008 Literatura, movimentos vitais e algumas dicas de leitura

008 Literatura, movimentos vitais e algumas dicas de leitura

Autor: Vicente do Prado Tolezano 27-04-2017

Todo ser vivo, sem exceção, tem 3 movimentos vitais: o afastamento, a mediação e a assimilação (síntese). Experimente ver isso em uma samambaia, em um gato e no homem e vai constatar que não há furo.

O incremento que temos em relação aos demais viventes é que, em nós homens, esses movimentos se dão, não apenas em termos materiais/corpóreos, mas também se dão relativamente à nossa alma.

Em termos materiais, é fácil perceber que corpo-vivo qualquer se afasta de algo que lhe comprometa a vitalidade, que se aproxima e se ajusta (mediação) com o que precisa para viver e que assimila outros elementos, retornando uma transformação, nem que seja, no mínimo o próprio movimento de sua vida (síntese).

Em um animal, a percepção disso é muito trivial. Vejamos, agora, uma planta. Ponha-a em um lugar em que de um lado há uma fonte de calor excessivo e verás que ela se afasta, desenvolvendo-se para o outro lado (afastamento). Ela vai se desenvolver para o lado em que há luz, vai tomar/se moldar conforme o contorno do vaso, do ambiente espacial em geral, etc… (mediação). Ela vai se alimentar (assimilação) com água, sais minerais, luz e vai liberar oxigênio, na chamada fotossíntese.

Na nossa dimensão material, se passa o mesmo. No particular da síntese, ao menos, ela é a “obra” que aqui deixamos, o resultado externo de tudo o que assimilamos. O busílis deste artigo, contudo, é observar os movimentos vitais na perspectiva da alma e os associar com a literatura.

No bom sentido do movimento de afastamento pela alma, valemo-nos da DIVERSÃO, que justamente é um afastamento da gravidade da realidade sobre nós.

Por “verso” se denota a interioridade da alma impressa pela tensão exterior, da realidade objetiva e de onde vem que o “verso”, de um poema, é a extrusão de um estado de alma. Di + verso + ação é um movimento que nos divide/tira da tensão do real. Pense em dias seguidos com vácuo absoluto de diversão e constatarás a “loucura ou tortura” que seriam.

É de ver que a adequada DIVERSÃO auxilia deveras nas funções de criatividade. Demanda alguma sutileza e aguda seletividade, mas muitas vezes a DIVERSÃO é que tem mais realidade que a realidade em si, apesar se ser “aparente paradoxo”. É óbvio que não estamos a nos referir a “aberrações” que possam existir sob o “pretexto” de diversão.

Para ilustrar, veja, agora, que o mal sentido do movimento de afastamento é o TEMOR, que pode se manifestar pelos estados de alma de VERGONHA, INSEGURANÇA ou DESCONFIANÇA.

Reflita sobre uma gangorra que quase nunca falha: numa pá a DIVERSÃO e noutra pá o MEDO. O que em comum, contudo, tanto a DIVERSÃO quanto o TEMOR têm é que ambas se fundem na IMAGINAÇÃO. De uma forma em que quanto mais rica a imaginação de alguém, de mais DIVERSÃO a pessoa pode gozar e de menos MEDO padecer. Essa é uma zona de dimensão intrapessoal.

Por excelência, o nutriente da imaginação é a LITERATURA de um modo geral, sem embargo, claro, da preponderância da FICÇÃO narrada em forma de CONTO.

Não somos conhecedores fundos da história literária. Deixamos, contudo e conforme nossa predileção. Duas dicas ao leitor brasileiro que quiser debruçar-se sobre contos de simples acesso, sem embargo de que são riquíssimos, divertidos e altamente férteis para edificar seu imaginário e com bastante foco no tema do MEDO: Lima Barreto (1881-1922) e Monteiro Lobato (1.882-1.948), nos seus contos para adultos. Sobre a primazia da realidade da fantasia em detrimento da realidade real, uma boa sugestão de autor moderno-recente é Gabriel Garcia Marquez (1.927 – 2014).

As mediações, a seu turno, que temos são tanto para com o meio natural como para com o meio social, seja esse meio social mais íntimo ou mais abrangente até a escala do mundo, mas sempre tingido com a cor da política. Essa é a dimensão intersocial. Esses movimentos incluem a dimensão do imaginário, mas demandam-nos mais do que isso, incluindo um nível de CONHECIMENTO OBJETIVO da realidade.

Para a mediação relativa ao meio natural, precisamos praticar a faculdade do ENGENHO (de onde vem o termo engenharia), o que pressupõe, obviamente, um grau de objetividade da natureza. Na literatura, a seu turno, a clareza sobre a objetividade natural se cultiva por meio dos ENSAIOS ou TRATADOS técnicos, científicos ou congêneres. Os efeitos da deficiência do ENGENHO são óbvios, de pobreza material, inadaptabilidade, etc…

Na perspectiva da mediação para com o meio social, precisamos praticar a POLÍTICA, termo esse bem mais amplo do que seu senso meramente coloquial de “política partidária-de estado-institucional-pública”. Toda interação humana é política; mesmo crianças em fase pré-escolar já praticam política entre si, pois ora cooperam entre si, ora se opõem, fazem negociações diversas, mesmo que inconscientes e etc…

Ao contrário do que muitas vezes se pensa por ingenuidade, política não é coisa do ACASO e o conhecimento sobre ela é, sim, um conhecimento de caráter OBJETIVO tal como é o conhecimento do mundo natural.

Não te desenvolva em nada, ou muito pouco, na seara política e terás riscos altíssimos de não adaptação/convivência ou, até pior, ficará BOBO, no sentido de INGÊNUO, podendo ser facilmente manipulado. Na perspectiva ainda mais funda da alma, conhecer da dimensão política é conhecer muito das condições antropológicas e, mais, é indispensável para as elaborações preparatórias do AUTOCONHECIMENTO.

O melhor ministro de advertências e conselhos para a navegação nos mares políticos segue sendo o velho e sempre novo TEATRO. A peça teatral e a poesia são ora grandes rivais entre si, sobre qual é a semente de onde todas as demais expressões literárias vêm e ora amalgamam-se.

Ao leitor que quiser se vitaminar no fluxo na dimensão política, deixamos uma dica clássica – universal e que não incorre em risco algum de abuso por qualquer excesso – o Teatro de Shakespeare (1564 – 1616).

Ao cabo, tratamos do movimento da assimilação (síntese), o qual, não é excesso de dizer, é o AUGE da nossa existência e que coroa nossa humanidade. São poucas as almas que logram intuir a SEMÂNTICA da sua vida tomada de forma integral. Multidões vibram pelo movimento apenas de afastamento, um punhado, a seu turno, alcança graus de mediação e um punhadinho efetivamente ASSIMILA a vida.

Essa é uma zona de dimensão sistêmica, é a zona do ENTENDIMENTO, de matriz intra-inter-supra-pessoal, ou seja, é mansão por excelência do ESPÍRITO. Só o homem REFLEXIONA. Só ele percebe, com muito esforço, o seu SI. Reflita o Autor, oportunamente, das distinções entre o CONHECIMENTO, zona da mediação, e o ENTENDIMENTO, zona da assimilação. São ora sutis, mas são sempre profundas. Quem entende, conhece, e está presente sem fuga. Ou seja, os movimentos são cumulativos na forma crescente.

Como adiantado, a ASSIMILAÇÃO implica sempre um mínimo de SÍNTESE. No caso de uma planta, a entrega de oxigênio, resultado sintético de água, sal mineral e luz. No caso de um predador que come uma presa, toda a sobrevivência do predador, que segue a se movimentar e afetar o mundo.

A obra mínima que nós deixamos é sempre o nosso movimento biográfico, que, querendo ou não querendo o homem, afetou o mundo, nem que minimamente. De qualquer forma, é óbvio que há obras de capelinhas e obras de catedrais! A obra da catedral tem que dar todos os movimentos: aproxima pela beleza, provê solidez, sentido imediato, congrega, harmoniza, comove e instiga o sentido “para além”. Ou seja, é “em si” e “transcende a si”, tal que vale pela obra matéria e pela obra espiritual.

O baú de recursos da literatura provê para a corroboração ENTENDIMENTO fino da vida, que há dois nutrientes notáveis: poesia e romance. A POESIA com sua mística ínsita, difusa, sutil, ambígua, como que VERTICAL para contrastar com o ROMANCE, integrador de tantos balanços HORIZONTAIS, um resultado de tantas intersecções senão fricções de almas. Os autores de nossa predileção para esse particular são Fiódor Dostoiévski (1.821–1.881) e Guimarães Rosa (1.908–1.967).

Nosso intento, ao cabo, é salientar o óbvio, óbvio que, não obstante seja óbvio, há de ser repetido, repetido e repetido: LITERATURA é sempre a melhor CURA, trata e previne. Não há um só movimento que a vida te peça que não possa ser vitaminado pela assimilação de uma obra literária.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

Categories:

Sem comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mostrar Botões
Esconder Botões