Idiotice e Imbecilidade, discernimentos necessários

Autor: Vicente do Prado Tolezano

Idiota e imbecil não são “em si” termos próprios de xingamento, ainda que, no mais das vezes, sejam empregados para afrontar mesmo.

Os termos denotam debilidades intelectuais graves, sendo o idiota pior que o imbecil, pois mais primária a faculdade intelectual que ele não elabora, que é a de perceber, sem embargo de que a imbecilidade, impossibilidade de interpretar, segue grave.

Reduzamos, em termos assaz largos, a 4 os degraus da inteligência, em direta associação aos degraus da atividade de leitura: 1) percepção; 2) compreensão; 3) interpretação; 4) retenção/assimilação. Não há como pular os degraus dessa escada. Só se chega ao degrau de cima superando o de baixo. O idiota estacionado no 1º e o imbecil no 2º degrau.

O idiota é aquele não vê, no sentido de que ele não percebe a objetividade exterior a ele mesmo, ou a percebe confusamente, com baixa nitidez entre o que seja um percepto ou uma projeção dele, senão ainda incorrendo em confusões entre o que seja apenas um “nome” do que seja “coisa”, ou do que seja um “fato” daquilo que é “de opinião”, etc …

O esquema do idiota, num certo sentido, é que o mundo seria ele e ele seria o mundo. A raiz etimológica grega “idios”, aliás, quer dizer “o mesmo”.

O idiota pode estar diante de uma coisa sem a perceber. Normalmente, há de se lhe falar várias vezes para que ele “perceba” que lhe estão falando e ainda mais várias vezes para “o que lhe estão falando”.

A percepção, vale destacar, é a recepção da realidade, a qual, para ser propriamente  cumprida há de ser um processo ativo/atento do recebedor, mas o idiota recebe-a passivamente (muitas vezes disperso) e por isso tantas insistências, repetições, reiterações, ênfases, etc … têm que lhe ser feitas.

Outra característica bem própria do idiota é achar que aquilo que ele não alcança (porque nunca fizera) necessariamente não existe. Os clássicos já tinham inventariado essa falácia sob o nome de argumentum ad ignorantum.

A estrutura do seu esquema é de que a ignorância sobre algo seria prova de que o algo não é ou nem tem como ser o caso.

Equivale a mais ou menos jogos assim: “A não faz sentido para mim e, então, não existe”. A prova, afinal, de que o idiota sempre se vale é ele mesmo! O inverso também será possível, tal como que a simples projeção dele garanta o fato. Por exemplo: “Eu me senti ofendido por Fulano, então ele me ofendeu”.

Olavo de Carvalho já asseverou que o idiota “é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez”.

Ao cabo sobre o idiota, a linguagem não lhe pode ter caráter de representação da realidade, mas de mero influenciador de emoções.

O imbecil, a sua vez, já subiu o degrau da percepção, pois ele percebe a alteridade, mas capta-a em níveis de superfície. Tem insegurança para penetrar mais fundo que a camada das aparências, o que lhe exigiria interpretar sentidos, mas ele se “pela” disso, razão porque fica estacionado no degrau da compreensão.

Vamos a um exemplo que elucida o imbecil e em cotejamento com o idiota: o cliente pede a um chapeiro para fazer um XBurger mas com uma bola de sorvete de morango em cima.

Se o chapeiro for idiota, ele provavelmente não fará nada, pois não lhe faz sentido o pedido (já que seguramente nunca fizera isso e tal que isso nem existiria no mundo …) e tenderá a permanecer apático/inerme ou até assustado.

Se for imbecil, tenderá a cumprir o pedido, pois, “na literalidade” ele entendeu o pedido, pouco importando que o pedido é manifestamente absurdo.

A etimologia latina de imbecil vem de “sem bastão”, como a denotar quem até entende algo, mas é fraco, desapoiado, não sabe mediar com as coisas, não fica de pé por si, é servil.

Uma pessoa razoavelmente inteligente, que já está no degrau 3, ou seja, que interpreta, teria 3 (senão várias mais) opções interpretativas claras diante do pedido esdrúxulo: 1) é uma ironia; 2) é um desrespeito ao próprio chapeiro; 3) é uma pessoa excêntrica.

Uma pessoa razoavelmente inteligente até eventualmente cumpriria o pedido, mas por um ato ativo de interpretar excentricidade do cliente, e não porque a “literalidade” da expressão valesse “por si”. Se interpretasse pela ironia, poderia dar uma boa gargalhada. Se pela ofensa, iria recusar o atendimento e de forma seca.

 O imbecil morre e mata pela literalidade. Afinal, ele não é “por si”, ele não interpreta porque interpretar exige decidir, caso em que ele passaria a ser por si. O seu esquema de debilidade consiste em submeter todo o “eu” dele na ordem, no comando, na instrução num esquema de dependência quase vital. Não raro, o imbecil assume ares circunspectos de sisudez orgulhosa de seu rigor para com a literalidade.

Deverá haver muitos leitores chocados já com a possível constatação de quantos idiotas e imbecis estão a seu redor. “Eles são muitos”, dizia o Nelson Rodrigues, o qual tinha discernimento fino sobre o sentido efetivo das palavras.

Noutro artigo, detalharemos os degraus 3 e 4, respectivamente dos inteligentes e dos proficientes

 


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