Substantivo, Verbo e Vida Humana – Gramático-Moral

Autor: Vicente do Prado Tolezano

Substantivo é ser e verbo é ação do ser. Não existe verbo sem substantivo, pois não existe ação sem agente e, pois, nem predicado sem sujeito¹.

E é assim que é, mas não meramente porque é assim que dispôs a gramática normativa, mas porque assim é a própria estrutura ontológica da realidade.

Desde que os esforços racionais de compreensão da realidade começaram a ser registrados, já estão assentados os assertos de que “do nada, nada vem” e que “o agir segue o ser”.

Noutras palavras: “toda causa irradia efeitos” e “não há efeito sem causa”. Se se subverter isso, não mais há que se falar em “movimento” no mundo.

A linguagem é a simbolização do ser e, óbvio, há de haver paralelismo estrutural entre a estrutura da simbolização do ser e o ser propriamente. Aristóteles chamava isso de “isomorfia”.

Escapa a muitos, inclusive ditos “estudados” que a linguagem é absolutamente “uma função do movimento”. Aprendemos gramática com regras práticas para separar sujeito de predicado, mas amiúde até quem sabe bem separá-los não “capta” que o sujeito é CAUSA e o predicado EFEITO, ou seja, um plexo de mobilidade.

Sujeito é agente, o predicado, cujo núcleo se chama verbo, o efeito do agente. Fácil de entender em frases transitivas como “eu chutei a bola” e tal que a bola não seria “movida” sem o sujeito que a chutou. Sutil de se entender em verbos de ligação, como “bule é branco”, mas a frase que denota que o “efeito-branco” é dependente do sujeito bule, tal que se suprimir o bule, suprime-se “aquela brancura em particular”. A lógica causal e do movimento é tal que tirada a causa, tira-se o efeito!

Objetos são referência do fluxo de movimento, preposições são certa forma de direção/ângulos do movimento e por aí seguem, a seu modo cada um, todos os elementos gramaticais.

Não sem razão é que cabe justamente ao verbo (núcleo e menor unidade do predicado), não apenas a descrição da ação/efeito, também a denotação de tempo da ação, já que em termos muito acurados “o tempo propriamente não existe”.

 Desde a física e cosmologia antigas já se percebeu a inexistência ôntica do tempo, senão como conceito derivado do movimento, uma forma de “percepção de quantidade de movimento”.

Vamos dar um exemplo: em termos rigorosos é um absurdo dizer que “a Terra gasta 24 horas para dar a volta sobre seu eixo”; o correto seria dizer “convencionam-se 24 horas a rotação da Terra”.

Fica claro que a primazia sobre o tempo vem do movimento e que, falar em desacordo com a realidade, obviamente, não a altera, mas obnubila nossa sensibilidade perceptiva e imaginária.

A atenção em falar muito corretamente frutifica não só a qualidade da comunicação humana, mas a qualidade cognitiva do falante, que perceberá mais, dando início a um processo de maior absorção/nutrição das sensações, sentimentos, afetos, dados, informações, etc…, que são condição sine qua non para ulterior síntese intelectiva conceitual.

Tal como tudo na realidade é movimento, a existência humana não poderia ser exceção. O processo de nutrição e síntese retro informado, por sua vez, é ordenante do movimento da existência humana, o que nos tira do caos a retas ações.

A gramática é disciplina de ordenação da sensibilidade humana, coisa já sabida desde a Antiguidade e que demonstra que em muitos particulares a contemporaneidade é um “despencar no abismo do obscurantismo”, já que prega o fim da gramática como normatividade para instrumentação meramente “comunicacional” ou, pior ainda, uma técnica/norma para a fala/escrita em “uso culto”.

De forma bem analisada, o barbarismo para com a gramática decorre de uma miserável cosmovisão contemporânea, qual seja, a de que “o homem é filho do meio”. Um antigo e um medieval ririam disso, pois sua cosmovisão era a de que “o homem é filho do cosmos ou de Deus” e tal que para eles a dimensão comunicativa da linguagem seria secundária e a primária, claro, cuidava da tonificação da sensibilidade em perceber, entender e unir-se aos movimentos cósmicos ou divinos.

Vários autores especializados já denunciaram esse movimento empobrecedor. Rummelsburg é conciso e preciso: “Esta compreensão completa da gramática tem sido abandonada há muito tempo. A gramática sofreu o mesmo destino que a teologia e a filosofia nesta era reducionista. A gramática foi cortada de suas raízes transcendentes e filosóficas. A gramática deve incorporar as regras para a estrutura da linguagem, que pretende refletir a estrutura hierárquica do Cosmos” (Steven Jonathan Rummelsburg, The Death of Grammar & The End of Education).

Voltemos agora ao começo: não há verbo sem substantivo, já que aquele vem deste. Em conformidade ao “razoável”, substantivos “frágeis” só “verbam” (com a permissão do neologismo) fragilidades. Nós, humanos, somos substantivos (precisamente, substâncias). É densidade desta substancialidade que determina nossos predicados/efeitos/movimentos morais.

Quem não compreende sequer que a linguagem é função do movimento, menos ainda compreenderá que a vida humana é também função de movimento. Poderá, nesses casos, – e tal se dá amiúde – usar da linguagem para tentar se “estatizar”, “girar em falso”, “mentir” etc.

Seguramente, a vastíssima maior parte de tudo o que se “comunica”, se não é sem sentido, é falso, seja pelo ânimo de mentir, seja pelas próprias restrições/incapacidades de percepção do real, de retenção de sensibilidades sobre o real, de fixação dos pensamentos sobre o real, etc…, enfim, porque as pessoas são porcamente gramaticalizadas e, portanto, quase um “não substantivo” gerando predicados erráticos.

Em termos precisos, corrupção é movimento de decaimento do ser. Corrupção moral se inicia, claro, em corrupção vernacular, com efeito de inanição existencial.

 

 

¹Não olvidamos que a gramática normativa da língua portuguesa estatui a figura do SUJEITO INEXISTENTE, mas tal é uma discrepância entre norma e realidade de referência. Esse tema será objeto de artigo específico aqui na Casa da Crítica.

 


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