Abaixo do Amor: Camadas 4 e 5, dos Coitadinhos e dos Arrogantes

Autor: Vicente do Prado Tolezano

Todas as pessoas têm MOTIVOS e algumas têm também VONTADES. Só na medida em que a vontade aumenta é que os motivos diminuem e vice-versa.

Fica claro, pois, que o oposto de motivo é a vontade e não o “acaso”, o qual, tomado na acepção comum (algo sem motive), não existe. Em sentido muito acurado, “acaso” só pode denotar “não apreensão dos motivos”, o que não quer dizer que não existam.

Vem do filósofo Olavo de Carvalho a célebre “teoria das 12 camadas da personalidade”, a qual pode ser tratada como “dos níveis de motivos, vontades ou sofrimentos”. O elemento mais substancioso de uma personalidade há de ser justamente “o porquê do seu movimento/sofrimento”.

Nessa escala de 1 a 12, a vontade propriamente dita só surge na camada 8, camada que é a da cristalização do AMOR (no sentido de DAR AMOR) no centro da personalidade.

Esse nível de maturação é condição de sanidade da vida adulta e tal que se não alcançado até a altura dos 35 – 40 anos, está-se diante de “subdesenvolvimento humano” (patologia ou perversão), o que sói ocorrer na vastíssima maior parte das vezes.

A tese de Carvalho se entrosa intimamente com as perspectivas de Erich Fromm de que só “o amor é a resposta existencial própria da vida” e mesmo de Aristóteles de que a substancialização humana decorre do alcance da capacidade de deliberar – vida ativa – e tal que tudo antes disso é mera animalidade ou servilismo.

Tudo o que se passa nas camadas infra 8 é dimensão de predomínio REATIVO/PROJETIVO, ou seja, reino dos “simples motivos”, com portas mais abertas ao inconsciente.

Ninguém nasce pronto para amar/deliberar. Natural o trânsito por todas as camadas de reação até que o alcance da 8. A sentença de insanidade decorre do “estacionamento” nalguma camada inferior para os marmanjões.

Destacamos muito a camada 4, porque é majoritária entre nós e revela a profundidade da metástase psíquica daqui.

Na camada 4, o centro da personalidade também está voltado ao tema do AMOR, mas no sentido reverso da camada 8, pois a motivação/sofrimento da camada 4 não orbita em torno da questão de amar, mas de “ser amado”.

Brasileiros “tremem nas bases” com a questão da rejeição, que pode ser projetada a partir de um “simples não gostar até imaginário”!

O temor-tremor-angústia-desespero-aflição de que pais, parentes, chefes, professores, colegas, vizinhos, partido, padre e tutti quanti não “gostem” do sujeito ou de alguma coisa dele é a tensão central da vida da maioria dos nossos contemporâneos.

Coletivamente, odiamos a “objetividade”. Ela, aliás, só começa a nascer a partir da camada 6, camada em que o tema central da personalidade é “ter algum resultado concreto”.

Se um chefe pergunta a um colaborador de camada 4 se um copo está sobre a mesa, este colaborador não responde positiva ou negativamente a partir de ver ou não ver o copo sobre a mesa, mas sim de uma “projeção sobre o que ele acha que o chefe quer ou não ouvir”.

O esquema acima não está adstrito a bóias-frias, peões de obra, proletários de piso etc… A maior parte dos advogados, afirmamos em testemunho (o articulista é advogado), funciona neste mesmo inferno-infernizante. A epidemia de subdesenvolvimento entre nós não é seletiva por critérios econômicos ou sócio-culturais.

Advogados estacionados na camada 4 são perigosíssimos. Sua métrica é a aprovação pelo Magistrado e, perfeitamente, podem manipular os interesses do cliente para “cair nas graças imaginárias dos magistrados”. Mais comum isso nos fóruns que peixe no oceano.

O poeta Ângelo Monteiro cunhou o termo “metafísica do chefe” sobre a dependência dos brasileiros de agradar/ser amado e a um ponto em que “se o chefe não existir, inventa-se um que aprova os atos do seu próprio inventor”, mas “nada desse terror-mor de ficar sem ser aprovado”!!!!

Esse temor-tremor-angústia-desespero-aflição vai, obviamente, para além das fronteiras meramente do mundo do trabalho e seguramente o leitor conhece exemplos na ordem dos milhares, sejam eles explícitos ou sutis.

A pessoa de camada 4 simplesmente não consegue vislumbrar experiências de mundo além da “tensão de ser amado-rejeitado” e subjetivizará quaisquer objetividades para tal dimensão.

Ela só se motiva/desmotiva, alegra/sofre dessa forma. Foi demitido? É porque o chefe “pegava no pé dele”. Foi reprovado? É porque o professor encasquetou com ele. O parente não aceitou o convite? Foi desfeita! O chefe elogiou? Então, ganhou as graças dele. E assim por diante …

A pessoa de camada 4 precisa de trabalhos muito rotineiros, altamente automatizados, pois qualquer pequena mudança na rotina, lhe instabiliza, voltando o pânico do não amor.

Erro grave para com alguém de camada 4 é tratá-lo com objetividade, já que não entende isso. Entende a ridicularização, meio eficaz para lhe tratar. Imagine uma cena de argumentação objetiva com um pré-adolescente e, depois, uma abordagem de ridicularização e compara qual funciona melhor.

A camada 4 é naturalmente própria ao pré-adolescente, pois lhe é natural ter problemas de confirmar se é ou não amado, particularmente nos seus âmbitos parentais e, em parte, familiares.

O estacionamento nessa camada das gentes marmanjas é revelador, a priori, de má síntese das dimensões parentais e familiares (do ninho), problema que nunca se resolve “por esquecimento ou subestimativa”.

Que o maior problema estrutual do Brasil é a composição histórica predominante por órfãos projetando/transferindo essa carência parental-familiar nas demais dimensões da vida, é tema já abordado noutros artigos da Casa da Crítica.

Enquanto a pessoa se mantiver presa na camada 4, sua própria vitalidade é muito diminuída e, logo, ela diminui a vitalidade ambiental com seu “coitadismo” explícito ou sutil, renovador sucessivo de uma orfandade não sintetizada, que só se interromperá com a assunção da autoparentalidade e autofamiliarização, nunca por projeção noutrem.

À camada 4, segue-se a 5, própria dos adolescentes, naturalmente mais ávidos em “convencer-se de seus poderes” de que convencer-se de que é amado. É passagem do coitadismo para a arrogância de autoafirmação.

Adolescentes têm forte orientação à vida social, emergência tônica da sexualidade, começam as considerações de status, prestígio e outras coisas próprias dos gregários “pós-ninho”, sendo o “poder próprio” até linguagem de sobrevivência na fauna diversificada da floresta.

As motivações da camada 5, ainda que baixas e reativas, são mais avançadas que as da 4. Nesse sentido, a mesma pergunta do chefe sobre se o copo está ou não sobre a mesa não é mais respondida pela perspectiva “do que o chefe vai gostar mais de mim”, mas pela perspectiva de se “ele acha que eu consigo/não consigo por o copo na mesa”.

Muitos marmanjões estacionam na camada 5 e seguramente o leitor reconhece vários exemplos disso, mas provavelmente “menos exemplos que da 4”, pois, com o perdão do trocadilho, “o funil segue afunilando”.

Há muitos advogados estacionados na camada. Arriscamos, aliás, que a maior parte dos advogados de muita fama está nessa camada e até porque fama é próprio dela. São perigosos aos clientes e podem não os servir, mas sim servir-se deles nas suas brigas, tantas vezes só imaginárias, com os Magistrados.

A pessoa de camada 5 acredita piamente que o mundo inteiro está lhe desafiando e que nada pode ser neutro a isso. Alguém elogia um terceiro e, por isso, a pessoa de camada 5 acha que foi comparado/rebaixado. Foi demitido? É porque o chefe tinha inveja dele. Foi aprovado nalguma coisa? É porque ficaram com medo dele. E por aí vai…

Eu também posso”, “claro que eu sei”, “quer que eu prove”, “tá achando o que?” são expressões reativas arrogantes comuníssimas dos camadas 5, sejam ditas ou guardadas intramentis.

Ciosos de sua beleza, atratividade sexual, sedutores em geral e demais espécies do gênero de narcisistas ou românticos costumam estar instalados na camada 5.

Igualmente péssimo tratá-las com objetividade. Entendem, contudo, a bajulação. Bajuladas, entregam as almas.

A superação da camada 5 é só por experiência de resolução real de problemas igualmente reais e sem que exista plateia para aplaudir. Ou seja, é o vislumbre do senso de responsabilidade, o qual, por sua vez, só se cristalizará na camada 6, que pede “alguns resultados concretos” descartando as ilusões mais grosseiras.

Mudam-se as camadas e daí as formas de subjetivizações do objetivo, de motivação/desmotivação, de alegria/sofrimento.

Alguém instalado numa camada consegue ver as motivações daqueles que estão situados em camadas abaixo, mas o reverso não é possível, ao menos até a camada 8, em que a pessoa pode “ter vontade de olhar para cima”.

Até a camada 7, que se centra no “papel social”, a pessoa não é plenamente pessoa (ativa), mas um ser reativo-ego-centrado e, pois, limitada a MOTIVOS que ela pode até pensar serem VONTADE, mas não são.

Só na camada 8 é que a pergunta “o copo está sobre a mesa” será respondida a partir da tensão “o copo está (ou não) sobre a mesa”.

Como as camadas 6 e 7 subjetivizam, por sua vez, essa pergunta será tema de artigo próximo.

 


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1 Comentário

  • roberto de souza barros kalili disse:

    Acreditar-se acima do embate, sentir-se um pouco maior, é uma forma polida de justificar a escravidão; o melhor vem do quanto você se dá, se entrega, mergulha na cachoeira dos eventos!

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