018 – Amor, Política, Oráculo e Esfinges

018 – Amor, Política, Oráculos e Esfinges e Amor

Autor: Vicente do Prado Tolezano 15-09-2017

A relação entre AMOR e POLÍTICA se dá tal como uma relação entre cara e coroa de uma moeda: são inseparáveis entre si a ponto em que não existe uma sem a outra e vice-versa e, mais, que ou se exibe uma ou a outra, mas jamais ambas ao mesmo tempo.

POLÍTICA e AMOR são, ambos, relações de poder envolvendo ao menos dois alguéns ou alguém e algo (uma causa, a humanidade, uma instituição, um bem da vida, etc.).

As distinções estão em que POLÍTICA é uma relação de poder de alguém “sobre” alguém ou algo e, a seu turno, AMOR é uma relação de poder de alguém “para” alguém ou algo.

A métrica do poder político é o quanto o político consegue dirigir, afetar ou influenciar os outros e a métrica do amor é quanto o amante consegue ordenar a si pelos outros. Ou seja, a fonte de força política está nos outros e no amor o reverso.

Necessariamente, sem exceção, todos participamos da POLÍTICA, pois “sobrevivemos” em sociedade e temos de nela construir nosso espaço vital, interagindo em multiplicidade de relações agressivas, defensivas ou mediadoras, todas ora mais ativa, ora mais passivamente. Absolutamente impossível a dinâmica política sem criação de egos, personas ou máscaras, etc…

Esse processo de politização é intuitivo e se inicia muito cedo. Crianças tratam diferentemente (como sob roupas ou personas distintas) pai e mãe na busca de satisfação de necessidades diversas e também agem como camaleões no trato de distintos coleguinhas. A regra da política é apreensão, adaptação ou mediação das circunstâncias. A quem não se politiza, o encontro bruto com as hostilidades é quase imediato e explícito.

É errado tratar toda dimensão política sob uma ótica maniqueísta tal como se toda política fosse má. Se é atividade indispensável na persecução da vida, por óbvio, não teria o monopólio da maldade. Comandar outrem, disciplinar grupos, ordenar produção, estabelecer valores, fixar limites de liberdade, etc., são atividades necessárias e não necessariamente integrantes da cadeia de destruição, ainda que as possibilidades de desvios corruptivos sejam manifestas.

A matéria prima da política é o grau de consciência/ilusão ou crença dos inter-atores que o político há de captar e acatar sem pretensão de elevá-los. O foco político, pois, é como o homem é, ou está, em uma perspectiva predominantemente imediatista e conservadora.

Nem todos participamos do AMOR (ao menos dos demais homens). Todos podemos reforçar a condição para dá-lo, mas não podemos o exigir. Muitas vezes, é necessário desenvolvermos a condição para recebê-lo. Está longe de ser rara a situação de padecer de medo e de sucumbir ante a oferta de AMOR.

Ao menos nos ambientes urbanizados, longe cada vez em maior grau da organicidade natural, o AMOR tem que ser ensinado. Obviamente, se trata de ensinar por meio afetivo-vivencial, não é de índole conceitual. Tão grave é o desconhecimento corrente do AMOR na vida urbana que também não é incomum que, ante a um ato de AMOR, este não só provoque medo como já aludimos, mas sequer seja entendido.

A compreensão do AMOR como ele efetivamente é – resposta existencial – demanda muita maturação. É comum confundir egos expandidos – meras relações políticas de uniões ou grupos – com AMOR. A quem não desenvolve amorosidade, as hostilidades existenciais alcançarão não imediatamente, mas chegam e iniciam sua chegada de forma sutil.

AMOR não coaduna com máscaras ou egos, mas com nudez de propósito, de sentimento, coerência entre fala e ação, inclusive em perspectiva biográfica longa (constituição de caráter).

A regra do AMOR é a captação do universal e comprometimento para com ele. O AMOR sempre consiste em elevar os níveis de ilusão/crença dos interlocutores, rumo ao universal. O foco amoroso, pois, é como o homem deve ou pode ser em uma perspectiva predominantemente não imediata e progressista.

Em todas as nossas ações, o viés pode ser dado para a POLÍTICA ou para o AMOR, sendo difíceis situações neutras, senão as meramente fisiológicas. Ou apresentamos a este mundo e a nós mesmos a VERSÃO da nossa alma (AMOR) ou a DIVERSÃO da nossa alma (POLÍTICA). Todo tempo gasto na versão é tempo não gasto na diversão e vice-versa. Inexoravelmente, as escolhas têm peso.

Outros nomes para VERSÃO ou DIVERSÃO são SIMETRIA ou ASSIMETRIA. A primeira fortalece as duas pessoas de uma relação. Logo, é amorosa. A segunda enfraquece ao menos uma (podendo ser as duas) das duas pessoas de uma relação. Logo, cuida de coisa do quadrante político.

Vamos aos mitos para exemplificar com vivacidade. Mito que condiz com a ASSIMETRIA, ou seja, com a política e particularmente com a política baixa: o mito da ESFINGE. Mito que condiz com o AMOR: o mito do ORÁCULO.

A ESFINGE não só “tinha máscara”, ela “era uma máscara por completo”, com seu belo rosto de mulher, a amenizar o temor que naturalmente deveria provocar seu corpo de leoa. Seu fim era seduzir os incautos e deles judiar justamente por serem incautos. Não tinha absolutamente NADA para prover aos incautos “para” eles, mas só “sobre” eles despejava a loucura e bem rapidinho. DECIFRA-ME OU DEVORO-TE era o seu lema. A ASSIMETRIA era “na veia”. Seguramente devorou milhares de vezes mais que fora decifrada. Ilusão política devoradora puríssima isso, só superável quando decifrada. Mais forte a ESFINGE quanto mais devoravas.

O ORÁCULO, a seu reverso, não só não tinha máscara como sequer uma representação “pessoal” tinha. Era um lugar, ou seja, difuso. E não podia ser diferente, pois seu lema era CONHECE-TE A TI MESMO. Ou seja, provoca à nudez mais importante, que é a interior. SIMETRIA pura, para que a pessoa vá a buscar em si, achando em si os universais, em um processo de maturação lenta, mas libertário de ilusões. Mais forte o ORÁCULO quanto mais libertavas.

Olhemos aos nossos circundantes nas nossas selvas urbanas. Há muito mais ESFINGES que ORÁCULOS. Mais POLÍTICA que AMOR, pois. Em nossas ações, podemos também ser ESFINGE ou ORÁCULO como uma moeda, que ora mostra uma face ou outra.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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