012 Sedução não é amor

012 Sedução não é amor

Autor: Vicente do Prado Tolezano 12-12-2017

Parecem coisas associadas entre si, mas, ao reverso, são até antagônicas e inconciliáveis na maior parte: a SEDUÇÃO e o AMOR.

As duas coisas tem em comum que ambas são MOVIMENTOS de alguém a alguém ou a algo e movimentos que, consciente ou inconscientemente, visam a um PREENCHIMENTO existencial com gozo de um PRAZER.

Pertencem até a categorias ontológicas distintas: a SEDUÇÃO se enquadra na categoria PAIXÃO, pelo que o seduzido – um paciente – é levado ao sedutor predominantemente pela vis atractiva deste e o AMOR, a seu turno, pertence à categoria da AÇÃO, tal que a força motriz é do próprio agente.

SEDUÇÃO é DESEJO, e desejo de POSSE. O seduzido tem a pretensão – ILUSÃO – de ter POSSE sobre o bem, coisa ou pessoa desejado. Ele SOFRERÁ de todo o jeito, pois:

a) se não lograr a posse, pode entrar em desespero e todo seu IMAGINÁRIO vai hiperbolizar uma sensação de PERDA, ainda que, objetivamente, nada haja perda. Justamente a partir do movimento, por SEDUÇÃO, é que a um festival de amarguras se sujeitará;

b) se lograr a posse, logo vai descobrir que, na mais branda das hipóteses, se cuida de PSEUDO-POSSE e que o bem desejado não tem o valor imaginado. As cortinas cairão para o brilho escuro do DESENCANTO, ENFADO, (AUTO) ENGANAÇÃO, etc… As chances dessa posse se converter em ÓDIO são imensas.

As coisas “sedutoras e desejantes” também se chamam de ERÓTICAS, expressão que denota os movimentos sob os lineamentos acima, para não apenas aspectos sexuais, como muitas vezes se pensa. Vide um dos pilares da contemporaneidade, o CONSUMISMO, e verá que está integralmente jungido à estrutura ERÓTICA. O tênis era excessivamente lindo antes de ser comprado e como esse comprador-consumidor-desejante-seduzido sofreu antes de tê-lo e o quanto se enfadou após o ter…

DESEJOS tendem a não ter limites, até porque são plasmados, não com espeque no chão da realidade, mas com espeque na areia da imaginação. Via de regra, são ILUSÕES das mais desarrazoadas e que, não raro, na medida em que obviamente se frustram, acabam por abrir caminho a ilusões sucessivas, mais intensas, mais ilusórias e mais doloridas. Como não dói a implosão de edifícios de sentimentos calcados no nada!

Obviamente, há muitos níveis de DESEJOS e SEDUÇÕES e nem todos hão de ser colocados na vala dos pesares. Havemos sim, dentro de limites, gozar de prazeres desejantes-sedutores e o nome disso é DIVERSÃO, como o que “di” – separa, divide – a “realidade”, no sentido da versão da realidade contida em nossa alma.

Uma vida vácua em absoluto de DIVERSÃO é uma vida quase insuportável, de forma que nem todo SEDUTOR é necessariamente PREDADOR. As balizas do sadio são moderação e consciência, ou seja, limites e entendimento, noutras palavras.

Conceder a um luxo e/ou a um supérfluo, entendendo o que se lhe passa, sem comprometer outras coisas é assaz diferente de crença ou mesmo vício no consumo. Sentir-se enamorado de alguém também segue distinto de flertar alguém inconsciente ou levianamente.

Sucede que, não raro, o mínimo se torna máximo. Quem não conhece sofredores CONSUMISTAS ou SEDUTORES sensuais/sexuais em demasia em seu entorno? Não só isso, mas a subversão pode alcançar patamar não apenas de mera desproporção, mas até de alteração dos fins da vida, tal que se passe a entender que a RAZÃO DE SER DA VIDA SERIA DESEJAR ao invés de AMAR, que é a única métrica humana no sentido próprio. Chame isso de MATERIALISMO e/ou HEDONISMO.

A ascensão na subversão ainda pode alcançar patamares em que a dimensão, DESEJANTE SEDUTORA, seja apenas o motor central de uma personalidade, mas também que a sua pretensão e satisfação (impossível) sejam associadas a um senso de dignidade de EGO, AUTO-ESTIMA ou AMOR-PRÓPRIO (para não dizer “ódio-próprio”). Quem não conhece os EGOÍSTAS? Querem, querem e querem posse e cada vez exclusivamente para si e tanto que seu senso de valor é a posse de coisas e pessoas. A dor ou dilaceração da pessoa “possuída” inclusive alimenta o ego do egoísta.

O EGOÍSTA, até porque consciente ou inconscientemente, é um grande SEDUZIDO, tende a ser o maior SEDUTOR e reproduz a sua lógica, provocando DESEJOS, desejos e desejos nas pessoas, os quais, como vistos, na lógica acima apontada, não são satisfeitos, evidentemente. Ainda que o EGOÍSTA tenha alguma satisfação com a dor das presas da ilusão por ele plantada, segue em um paradoxo de que, tanto quanto não resolva seu problema primário de não AMAR, essa satisfação incremental gera mais tristeza, que será vetorizada para mais sedução sucessivamente. Igualzinho ao consumidor do tênis x, que agora quer o tênis y, depois o tênis z, etc…

A questão é que DESEJAR e SEDUZIR ou mesmo SER SEDUZIDO/ILUDIDO vicia.

O princípio é que, gente alegre espalha alegria ou, noutras palavras, AMOR. Gente triste espalha tristeza, seja por agressão explícita ou dissimulada, como SEDUÇÃO, nesse caso podendo ser chamada de MANIPULAÇÃO.

Acredite leitor, que tu estás RODEADO de MANIPULADORES assim e para fins diversos. Alguns deles reproduzem fielmente a lógica apontada aqui sem grande consciência e uns tantos são MUITO LÚCIDOS nesse “marketing predatório”. Quanto mais logo o leitor quebrar a parede de pedra grossa da ilusão de que de um SEDUTOR (pessoa ou coisa) possa vir AMOR, de muita dor vai se poupar.

Frui vossos prazeres nos limites pertinentes, mas conservai que o objeto do prazer pode te manipular com facilidade e, quanto a tema de prazeres, sempre há buraco perto. Em tempos de feminismo se tornou politicamente incorreto usar expressões como “mulher honesta” – justamente para separar das “desonestas” – ou de dizer a verdade de que, por natureza, homem não percebe a mulher como esta percebe aquele.

Para que não exista dúvida: gente honesta é a que AMA e, na pior das hipóteses, a que, se não ama, diz assertivamente que não ama. Gente desonesta é a que não AMA e manipula, seduz, finge, se omite, se furta e etc…, em sentido diverso. Em certos sentidos pode-se dizer que, ser é AMAR, e não ser é não AMAR. A provação de Hamlet, no trocadilho do “ser ou não ser, eis a questão”, em efeito é amar/honestamente ou não amar/não honestamente. Muitas derivações podem sair daqui como ter ego/não ter ego, iludir/abrir à realidade, ter consciência/cegar-se e etc…

Não AMAR está longe de ser coisa rara, mas NÃO DESEJAR, NÃO SEDUZIR nem SER SEDUZIDO é sim raríssimo. A rigor SEDUÇÃO e AMOR se posicionam reciprocamente como se fossem dispostos em uma balança. Se o peso da SEDUÇÃO é grande o prato de um lado da balança fica no chão, ao acesso das gentes e o prato do AMOR ficará leve e, pois, alto, sem que as pessoas lhe acessem.

Mas agora, a pergunta: o AMOR, o que e como é? Fica para o próximo artigo!

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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