015 – Amor Filia

015 – Amor Filia

Autor: Vicente do Prado Tolezano 16-08-2017

Já nos debruçamos noutros artigos sobre a distinção entre SEDUÇÃO e AMOR e já tratamos também sobre o AMOR ÁGAPE, temas importantes para uma boa compreensão do AMOR FILIA, sobre o que este artigo ocupar-se-á.

AMOR FILIA é AMOR, ainda que, por vezes tenha ressaibo de aspectos do pseudo-amor, próprio da SEDUÇÃO, particularmente na dimensão prazerosa.

AMOR FILIA é amor “determinado”, no sentido de que é expressão de amor em “relações concretas”, determinadas ou determináveis, mas que, ao cabo, é som refletido em eco do AMOR ÁGAPE, também chamado por amor indeterminado, amplo, pelo todo, pelo Ser e pela realidade total.

Senão nos seus patamares de piso, o AMOR FILIA nunca é independente do AMOR ÁGAPE, pois é princípio até lógico de ser o fundamento geral de potências ou possibilidades, atos concretos não podem vir a ser. O AMOR FILIA é uma atualização do AMOR ÁGAPE, tal que sem este, aquele não se desenvolve.

A compreensão desta vinculação entre o “todo e suas partes” é muito importante, pois o pleno sentido do AMOR FILIA é, através de situações concretas de amor, PARTICIPAR do AMOR maior, como “inscrever-se” no AMOR maior, como uma “contribuição-dever individual-particular” para com a totalidade da realidade. Também é chamado de amor “ascendente”, que vai do chão ao céu.

São 3 os motivos que conduzem às relações particulares: o PRAZER, a UTILIDADE e a BONDADE. Claramente, há uma gradação de amor entre os tais motivos, ficando evidente que esta gradação parte do prazer, passa pela utilidade e culmina na bondade.

É possível que os 3 motivos estejam co-presentes ou não. O que, contudo, implica de maneira própria falar de AMOR, será a presença da BONDADE. Se só houver presença dos demais fatores não se tratará de AMOR FILIA em sentido próprio.

Um exemplo clássico de AMOR FILIA em sentido próprio: um professor vocacionado e seus alunos. Para a vazão de sua vocação, o professor “precisa” de alunos, os quais, pois lhe são úteis. Doutra banda, é difícil ver maior prazer nesta vida que não a vazão da vocação, donde a relação estabelecida com alunos em concreto tem tudo para dar prazer ao nosso professor vocacionado.

A diferença entre o profissional-amante-vocacionado e o profissional-meramente-funcionário é que este último entrega o mínimo necessário e o primeiro entrega o máximo possível, ou seja, variam em BONDADE.

Quem já não padeceu de professor-meramente-funcionário, aquele que cumpre expediente, segue procedimentos, e se resultado não há, oras bolas, o fato é que, conforme ele alega, “a parte dele já fez e se o aluno não aprendeu é problema dele”. Eles trabalham pela UTILIDADE, que é o salário e quanto ao prazer podem variar entre “nenhum” ou até “algum”.

Em um país em que a maioria vai à escola por anos, mas se alfabetiza apenas funcionalmente, não deve ser difícil ver que escasseiam vocações e amores…

O professor vocacionado, a seu turno, amante-BONDOSO, não tende a ter a métrica de sua ação no “cumprimento ou dever de procedimento” (também chamado de eficiência), mas no resultado que se espera. Esse é o incremento da EDUCAÇÃO do aluno e pelo aluno e, sempre que o caso, deverá ir além da mera eficiência para alcançar EFICÁCIA, que é fazer “a árvore dar frutos”.

Uma característica do vocacionado-amante é que, se os procedimentos ordinários disponíveis são insuficientes, ele vai além deles, seja na extensão ou na criação. Se for impossível a um profissional-amante-vocacionado gerar frutos por restrições quaisquer do ambiente, ele, cedo ou tarde, se retira e vai plantar noutro lugar.

Há alguns professores-amantes-filia ainda. Este articulista já padeceu de centena de professores-não-amantes e já gozou de três-realmente-amantes.

A priori, o amante é guloso, pois quer prazer, utilidade e bondade, mas pode abrir mão das camadas de baixo pela de cima, se necessário. Dentro de um sentido, ao prover a bondade, ele já goza do útil e do prazer em si.

Em sentido próprio, BONDADE é prover o FORTALECIMENTO do outro pelo outro.

Mutatis mutantis, o que se aplica a professores se aplica às demais relações de amor filia.

O leitor conhece casos de casais em que há ótima relação “tanto quanto se esteja no degrau do prazer, mas se encerrado este se encerra a relação?” O prazer em questão não demanda ser necessariamente sexo, mas pode ser viagens, gostos em comum, estilos de coisas e etc…, inclusive, “prazeres a priori não nocivos” (senão não seriam meramente sedução), mas que não vão se sustentar.

É o que hoje se chama de “amor líquido”, do tipo “usa e joga fora” quando não dá mais prazer. Toda corrupção começa, tenham em mente, já pela corrupção das palavras…

E sobre as relações conjugais UTILITARISTAS? O caso não é apenas do manjado “golpe do baú”, mas sim de tratar casamento (os que sobraram) como SOCIEDADE e não como INSTITUIÇÃO.

O leitor já se deparou com situações em que se diz que é uma relação ótima, afinal, dividem as contas, respeitam os espaços de intimidade rigorosamente, estabeleceram diversas regras de convivência, dividem o tempo de encargos com filhos com aquilo e etc.? Isso é bom exemplo de sociedade e que pode até fluir bem em seus limites ÚTEIS, mas não implica bondade necessariamente, pois na queda da contribuição ou aportes de um sócio, mesmo por motivos involuntários, o outro pode não gostar e a bondade pode não bradar sua presença…

Tal como o professor amante-vocacionado, o cônjuge amante se foca no FORTALECIMENTO do cônjuge e vai para além das fronteiras do script, de regras de divisão objetiva de tarefas em prol desse e, mais ainda, assume fardos que seriam a priori de quota-parte da carga do cônjuge, como a prole e aí em diante.

São sutis a diferença, em termos de (des) essência amorosa, entre um funcionário de empresa e de um cônjuge utilitarista… Seguem a mesma lógica de idiossincrasia. Em todas as relações humanas concretas com potência de amor (filiação, amizade, empregatícia, coleguismo, etc…), podemos aplicar a estrutura do AMOR FILIA, já desenhada por Aristóteles há mais de 25 séculos e que aqui apresentamos.

Há relações, contudo, que nem o amor paupérrimo da mera dimensão do prazer (ou da utilidade) pode ser presente, como se dá nos caso de sedução, ódio e outras perversões plenas, pois o prazer envolvido já é sempre, desde a partida um vício absoluto, o mesmo se passando com a utilidade. Abordaremos essas dimensões do mal em artigos futuros.

Ao cabo, a questão: PARA QUE O AMOR FILIA? Ou porque ser amante? Obviamente, o tema é colossal, mas por ora fica apenas um esboço de resposta sem perder substancialidade: NÓS PRATICAMOS O AMOR FILIA COM TODA A EXTENSÃO E INTENSIDADE ATÉ O NÍVEL DA BONDADE PARA “SERMOS”.

Vamos parafrasear: nós só constituímos o nosso EU, seja no sentido do caráter, da consciência ou da intimidade, na medida em que nós AMAMOS de forma filia, tal que esse amor particular irá se inscrever no AMOR ÁGAPE total. A nossa dimensão de ser é uma “dimensão de ser por participação”, que podemos exercer ou rejeitar. A relação de subida filia ou descida ágape sem interrupção opera e nela estar é o nosso maior gozo, que é a saída de si para mais de si. Fora disso, estamos “dissipados” em ilusão e tal que é possível sair de si para menos de si.

Isso tudo é uma OBVIEDADE para a inteligência. Só não é visto porque o ambiente está assaz degenerado. Amor segue sendo a única vereda da felicidade.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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