Desamor – Masoquismo Corporativo

Autor: Vicente do Prado Tolezano

Se imaginássemos um campeonato de lugares com mais masoquistas por metro quadrado, seguramente imaginaríamos o dito “mundo corporativo” com o troféu de campeão.

Toda tristeza (emoção que indica perda) é muito mais nefasta quando é prazerosa (emoção que indica presença, mas fugidia). Mutatis mutandis, todos falsos amores ou amizades são piores que ódios ou inimizades claras, todo veneno adoçado é pior que os azedos e por aí vão miríades de exemplos possíveis de divórcio entre aparência e realidade.

A estrutura do masoquismo é de “perda de si” obnubilada com alguma migalha prazerosa (totalmente imaginária, às vezes). Os masoquistas têm uma capacidade imensa de romantizar/idealizar/subterfugiar suas misérias e, muitas vezes, tratam até como uma missão sagrada o atendimento aos sádicos.

A própria afirmação de que “sou oprimido” pode ter forte conotação glamourosa. “Cadê meu opressor querido?” é o mantra ressonante intra mentis dos masoquistas. Se acontecer de não acharem um opressor, inventam-no.

O mundo corporativo não lhes é, precisamente, sequer casa, mas LAR para chamar de seu, cujos moradores chamam-se “colaboradores”.

A personagem Carlitos, interpretada pelo mestre Charles Chaplin, no “Tempos Modernos” (1936) garantiu assento no rol dos clássicos pela fidedignidade da denúncia da vida laboral “agressiva, não criadora/estéril e conformativa” que chegava nos primórdios capitalistas e com vontade de ficar.

As condições ambientais de tom cinza chumbo, de amontoados de gente, o tratamento agressivo-bruto, quase “a vara”, e bem com os próprios COLAPSOS NERVOSOS eram explícitos e a tristeza do operário não era vinculada a prazeres, mas bem ao reverso. O jogo de “me engana que eu gosto” era difícil de ser jogado.

Muito mais fácil identificar predomínio de SOFRIMENTO SACRIFICIAL naqueles contextos de “tempos modernos” que nas corporações desta contemporaneidade de “tempos líquidos”, cujo predomínio, conforme nossa tese, é de MASOQUISTAS.

Sujeição a situações agressivas, castradoras, humilhantes, etc… de trabalho pode ser demasiado louvável em condições absolutamente OBJETIVAS em que TERCEIROS dependam essencialmente dos frutos dessa sujeição e tanto que não exista, efetivamente, outros meios de trabalho mais saudáveis disponíveis.

O sacrifício acima se chama AMOR, o qual sempre é OBJETIVO e a TERCEIROS tem vistas.

Tristezas – mais frequentemente desprazeres – sacrificiais têm condão de lastrear estado de FELICIDADE, próprio dos amorosos. Aliás, FELIZ (e forte) é só e só “aquele cuja personalidade é doadora”, nem a doação seja o seu sacrifício, por vezes mais valioso que se fossem bens materiais.

O contexto denunciado pelo “Tempos Modernos” é de exploração/desumanidade contra os laboristas, mas num contexto de sacrifício/esforço destes, de regra provedores de família, situação pela qual se deploram as condições, mas se as “entende”. Mais ainda, o foco era aos laboristas de piso, proletários propriamente.

O mundo corporativo, desta contemporaneidade não apenas moderna, mas também líquida, não purgou aquelas mazelas da vida laboral “agressiva, não criadora/estéril e conformativa”. Ao reverso, as incrementou com muita eficácia, trocando a vara pela bajulação rasa. Noutras palavras: pôs mais mel no veneno para que as tristezas tenham prazeres associados.

A linguagem corporativa não é rude na forma, pois docilmente se curva ao politicamente correto e até por isso mesmo agride é na semântica cínica. Toda bajulação (de cargo, status, título, estrangeirismos, possibilidades de consumo e empáfias mil) nutre muito bem o jogo de “me engana (que sou querido e empoderado) que eu gosto” sob uma fingida amenidade linguística.

Aldous Huxley (1894-1963) em seu “Admirável Mundo Novo” já indicava o esquema do colaborador: bem alimentado, bem trajado, sexualmente satisfeito e, contudo, sem personalidade, sem qualquer contato com seus semelhantes a não ser o mais superficial. Ou seja, o véu é tal que o colaborador pode – e amiúde é o caso – transferir para a corporação os seus afetos! O novo canto das sereias é o tal do ENDOMARKETING.

É próprio de obtusos confundir algum prazer com felicidade ou tratar prazer como prova da ausência de tristeza, quando normalmente o oposto é o caso (vidas tristes é que são pedintes de prazer).

Regra que quase nunca falha é a que diz que quando alguém se convence de falsos valores (vanitas – vaidade), torna-se orgulhoso. Os colaboradores bradam orgulho de suas misérias, particularmente os workaholic! Não nos constam, por sua vez, notícias de que os operários do primórdio fossem orgulhosos.

Queres ver gente estudada (advogados, médicos, engenheiros, psicólogos etc…) esterilizada? Ponha-os na corporação. Vão “desaprender suas ciências” e substitui-las-ão por procedimentos internos – validando-os, aliás – e   até com autofagia de suas potências pessoais.

Lá, as justificativas de conformidade sempre gritam mais que os argumentos de razão. Rigorosamente, na corporação é lugar de funcionar e não de significar nem decidir, a despeito que gente estudada teria por fim único RESOLVER assuntos (com significação e decisão).

Na corporação, as “aparências de solução” bastam e tal que os nascimentos de personalidades são abortados, pois só resolver com significação e decisão é “produção propriamente dita”. Fora disso, tudo é posição defensiva das “gentes que não são”.

Poucas coisas garantem tanto a ruína d’almas como a COMPLIANCE, o moderno esquema de CONFORMIDADE que o mundo corporativo emprega e como tem gente que “gosta de ser conforme”, mesmo os estudados e por conta de uma difusa e falsa sensação de “pertencimento”.

São MASOQUISTAS, conformam-se ao invés de se formarem, com caríssima conta de não ser por si. Todo masoquista, por sua vez, é altamente EGOÍSTA, precisa da projeção adaptativa de EGO para a precária manutenção das relações inaceitáveis em si.

Todo o mundo corporativo e todo o mundo líquido de que faz parte, mormente nos extratos estudados, se funda em EGO puro. Todos que não vertem a constituição de sua personalidade, precisam das muletas egóicas e naturalmente se tornam egoístas, trazendo o ego ao centro.

Esse movimento não se verificava nos operários de primórdio, que sofriam em SACRIFÍCIO, mantida a clareza OBJETIVA da dureza.

O sofrimento desintegrativo de personalidade que a corporação fomenta sob véus de prazeres vãos e a que os masoquistas colaboradores se curvam tende crescentemente ao puro DESAMOR mesmo, pois já até se trata com naturalidade (senão louvor) os milhares que renunciam absoluta (ou parcialmente) a terceiros (família) para dedicação integral à carreira/corporação!!!

As gerações mais novas estão bombardeadas pela pré-disposição egoísta-masoquista-corporativa, sem se dar conta, em renúncias SUBJETIVAS do ser no sentido próprio.

A “formação de personalidade” e a  “universalidade do mandamento do amor” podem ser locuções até estranhas a eles, orientados à formação (instrução!) ao mercado corporativo, exigente mais de ortopedia castradora servil que de inteligência, e que confundem amor com o apenas “politicamente correto”, reafirmando as agressões semânticas.

A constatação de angústia de não ser pode tardar a chegar, mas chega, seja por depressão, seja por apatia, seja pelos colapsos nervosos como o de Carlitos, mas chega. Masoquismo é giro no vazio e o ser pede sucessiva substancialização.

Evidentemente que o esquema acima é simplista e que há gente dragada pelos ambientes corporativos por “sacrifício amoroso mesmo”. Essa gente precisa de muita RESERVA MENTAL para se preservar e deve estar em maior vulnerabilidade que o Carlitos esteve.

A maioria, contudo, gosta de jogar o jogo de me engana que eu gosto, sem qualquer reserva mental ou mesmo com crença na ilusão corporativa. Aliás, é próprio do masoquista insistir que o sádico, no fundo, gosta dele.

 


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