade e substância.

A categoria do estado denota, em um certo sentido, uma qualidade, mas, superficial, de baixa estabilidade no tempo, como, por exemplo, “fulano está com roupa vermelha” (equivalente a que fulano “tem” roupa vermelha agora). A categoria da qualidade denota, em certo sentido reverso complementar, um estado, mas com alta, ou ao menos maior, estabilidade no tempo, como, por exemplo, “fulano é magro”. É óbvio que o fulano pode engordar, mas não na mesma fugacidade como pode ele trocar de roupa.

A língua portuguesa é uma das poucas línguas que brinda seus nativos com o verbo ESTAR (irmão gêmeo do TER) e justamente para melhor sublinhar as distinções entre ESTADO e QUALIDADE.

Agora, voltamos à questão já insinuada na partida: temos AMOR ou somos AMOROSOS? Também como já adiantado, a conclusão é que ou SOMOS AMOROSOS ou NÃO SOMOS AMOROSOS, pois AMOR condiz, só e só, com o SER, demandando, no mínimo, a estabilidade da qualidade, não suprida pela condição de mero estado.

Se alguém ESTÁ amando, pode-se dizer que, no sentido, próprio não é caso de AMOR, senão por figura de linguagem. Ou é caso de sentimentos/paixões como enamoramento, sedução, admiração, etc., ou ainda pode ser o caso de um ego-expandido.

Quem ESTÁ amando (?), o está em relação a um OBJETO, no caso um OBJETO DE AMOR, ou seja, está atraído POR fora de si. Por outro lado, quem É amoroso, o é em relação a si como SUJEITO DE SI e tal que está impelido PARA fora de si, ou seja, é SUJEITO DE AMOR.

Muita atenção às preposições POR e PARA, pois mudam o sentido em 180 graus e é essa nuance, quando vigente o PARA, que caracteriza o AMOR.

AMOR é sempre UNIVERSAL no sentido de dizer que QUEM AMA (QUEM É AMOROSO) AMA TUDO (A GENERALIDADE DAS COISAS), de maneira que, no mínimo, há de ser uma QUALIDADE, estado predominante, como vimos do SUJEITO, é uma característica penetrada nele.

O AMOROSO vai buscar múltiplos objetos de amor para desaguar seu ímpeto de AMOR e em uma relação de acumulação crescente de objetos de amor, pois é característica do AMOROSO não se conter, nem conter os objetos. É o tipo de pessoa que AMA o seu filho, ama a juventude, ama o filho do vizinho, o próprio vizinho, o pai, as pessoas idosas em geral, respeita a lei de trânsito porque é para respeitar as pessoas e não porque tenha câmera do Detran no local, etc. Enfim, o SUJEITO DE AMOR é CONSCIENCIOSO e vice-versa. O seu afeto interior geral é de GRATIDÃO para com a existência.

Claro que uma pessoa pode ser AMOROSO/CONSCIENCIOSA e deixar de ser, bem como o inverso pode se dar. O caminho do não ser AMOROSO ao o ser, será uma mutação de caráter geral da pessoa, processo que, se ocorrer, tende à morosidade de anos. É natural que qualidades, uma vez incorporadas, sejam difíceis de alterar.

Se a alteração qualitativa, contudo, é impossível de ocorrer, seja no tempo, seja no aspecto de que também não tem oscilações quantitativas quaisquer, estaremos no caso de se cuidar da própria substancialidade.

Uma pessoa AMOROSA não é perfeita, tenha-se em mente, pois mesmo as pessoas de caráter muito integrado e muito forte padecem de oscilações, o que, em si, não implica a perda absoluta do caráter, tanto quanto as oscilações sejam pontuais.

Dizer-se-á que alguém não é qualitativamente amoroso, mas sim substancialmente amoroso, se alcançar o patamar de amor puro, ou seja, de JESUS CRISTO, de BUDA, de notáveis líderes espirituais, divindades, etc., porque as suas identidades são reconhecidas como amor-puro ao SER.

A vasta maioria das pessoas, em todos os tempos e lugares, não é AMOROSA nem no nível qualitativo. O afeto interior regente da vasta maioria das pessoas é o RESSENTIMENTO, ainda que difuso, não a gratidão.

Ressentimento é fermento do EGO, o obstáculo sério do AMOR e cuja função é inversa a ele, pois o AMOR tende a não contenção e o EGO, justamente, tende à contenção ou posse de si e das coisas.

Imagine o exemplo simples de uma pessoa que ama o filho dela, mas odeia crianças. Que ama o cônjuge ou a mãe, mas não gosta ou despreza gente. É o que mais há.

Essas pessoas são EGOÍSTAS. Dizem e até podem pensar que amam esses objetos do amor, mas não se cuida de AMOR, cuida-se de mero EGO-EXPANDIDO, uma forma sutil de ego, mas não menos egóica.  Essas relações têm tudo para fomento de posse, pretensão de controle, modelagem psíquica, etc…, pois, ainda que até inconscientes, são orientadas a uma função política ou de proteção do EGOÍSTA.

O sujeito egoísta estabelece uma relação para com o seus objetos de (dito) amor que desintegra, na medida em que são relações que impedem a abundância própria do amor de que “quanto mais se ama, mais se ama”. O próprio do egoísta é que, porque (pensa que) ama um objeto, há de ama-lo em DETRIMENTO dos demais. Normalmente, tem até orgulho de proclamar isso em pulmões cheios, tal como que preterir ou até desprezar outros objetos de amor implicasse uma “pureza” ao seu pseudo amor que leva ao objeto limitante.

Egoísmo e orgulho andam de mãos dadas e dedos entrelaçados. Essa regra não costuma falhar e quando a relação não é percebida, provavelmente ela segue existindo, mas em nível sutil.

Amor sempre é ato de fusão e integração nossa ao SER, ao movimento expansivo contínuo, que é, pois, o oposto do TER, que mira a posse, a contenção. Não vamos amar porque em algum momento vamos achar o objeto perfeito do amor, conforme uma estupidez romântica inculca. Quando tiverdes essa impressão de ter achado o objeto perfeito do amor, saiba, sem risco de erro, que estás vitimado por seu ego, por sedução externa ou por ambos. Vamos AMAR quando decidirmos AMAR (ser sujeitos de amor) e aí os objetos dignos de amor serão sempre abundantes. Não há falha na lei do SER e ABUNDÂNCIA.

A divisão entre matéria e forma foi alcançada pelo gênio humano já nos tempos da Antiguidade, tanto no Ocidente quanto no Oriente e dentro do contexto de esforço de solução de uma tensão intelectual maior que é dar cabo do problema da coexistência do finito e infinito.

Nesta banda ocidental do mundo, o debate antigo sobre a matéria e forma e que até hoje ilumina o tema se deu entre Platão, com sua conhecida teoria das formas puras transcendentais, e Aristóteles, que lhe objetava com a teoria do ser imanente.

Para o foco deste artigo, vale atentar que para o homem a forma corresponde à nossa ALMA e matéria, evidentemente, ao nosso CORPO.

O corpo é finito (ou, noutras palavras, corruptível), é obviedade, já a alma é infinita, como imortal, isso é defendido explicitamente desde a cultura egípcia. Para nós ocidentais, conhecer a defesa da imortalidade da alma protagonizada por Sócrates, no diálogo Fédon de Platão, é de rigor e tem a função de ser como que um dos indispensáveis primeiros degraus da escada de domínio metafísico.

O corpo humano material, obviamente e como não poderia ser diferente, se sujeita às leis da matéria tal como qualquer outro corpo físico.

A lei mais universal da matéria é a LEI DA INÉRCIA, tal que uma vez posta, por uma causa eficiente, a coisa física-material em movimento este segue por si inercialmente e no ritmo dado. Atenção que movimento não quer dizer meramente movimento espacial. Integra o senso de movimento a geração/corrupção, as alterações quanti/qualitativas e a transformação.

Uma vez concebidos, seguimos inercialmente nosso movimento pelo mundo e sob os impactos (afetos) dos demais agentes eficientes externos tal como bolas de bilhar que batem umas nas outras. Diante da imagem do leão ou da pessoa linda, Reagimos – ou, ao menos, tendemos a reagir – inercialmente segundo um padrão de aproximação ou afastamento. Nos corpos vivos, a INÉRCIA se chama INSTINTO (desejos e paixões também bebem da INÉRCIA com canecas grandes).

A 2ª lei mais universal da matéria e que, a rigor, é mera derivação da lei da inércia, é a LEI DA PRESERVAÇÃO DA MATÉRIA. Ou seja, matéria, em si, quer se preservar, passe por quais transformações passar. É um princípio de esforço, mas que sempre será vencido, pois é próprio da matéria se corromper/dissolver.

Coisas materiais são e são finitas, sem exceções. O principio é que toda matéria é, num sentido, caótica e que, pois, toda estabilidade (forma) que logre seja transitoriamente. A preservação da matéria não é que ela não mude de incorporação de forma, mas que justamente ela não para de mudar, tal que nunca vira forma pura (estável sempre), ficando sempre matéria instável.

Platão conjecturava o problema finito e infinito com exemplos do tipo: que o cavalo, qualquer cavalo, em particular morre, mas cavalos não morrem. O “cavalo-em-si” e que Aristóteles iria chamar de “cavalice”, essa – forma – perene, tal que os cavalos vão, mas a cavalice fica. A mesma questão posta, contudo, para o ser individual é que o corpo vai e a alma fica.

O que é relevante destacar sobre a matéria é que toda sua lógica é de ESCASSEZ/TRANSITORIDADE/LIMITES.  O seu esforço de preservação, aos homens, é a sensação de MEDO (manancial do espírito de defesa, ego, etc.). Sua síntese semântica está contida na noção de “CONSUMO”  (de sumir “com”).

Nosso foco neste artigo não é arguir a imortalidade da alma, mas, assumida a imortalidade, arguir o imbricamento umbilical com o AMOR, sendo este a “antecipação” da imortalidade.

A LEI DA INICIATIVA (ou VONTADE ou, ainda, DECISÃO) é, como se diz, a única que pode INICIAR, acelerar, refrear, abafar ou dirigir a INÉRCIA material. A vontade, pois, é AGENTE ou ATIVA e não REAGENTE nem REATIVA.

A rigor, a única força que pode existir no homem é a vontade. A expressão comum “força de vontade” é pleonasmo.

A seu turno, os termos vontade e amor são bastante polívocos e em várias acepções combinam-se entre si em relação de igualdade e, nas acepções em que não se combinam como iguais, são parecidos semanticamente como irmãos-gêmeos. Ou seja, por transitividade, força é amor e amor é força.

A vontade (amor/decisão) está no domínio da ALMA e não da MATÉRIA, tal é óbvio. Do contrário, seríamos coisas e, por igual, não haveria tanta diferença entre os próprios homens – que são justamente as diferenças de espírito ou de consciência.

Reconhecer a força na vontade também é uma obviedade, pois é ela e só ela que subjuga a matéria. A fortiori, pois, o máximo da força está no amor, já que este é a maior convocação que a vontade pode receber.

Imagina o adolescente altamente DESEJANTE (paixão) por um tênis. Até o corpo dele treme com a imaginação e ante a não realização do desejo. Passa a ter medo de rejeição, medo de estima, medo de inexistir mais tênis, etc…

Numa dada hora, o DESEJO pode ser satisfeito. Que alegria que ele sente! Mas dura só uns minutos e aí ele fica com tédio da coisa, a rejeita e busca outra e assim, sucessivamente. É tal da erraticidade da matéria e seu esforço para autopreservação como matéria. Ao cabo, o nosso não apenas consome o tênis, ele CONSOME A SI, no sentido mínimo de que não “salta” para algo melhor, sumindo-se em si.

Se ele tiver, contudo, VONTADE – força – para não comprar o tênis, mesmo que tenha o dinheiro, mas logre CONTROLAR a paixão desejante e, pois, fique com o capital para alocar em algo melhor, há chances de que este algo adquirido por FORÇA DE VONTADE não seja, a priori, algo que vá lhe gerar tédio, ao menos logo. Como se diz em termos populares, se não tem esforço não se dá valor.

Uma característica da CONSUMAÇÃO da VONTADE – e das coisas espirituais em geral – é que uma vez alcançado um patamar, a outro, mais alto se tende. A regra das coisas da ALMA não é a PRESERVAÇÃO, mas a EXPANSÃO. Sim, deve ter observado que matéria e alma são antagônicas em suas lógicas…

O moço do nosso último exemplo tende a expandir sua força e, pois, as possibilidades gerais da vida dele, desde conseguir subir os muitos degraus do crescimento em que não só se seleciona e mantêm o capital “não consumido”, mas o frutifica, ou, seja “CONSUMA” O SEU SER em um patamar mais alto. Que alegria tem o plantador ao ver o fruto e o fruto do fruto e por aí vai.

Atenção morfológica: CON-SUMAR, ficar com, dar  ou fazer a SUMA, a essência.

Se esse processo for bom e chegar ao seu ápice, será o caso da pessoa conseguir AMAR, ou seja, gozar do máximo de espiritualidade neste mundo material, o máximo possível de antecipação da infinitude nesta vida.

Se tiveres dúvida, dirima a questão pela própria sensação corpórea: a matéria tem como emoção primária o MEDO e a alma, ao oposto, o MARAVILHAMENTO.

É comum o erro de associar o oposto do MEDO à CORAGEM, mas não é o caso. A CORAGEM é o oposto da COVARDIA, ambas atitudes humanas, mas não emoções no sentido próprio, como são MEDO e MARAVILHAMENTO.

Recorda tu, leitor, de momentos em que vivestes ambas as sensações e expressa, com sinceridade, os contrastes dos efeitos de contração ou expansão e bem como a sua própria percepção do TEMPO sob os distintos estados.

Vide quem tem mais “eternidade antecipada”, se o acumulador (egoísta/indeciso) ou se o doador (altruísta/decidido). As evidências são evidentes, com o perdão do trocadilho.

O AMOR, por ser o cume das coisas da alma, tende ao cume da lógica da ABUNDÂNCIA/ESTABILIDADE/EXPANSÃO, ou seja, o oposto das coisas da matéria e até porque ele se realiza tanto mais quanto menos materialidade nos permitimos.

O consumador enriquece na medida em que ama e o consumidor empobrece na medida em que se consome.

Veja exemplo do “mercado do amor de par”. Conhece gente que atrai outras pessoas por sua “ESCASSEZ” (perfil furtivo, evasivo, até de desprezo, como lógica de oferta e procura). Isso é altamente eficaz para seres materializados, regidos pela mesma lógica que o consumo das coisas, coerente em: mais matéria mais “coisa”.

Em uma relação dessas, quem mostra decisão pelo outro fica até em situação pior em relação a quem dá desprezo. Quem dá decisão reforça o MEDO no outro, já que, lembre-se, o materializado quer preservar a matéria e, logo, foge de decisão, ou seja, de coisa da alma. Pode até acontecer um cenário necrófilo de quem dá AMOR padecer do MEDO de dar amor ao outro e aí segue um ciclo pernicioso.

Se a relação no “mercado de amor de par”, contudo, for entre seres pouco materializados (mais espiritualizados, pois), a lógica é absolutamente a inversa: o valor cambial está justamente na ABUNDÂNCIA de tomada de decisão positiva e num esquema em que a FIRMEZA de um evoca e provoca a firmeza do outro, desprezado,  nesse ambiente o “hesitante eterno”. A lógica neste caso é tal que, quanto mais decisão um provê, a moeda de troca há de ser também decisão, mas em um esquema em que 1 decisão + 1 decisão são mais do que apenas 2 decisões, ou seja, é o efeito de multiplicação mais que o de soma. O razoável nesses casos seria que, quem não decide (não tem iniciativa, nem amor, nem vontade) precisasse achar uma feira de corpos para se vender, mas não insistir na boutique de almas.

É muito fácil achar essas feiras de corpos. Algumas delas são apelidadas de BALADAS – simples assim. A boutique de almas, a seu turno, já é coisa mais escassa neste mundo consumista… Vamos à feira ou boutique?

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

Sem comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mostrar Botões
Esconder Botões