Vida Bem Sucedida x Vida Boa

Autor: Vicente do Prado Tolezano
18/12/2019

A relação entre “vida bem-sucedida” e “vida boa”, tirante exceções, é disjuntiva, ou seja, articulam-se entre si com “ou” das bifurcações e não com “e” das adições.

Sucesso é da categoria da relação, pois “depende” de “outros” para validar-lhe, seja por aplausos, reconhecimento ou mesmo temor. Bondade é categoria da substância, tendente do absoluto.

Estatisticamente, o problema mais comum das gentes é o “problema do outro”: ficar abaixo do outro, superar o outro, comparar-se com o outro, impressionar o outro, dominar o outro, proteger-se do outro e por aí vai.

Multidões não se importam de estar no fundo do poço desde que muitos outros também tenham lá caído, senão mais fundo ainda.

Para ser “mais” que o outro, pode valer até competição do “mais pior”. Na impossibilidade de ganhar na virtude que se ganhe no vício: o mais promíscuo, o mais negligente, o mais canalha, o mais ignorante, o mais fracassado, etc …

A disposição psicológica subjacente ao tema do “sucesso” é o orgulho, nem que seja orgulho, com profundidade de êxtase, e conforme dito, da própria miséria.

Eu sou X coisa e com muito orgulho”, é brado/refrão tão sistematicamente empregado pelas pessoas, que não se apercebem do quão miserável é ter orgulho, pois é negar a liberdade, ainda que seja por meio de afirmação nominal de (pseuda) força perante alguém.

Ou seja, ainda que fosse orgulho por algo bom, o aterramento a outro já implica fim de uma espontaneidade de liberdade.

Todo orgulho é orgulho de alguma ou várias “identidades”, mais falsas ou menos falsas, mas jamais propriamente verdadeira. Essa identidade pode se chamar ego, persona ou rótulo, a variar as preferências lexicais.

Sob rigor, este articulista “não é o Vicente Tolezano”, mas sim “se chama” Vicente Tolezano. Igualmente, “não é advogado”, mas “estudou direito e exerce a advocacia”. Toda identidade do articulista (política, familiar, futebolística, etc …) é uma relação de projeção difusa com o vicente-tolezano-que-é-efetivamente-quem-ele-é.

“Identidade”, cognitivamente, é conceito lógico, que presta justamente para co-relacionar conceitos entre si a partir de “projeções de movimentos ativos ou passivos” que se espera daquilo que foi conceituado desta ou daquela forma. Quem tiver interesse, que pesquise a “árvore de Porfírio”, que põe cada conceito “no seu lugar”.

Na dimensão gregária, “identidade” é projeção imagética de movimentos humanos mais ou menos esperados do sujeito vinculado a ela, co-relacionando esse sujeito com os demais sujeitos do mundo, mostrando o “lugar dele” para com os demais, ou seja, é PODER “projetado” e que quase nunca se realiza senão no êxtase ilusório interior do orgulhoso, também chamado de “jactância”.

O tal do empoderamento que tanto se está a falar sob os ventos do politicamente correto é só esse esquema de encher de orgulho alguém por vinculação a uma identidade, que pode ser outorgada por adesão a um grupo, a uma classe, a um título, a uma medalha, a uma condição, a um reconhecimento insincero a uma afirmação igualmente insincera de alguém sobre si mesmo.

O mundo social opera sob uma distribuição rixosa de pares de identidade-orgulhos, sendo que “sucesso” é quem vence/destaca ou finge que vence/destaca a rixa nos limites em que ela é posta. Na ponta oposta, do “fracasso”, a disposição psicológica é da “humilhação”, sensação de ter perdido para o “orgulhoso”.

As rixas podem ser entre sujeitos reais ou mesmo entre um sujeito real e outros existentes só em fantasia. Mas o papel da relação para com “outro” subsiste no ânimo movente, tantas vezes orientado a humilhar outras pessoas só imaginariamente e “para colocar cada um no seu lugar”.

É cruel que sequer o “vencedor” é sólido. São longe da raridade os casos públicos em que sucessos foram só abraços íntimos na angústia, pois, no cabo, quem tem sucesso não é uma pessoa, mas uma identidade/imagem dela.

Ou seja, riqueza material, ocupação de cargo de destaque, beleza superlativa, fama, etc … ou a maior canalhice, a maior promiscuidade ou mais viciado, etc … podem até “humilhar os outros”, efetiva ou imaginariamente, sem que outorgue efetiva bondade a quem por elas se identifica, senão na ilusão jactante.

Busílis central: “o outro não existe” como fonte de bondade, num esquema em que a centralidade da vida pela perspectiva do “outro” decorre de só medo de solidão e sentimento de impotência de bastar-se.

“Identidades”, nessa esteira, são só subterfúgios do processo dissociativo do Eu efetivo. Caso extremo foi de Narciso que tratou sua imagem não apenas como meio para impressionar ou se articular com outros, mas como se “o Eu dele fosse a imagem que ele criou e por quem se apaixonou”!

Na dimensão da “vida bem-sucedida” nada é o que parece ser e tal que todas as aparências de amor são só aparências mesmo, pois subjaz interesse orgulhoso.

A vida começa a ser boa na medida em que as “identidades” perdem viço cedendo vezes sucessiva à “personalidade”, processo que Carl Jung (1.875 – 1.961) chamou de individuação, Aristóteles (384 – 322 a.C.) de substancialização e a mística cristã chama de desmundanização, tirando sua centralidade do horizonte da alteridade para a verticalidade dum Eu não criado pelo Eu, mas descoberto pelo Eu, cuja fonte é metafísica.

O discernimento lúcido entre vida bem-sucedida e vida boa foi registrado expressamente por Aristóteles. Platão (429 – 348 a.C) esboçara o esquema numa metáfora em que a “vida de leões” equivaleria à vida de sucesso e a “vida de ave” à vida boa nos termos aristotélicos.

Toda personalidade é um mínimo de identidades, pois lhe é próprio não prestar contas aos outros sobre que expectativas, ilusórias ou razoáveis, esses devem ter. Logo, também é máximo de heterogeneidade e incompatível com senso de igualdade.

A única coisa efetivamente forte no mundo são as personalidades humanas, sendo o resto fogo morno ou fogo frio mesmo. Só quem, por opção íntima, está “morto para os outros” é livre e pode fazer a coisa mais gratificante e corajosa do mundo que é AMAR, pois amar exige a “desvinculação do outro”.

Assim, amor é vereda ao absoluto e distante das coisas relacionais. O amoroso essencial não tem relações para com o amado, que é apenas o “beneficiário” daquele.

Se um amoroso efetivo oferta pérolas e o beneficiário as rejeita, estraga ou esnoba, recolhe-as e dá-lhes outro destino. Claro que alguma tristeza passageira tocar-lhe-á. Se, contudo, advier rancor, sentimentos de despeito ou de humilhação, etc …, era só orgulho que havia debaixo da superfície.

Vida boa é integrativa do Eu absoluto e diminui as diferenças entre o Eu na solidão e o Eu na multidão e que outorga ao Eu a melhor companhia que é ele mesmo, ligado apenas ao transcendental.

Machado de Assis (1.839 – 1.908) denunciou a infelicidade do negacionismo da personalidade humana no clássico A IGREJA DO DIABO em que até identidades maldosas e bem-sucedidas precisavam fazer alguma bondade nem que fosse clandestinamente.

Melanie Klein (1.882 – 1.960) apontou que “a saúde mental não é compatível com a superficialidade”. Nada, registramos nós, é mais superficial que imagens-identidades de si para se articular com imagens-identidades de outros.

Ama a Deus, a ti como filho Dele e a quem puder aceitar o teu amor. No mais, siga Fernando Pessoa (1.888 – 1.935) tal que qualquer “incógnita da tua identidade”, seja problema só dos outros mesmo:

“Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.”


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