017 – Hércules – Heroísmo e Amor

017 – Hércules – Heroísmo e Amor

Autor: Vicente do Prado Tolezano 07-09-2017

Todo mundo sabe que HÉRCULES era superlativamente forte e a tal ponto que deu cabo a 12 trabalhos impossíveis a quaisquer outros.

Infelizmente, as pessoas, via de regra, só sabem esse aspecto secundário – da FORÇA FÍSICA – e até mesmo antagônico sobre o MITO DE HÉRCULES em detrimento da proposta efetiva do mito, que é a de exibição da FORÇA MORAL E DE AMOR de que HÉRCULES gozava. A rigor, justamente para exsurgir essa força moral, inteligente, sensível e amorosa houve ele, várias vezes, de por de lado a força física bruta.

Hércules era filho de uma relação adulterina, obtida por fraude, entre Zeus e a mortal Alcmena, o que fez com que Hera, a mulher traída de Zeus, jamais contivesse seu ódio por Hércules.

Ademais de Hera, Hércules acumulava muitos outros admiradores-invejosos porque ele era forte, guerreiro e cidadão exemplar, altamente comprometido com as coisas públicas, e também era um pai/esposo amoroso.

Sempre foi característica de Hércules a integridade inocente de quem tem coragem de ser a si sem máscaras. A rigor, isso, por si, já lhe dava o trono de herói, no sentido mais remoto da palavra e mesmo antes de ter feito os 12 trabalhos, pois herói, no sentido lato, quer dizer aquele que “a partir de si supera a si próprio” ou aquele cuja aparência e essência coincidem. Ou seja, em sentido lato, ser herói e ser amante é o mesmo, em termos de conteúdo.

Foram muitos os atos maldosos de Hera contra Hércules, mas o mais agudo foi induzir-lhe a uma alucinação pela qual a esposa e filhos de Hércules ficaram com imagem de inimigos e tal que Hércules, tomado de fúria, os matou a sangue-frio para, depois, descobrir que fora manipulado de maneira odiosa.

Obviamente, o nosso herói, ainda que tendo matado sua família involuntariamente, não apenas se encheu de tristeza, mas despencou em depressão/remorso/horror-interno, até porque é próprio de heróis/amantes avocar responsabilidade, mesmo quando não é exatamente o caso.

Hércules foi se consultar com o governante local sobre sua dor e o fez com toda pureza de abertura. O governante, mais um admirador-invejoso de Hércules, lhe deu a fórmula para purgar o horror interno, que seria a prover uma compensação de bondade para o seu povo através da realização de um trabalho relevante, no caso, matar o Leão de Nemeia, o qual tinha pele impenetrável e matava muita gente.

O propósito do governante era puramente maligno: era simplesmente manipular Hércules para que esse morresse no cumprimento da tarefa, pois não seria crível que Hércules, mesmo muito forte, desse cabo da tarefa.

Como é comum a amantes iniciar relações a partir da confiança, Hércules não desconfiou da má intenção do governante e se entregou à tarefa de coração aberto e, ao contrário da expectativa do manipulador, ele conseguiu matar o Leão de Nemeia.

Já que a pele do leão era impenetrável, a solução engenhosa achada por Hércules foi a de estrangulá-lo, coisa que ninguém cogitara antes, sendo que muitos já tinham morrido no intento, apenas aumentando o número de lanças, sempre tentando reforço na brutalidade ineficaz dos meios meramente brutos. O governante gozava da convicção de que Hércules meramente repetiria o instinto cego em valer da força bruta.

A fineza metafórica aí contida é a mensagem de “sufoque o leão interior”, o do instinto de violência que todos temos, pois é isso que nos ascende à força efetiva.

Hércules voltou ao governante com o corpo do leão e, obviamente, estava feliz com a bondade que fez e que já pensava que poderia abrir as portas de sua redenção. O governante traiçoeiro, contudo, surpreso com o êxito de Hércules seguiu a manipulá-lo dizendo que agora haveria de fazer um 2º trabalho. Ao cabo do 2º trabalho bem sucedido, ao reverso da expectativa do governante, este criou um 3º e aí, sucessivamente, até o 12º.

O esquema do mito é que a força monumental de Hércules bebia de sua inocência e empenho sincero na resolução dos trabalhos, sem, inclusive, desconfiar, na partida, de que era manipulado.

Cada trabalho era sucessivamente mais difícil, mas a cada realização Hércules ficava mais forte, pois ia adquirindo virtudes e, pois, maior capacidade de amar sem limites, transcendendo-se incrementalmente a cada etapa. Cada qual dos trabalhos tem uma associação metafórica com o desenvolvimento e posse de uma força – ou virtude. A posse de todas elas implica o amante pleno, redentor de si e que goza, ao cabo, de extraordinária consciência, inclusive a de que foi manipulado. Mas, em uma altura de consciência de que tal não importa mais, pois o que interessa ao amante é que ele amou, tendo a coragem de ter posto para fora de si todo seu potencial de criação. A bondade sempre vale por si.

O mito, pois, se presta a mostrar a abundância pelo amor e não pela força física, aspecto este a que o mundo de Hollywood se limita a entender e exibir, subvertendo o senso do mito!

O Mito de Hércules era mito do amor, da coragem de ser a si, da capacidade de transcender-se e integrava o sistema educacional grego chamado de PAIDEIA, pelo qual a juventude era educada a, antes de gozar de formação intelectual, “ser a si”, no sentido de ter a coragem de ser a si, que é a mesma coragem de amar. Nada era mais reprovável que ter algo a esconder de si ou de intenção sua.

O Mito era ensinado, não apenas por forma contada, mas vivencial, dramatizada como em teatro. A cada etapa vivida e absorvida do mito, em paralelo a que Hércules subia de nível de consciência, o jovem educando tirava uma peça de roupa até que ao completar o 12º trabalho ficaria plenamente nu, representando o homem puro, limpo, sem ter nada a esconder e, pois, amante, pois quem tem a coragem e força de nada ter a esconder de si necessariamente se dedica ao amor, que é a força pura dissolvente dos “eus” de aparência.

Os 12 trabalhos, 12 caminhos de elevação ao amor pleno, e as forças-virtudes metaforicamente associadas são:

1 – Leão de Nemeia – Sossega ímpetos de violência ou instintos cegos;

2 – Hidra de Lerna – Vícios nunca são extintos para sempre, temos que os vigiar sempre;

3- O Javali de Erimanto – Respeito aos outros e às suas coisas;

4 – A Corça de Cerineia – Respeito e sensibilidade à natureza e ao sagrado;

5 – Os Estábulos do Rei Augias – Higiene do corpo e alma devem ser diários;

6 – Os Pássaros do Lago Estínfalo – Advertência contra as manias de grandeza;

7 – O Touro de Creta – Desenvolvimento da Inteligência;

8 – As Éguas de Diomedes – Controle da força sexual;

9 – O Cinto da Rainha Hipólita – Rigor na verdade;

10 – Os Bois de Gérion – Desapego das coisas materiais;

11 – As Maçãs de Ouro das Hespérides – A Importância de Fecundar;

12 – O Cão Cérbero – Assumir o controle do nosso destino para evoluir e não degenerar.

Ao cabo, pois: AMOR é para os HERCÚLEOS e os HERCÚLEOS amam.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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