005 A concepção de cultura

005 A concepção de cultura

Autor: Vicente do Prado Tolezano 04-04-2017

Vige entre nós, hoje, o senso de que TUDO QUE SOCIAL É CULTURA. Há até lei do estado carioca que afirma que FUNK é cultura (Lei 5.543/2009). Em um sentido, de mero retrato das coisas sociais como elas são, até não seria equivocada essa semântica, mas em um sentido muitíssimo amplo e desprovido da NOÇÃO DE VALOR que normalmente se quer empregar.

A semântica clássica, contida no termo CULTURA, evoca a noção de CULTIVO, ou seja, de uma MEDIAÇÃO humana ordenada sobre um fato bruto da natureza visando a um FIM. Ínsitos aí também os sensos de MELHORAMENTO, REFINAMENTO, INCREMENTO, TRABALHO, etc.

Pense na etimologia da expressão AGRICULTURA, composta das raízes latinas AGRI (campo) e CULTURA (cultivo), e veja como fica clara a ideia. Contrasta-a, agora, com as expressões EXTRATIVISMO ou PREDAÇÃO e observa com mais clareza ainda o sentido evocado.

No paralelo humano social, a agricultura é a cultura tomada na acepção de uma forma de mediar a vida para MELHOR viver, tudo por meio de uma acumulação, não meramente social, mas, inclusive inter-geracional. Tal como no plantio da terra que emprega como semente os melhores frutos, tal se dá no plantio do imaginário, das aspirações, e das práticas humanas, sendo a cultura justamente esse filtro e luz.

Por conta dos tempos do Politicamente Correto, se tornou reprovável JULGAR, como se MELHOR ou PIOR não fosse o caso ou até mesmo como se toda a categoria ontológica da QUALIDADE não existisse.

A rigor, uma (pseudo) cultura que prega a abolição exagerada do JULGAMENTO QUALITATIVO é uma cultura degenerada para a PREDAÇÃO. Difere – e até para pior – do EXTRATIVISMO, o qual, nesse paralelo, são as meras fisiologias humanas. Antes o homem inculto, no sentido de bruto pleno, ia à busca da colheita e caças diárias apenas pelas leis do desejo imediatos do corpo. Não do que inculto, no sentido de gozar de uma mediação imaginária, habitual ou referencial deturpada.

É tal como o AMOR, na perspectiva de que é melhor não ser amado que ser falsamente amado. Na concepção de mero retrato, o FUNK é bem cultural, a pornografia também, idem a chulice em geral, a própria fala desarticulada sem vocabulário e etc. A seriedade da questão não é meramente por conta de um preciosismo de dizer o que é culto e o que não é, mas, é que essa indiferenciação conduz ao maior dos absurdos que é o GROTESCO: REALMENTE se entender CULTO, padecendo de um dos maiores males espirituais possíveis que é TER ORGULHO DO SEU FRACASSO.

Os efeitos ilusórios e escravagistas disso tudo são notórios, só pouco amplificados em sua NUDEZ obscena porque prevalecem os iludidos e escravos.

A música tem imenso impacto na ordenação afetiva das pessoas. Tivemos Samba, MPB, Bossa Nova e fomos ao pagode e ao FUNK, como prática social prevalecente.

A linguagem escorreita é essencial, não só na comunicação eficaz, mas no desenvolvimento da percepção da realidade. Já tivemos, até publicado em JORNAIS, Machado de Assis, Lima Barreto, Monteiro Lobato, etc. Qual escritor contemporâneo nosso tem estatura para estar no tornozelo desses quanto à reflexão interior, percepção fina da realidade e dramaticidade existencial? Não se olvide que sequer advogados da contemporaneidade normalmente falam direito ou escrevem textos com 4 parágrafos bem articulados.

Exemplos, na estética, na arquitetura, nas regras de convívio social, nos maneirismos, etc., são inúmeros e tal que não vem ao caso aqui listar. O foco aqui é centrar que SOMOS INCULTURADOS em maior parte e partimos, não ao mero EXTRATIVISMO de viver na imediatividade da vida, mas na PREDAÇÃO. Tudo isso com VERNIZ de cultura, tudo acobertado pela corrupção semântica do termo.

O professor Olavo de Carvalho tem toda razão quando afirma que no Brasil recebemos uma alta dose de DEFORMAÇÃO perceptiva-existencial só por estar aqui e que a solução a tal é individual com bebida diretamente nas fontes da CULTURA! Ou seja, na SELETIVIDADE do que já melhor se fez, do como melhor já se viveu, etc., e NÃO DO MERO RETRATO DE COMO SE VIVE.

Do mesmo jeito que PLANTAR para ter fruto bom dá trabalho, sorver CULTURA também dá. Quem planta certo colhe se proteger o plantio dos ladrões do campo. E quem investe em si também colhe melhor existência e há de se proteger do escárnio, senão de outros ataques alheios também.

Defina o que mais te interessa em zona de produção do espírito e busca o que de melhor se produziu na humanidade e vai fundo, lembrando-se do agricultor que ara, irriga e protege à exaustão. Dialogar com os mortos é mais edificante que com os vivos. Deixa o contemporâneo nacional na vala dos ignorados. Sem chance de erro.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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