O Respeito e o Medo de Ser Respeitado

Artigo de: Vicente do Prado Tolezano

 

Respeito numa só palavra quer dizer LIMITE, mais precisamente, num primeiro momento, “limite do outro”.

Nosso senso até umbilical com território é a gênese de um “território de respeito vital pessoal”, que as legislações tendem a reconhecer como “direito à intimidade”, no caso brasileiro até com dignidade constitucional.

O esquema é que países têm fronteiras e pessoas têm intimidade. Há países que invadem outros e há pessoas que invadem intimidade doutras.

Não invadir o outro é um problemão e até porque o outro pode nos invadir. A lógica bélica de que se deve invadir primeiro que aguardar a invasão pelo invadido tanto tem foros de razoabilidade quanto de projeção insidiosa.

O cume do problema, contudo, é querer ser invadido para passar a ter que repelir a invasão (ou ao mesmo dizer que a repele) ou dela lamuriar, coisa mais comum que cardumes no oceano.

Viver plenamente a intimidade é absolutamente o mesmo que ser livre, ou seja, ser o que pouquíssimos têm coragem de ser. No limite, intimidade é intimidade consigo! Isso quer dizer ainda “respeitar a si”!!! Imagina ter encontros exclusivos consigo.

Se o leitor conhece mais de dúzia de pessoas que tem intimidade consigo e que muito bem se respeitam deve, então, morar num lugar privilegiado contrário às regras estatísticas ou é ingênuo e não percebe que os brados por respeito, intimidade e liberdade são mais enfáticos quanto mais insinceros são.

Me desrespeita, por favor, pois eu não posso me bastar, mesmo que eu diga exatamente o contrário!!!” seria inúmeras vezes ouvido se as almas e os inconscientes fossem sonoros diretamente.

Expressiva parte das imputações de “indiferença” são desqualificações insidiosas para “respeito recebido”. Evidentemente que cuidam de conceitos distintos, mas de muita bagagem urge dispor para discerni-los bem.

A questão prática e bastante séria, contudo, é que se respeitas de forma plenamente legítima uma pessoa que se sente insignificante ela se sente impulsionada a te atacar (e ataca mesmo!).

No exercício da intimidade, afinal, ouvem-se silêncios que podem ser mais torturantes que embates com inimigos de ocasião sucessivamente fabricados.

“Faça exatamente o que você quer na sua zona íntima” é o terror de asserto de que multidões fogem valendo-se de mecanismos subterfugiosos e até mágicos sem limites. É a gênese do sado-masoquismo, a incapacidade de se respeitar e de receber respeito.

Ativistas políticos, fanáticos religiosos, sectários em geral, adolescentes malcriados, etc., são apenas alguns exemplos, entre miríades, de gente que vai odiar ser respeitada de forma sóbria para que exerçam sua pseudo intimidade.

É do Erich Fromm o asserto pujante, cortante, mas lúcido, dito para relações interpessoais em geral, mas que também se aplica intrasectariamente: “é sempre a incapacidade para suportar a solidão do eu individual que conduz ao impulso para entrar numa relação simbiótica com outrem. Isso deixa patente por que as tendências sádicas e masoquistas estão sempre combinadas entre si. Conquanto na superfície pareçam contraditórias, estão essencialmente implantadas na mesma necessidade básica. As pessoas não são sádicas ou masoquistas, porém ficam oscilando constantemente entre o lado ativo e o passivo do complexo simbiótico”.

Há mais de 25 anos, este articulista iniciava carreira empreendedora, verde de tudo no trato das questões interpessoais dos funcionários. Um saudoso empresário veterano, não erudito mas macaco velho nas coisas práticas, advertiu “tirando um ou outro caso, não respeita teus funcionários, só os bajula, pois aí é que dá certo”.

Este articulista repeliu o recado e até com ojeriza. No fluir do tempo, recebeu muitos, muitos mesmos, coices de burros devidamente respeitados e justamente porque foram devidamente respeitados até relembrar o recado dado, que era sim correto.

A captura da lógica da efetiva realidade humana demanda inteligência fina. Respeito de verdade mesmo, aqueles com R maiúsculo, quase ninguém quer, senão para “ficar dizendo que queria mas não tem”. Menos intimidade e mais bajulação, mas sem dizer isso, é o refrão da vida prática.

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