014 – Tipos de Amor – Diferenciado e Indiferenciado – ÁGAPE

014 – Tipos de Amor – Diferenciado e Indiferenciado – ÁGAPE

Autor: Vicente do Prado Tolezano 18-07-2018

Em outros artigos, já separamos da zona semântica do AMOR a dimensão ERÓTICO-DESEJANTE-POSSESIVA-CONSUMIDORA, bem como já apontamos a subjacência essencial do AMOR por uma noção VOLITIVA-BENEVOLENTE-EXPANSIVA-SEMEADORA para com o OUTRO. Obviamente, esta nossa divisão goza de arbitrariedade e tem fins meramente de exposição, pois sempre haverá ressaibo ERÓTICO junto às formas de AMOR.

Neste artigo, vamos começar a distinguir o AMOR em espécies. Começamos, na partida, com a diferença entre AMOR INDIFERENCIADO e DIFERENCIADO, normalmente chamados por ÁGAPE e FILIA.

ÁGAPE denota um AMOR pela totalidade indeterminada, propriamente um amor espiritual pela existência própria do AMANTE e da realidade como um todo. É um estado de bem-querer para com tudo. Nesta espécie de AMOR, há assunção inevitável de senso de infinitude e um sentido “descendente”, tal como a recepção de um AMOR DIVINO, do altíssimo, e do qual o AMANTE será um distribuidor neste mundo através de várias espécies de amor FILIA (conjugal, paternidade e filiação, amizade, pela pátria, pela verdade, etc…).

ÁGAPE também pode ser chamado de: CARIDADE, particularmente tendo em mente a “indeterminação” em um sentido do “PRÓXIMO”, o “outro em geral”, expressões usadas maximamente pelos cristãos. O AMOR ÁGAPE conduz a uma postura de CONTEMPLAÇÃO AMOROSA, a uma inércia ou propensão a uma BUSCA DE UNIDADE NA UNIVERSALIDADE, clara porta dos jardins metafísicos. Ou seja, implica um estado de inebriamento e intuição de uma objetividade metafísica, em uma forma tão íntima que fica evidente ao AMANTE que seria uma grosseira CONTRADIÇÃO haver a realidade física sem que houvesse a dimensão metafísica como ordenante.

Em certo sentido, é pelo corredor do AMOR ÁGAPE que se fundem fina inteligência e percepção moral/estética.

O AMANTE, na perspectiva ÁGAPE está afetado de GRATIDÃO. Até porque a contempla, aceita a realidade sem a “macaquear” por ímpetos ou impulsos egóicos. Outro nome possível para GRATIDÃO, no sentido ora empregado, é HUMILDADE, como quem se curva à realidade e em reverência a ela.

O estado do amante em ÁGAPE é próximo, senão o mesmo, do clássico asserto de LOUIS LAVELLE, segundo o qual “há na vida momentos privilegiados em que parece que o Universo se ilumina, que a nossa vida nos revela sua significação, que queremos o destino mesmo que nos coube como se nós mesmos o tivéssemos escolhido”.

O oposto do AMANTE, na perspectiva ÁGAPE, é a pessoa RESSENTIDA, sempre queixosa da estrutura da realidade como ela exatamente é. Ao RESSENTIDO, ocorra o que ocorrer, sempre a realidade estará aquém de suas ilusões de como ela deveria ser.

O sempre velho e sempre novo problema desde a sofística grega, que, dos lábios e punhos de PROTÁGORAS (486 ac – 411 ac) pregava (mau), que o “homem é a medida de todas as coisas”, em grande parte está contido no dilema de se render ou negar o AMOR ÁGAPE. Veja, sob outro giro, a mesma coisa: ser ego-soberbo-centrado ou ego-humilde-superado. Ainda em outras palavras: eu crio o mundo e me chateio com a realidade que resiste à minha (pseudo) criação ou eu descubro o mundo.

As implicações de gozar ou não do AMOR ÁGAPE são imensas, pois, dado que, como já adiantado, seu fluxo vem do alto para ulterior distribuição em AMOR FILIA e a escassez da alimentação há de gerar, no mínimo, defeito (como “de” + “efeito” ou efeitos deformados).

A questão é até lógica, pois se não há uma dimensão universal, as dimensões particulares tendem ao vazio, ou à não sustentação. Imagine alguém que não creia na fertilidade em geral e insista para que ele plante! É até possível que plante, mas o nível de “entrega” tende ao mais rasante dos rasantes.

Avalie, leitor, que é um PARADOXO pleno a cogitação de possibilidades particulares sem  a assunção de pressupostos universais em qualquer dimensão da realidade, não apenas para contemplação do amor e alimentação por ele. Sem potência prévia, inexiste ato, diria de plano qualquer conhecedor de ARISTÓTELES.

Só há justa medida de amores particulares, seja de pai para filho, entre concidadãos, amigos, professor – alunos e etc…, com um fundamento maior de AMOR para arrimar, no caso, o AMOR ÁGAPE. Do contrário, inexistiria racionalidade qualquer para sustentar os amores filia e tudo em um esquema em que quaisquer atos neste sentido seriam atos de meros “mecanismos” (com giros falsos até) e não de organismos integrados em si e para com uma totalidade até cósmica.

Pela relevância, vamos repetir: sem AMOR ÁGAPE, nenhuma outra modalidade de AMOR tem sentido, tal como querer plantar sem existir ou crer na fertilidade. Tenha o leitor, qual for a concepção de substância Divina, mas é assim que é a estrutura da realidade: justamente o AMOR, sobressaindo o ÁGAPE, a “maior realidade”, como o Ser e o próprio Motor/Movimento do Ser. A rigor: “Deus é AMOR no sentido ÁGAPE”.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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