045 – Amorosidade, Promessas e Compromissos

045 – Amorosidade, Promessas e Compromissos

Autor: Vicente do Prado Tolezano 19/02/2019

Prometer é verbo transitivo, ou seja, promete transitar algo de alguém a alguém.

Comprometer-se é verbo pronominal, ou seja, tem caráter reflexivo de uma promessa do sujeito para consigo.  Obviamente comprometer-se até reclama objetos direto e indireto, mas seu cerne semântico é de âmbito intra-subjetivo.

Promessas pertencem ao mundo dos contratos, também chamado por mundo horizontal ou político, ou, ainda, zona egóica e de “interesses”. Na ampla maioria das vezes, as promessas são cumpridas “quando o cumprimento convém a quem prometeu”. No sentido reverso, quando o cumprimento não mais convier a quem prometeu, na vastíssima maioria das vezes, as promessas não serão cumpridas.

A expressão “interesse” vem de “entre (inter) os seres (esse)”. Prometer para cumprir, prometer para não cumprir, prometer para decidir depois o que se fará, crer na promessa recebida, não crer na promessa recebida, ficar cético quanto à tal promessa mesma, esperar promessa de alguém, não esperar promessa de alguém, dizer que crê em promessas em que não crê, dizer que não crê em promessas que sequer são verossímeis, etc …   são opções disponíveis e necessárias para transitar no mundo social.

Se não mais houver promessas, sequer as falsas, o mundo gregário-social desfaz-se em pó e o estado de guerra entre os “esses” irrompe-se de plano, senão mesmo o estado de colapso caótico pior que o de guerra. É próprio do humano ter um ou dois dedos dos pés no presente e oito ou nove deles sobre o fantasioso chão do futuro “de interesses”.

Queiramos ou não, somos, num sentido, promessa, prometemos o tempo todo, ainda que tacitamente e esperamos e posicionamo-nos em relação a promessas o tempo todo. Estamos no mundo, afinal.

Podemos, contudo, olhar para cima, ao mundo vertical, mesmo com os pés neste mundo do horizonte. Aliás, aí começam as possibilidades de vida boa, não de supressão nem fuga do horizonte, mas de seu vencimento por síntese elaborativa.

Uma vez no elevador vertical, automaticamente encurtam-se as ocupações em prometer, esperar e em receber promessas e a cada um andar que o elevador sobe aumentam as ocupações em COMPROMETIMENTOS em detrimento das promessas.

O comprometido é o que se comprometeu CONSIGO PARA alguém ou algo, mas independentemente deste alguém, o qual, pois, não é seu “sócio”, mas só o seu beneficiário. Por isso, se diz que “o comprometido é desinteressado”.

Pessoas podem, por exemplo, se comprometer com cônjuges que sequer conhecem e que serão eleitos após o comprometimento essencial intra-subjetivo em favor de alguém ainda desconhecido. Mutatis mutandis, o mesmo se dá em outras espécies de amor também. Na espécie de amor parental, isso é bem mais evidente. Empreendedores genuínos são densamente comprometidos com seus projetos cujos beneficiários, muitas vezes, são difusos. Não raro, têm comprometimento em criar obras sem sequer saber, de antemão, qual obra farão.

Para que não fique dúvida: as capacidades de amar e de empreender são características de COMPROMETIMENTO, nunca de promessas, pouco importando o quão solenes sejam essas ou quantas vezes sejam repetidas.

Pessoas comprometidas são raríssimas mas tudo e absolutamente tudo o que existe de sólido no mundo vem delas, pois, a rigor, a única e tão somente única força humana é a força do comprometimento auto gestado. Tudo o resto é fraqueza disfarçada de força.

Não tem jeito de ser diferente: quem promete muito se compromete pouco. A lógica exata, na perspectiva ativa, é que por não se comprometer, a pessoa precisa prometer e que a pessoa comprometida não precisa prometer.

Na perspectiva passiva, por sua vez, a lógica é tal que quem acredita muito em promessas é masoquista e retarda sua subida no elevador porque está aterrado no mundo dos interesses.

Promessas, mesmo nos casos em que o sistema jurídico as reconhece, valem muito pouco, senão para quase nada, queremos afirmar. Também queremos afirmar que comprometimento é praticamente tudo! Tomamos carona na dicção de Aristóteles (384 aC – 322 aC), que já dizia que “a lei é inútil aos maus e é desnecessária aos bons”. 

Saber separar promitentes de comprometidos é desafio árduo, sempre precário, demanda calejamento e, acima de tudo, demanda também já estar no elevador vertical, ao menos na altura dos primeiros andares.

 A raridade do comprometimento decorre do seu esquema dialético de que, no primeiro momento, ele é uma limitação auto imposta e que se só se tornará em abundância a posteriori. Ele começa com uma força/enfrentamento/morte contra si.

 O fraco – e até porque não costuma ter fidelidade – promete demais e até pode achar que “está realizando algo com o simples ato de prometer” e, logo, não vai realizar nada. Sedutores e sedutoras que se inculcam que flertar é amar pesam-se em giga milhares de toneladas, pois não aceitam limitar as suas cogitações. Ficarão cogitando e prometendo … Secarão em escassez até na pele num esquema de prometer sucessivamente que vão cumprir as promessas sucessivamente não cumpridas.

 O forte precisa se limitar e pagar, desde logo, a conta do “custo de oportunidade”, seja no amor íntimo, seja na atividade empreendedora/amorosa em geral. Só e só porque se limita é que ganha um “chão objetivo” e, pois, pode, a posteriori, verter a abundância, que é índice  própria do comprometimento.

 Nos ditos “tempos líquidos”, conforme o Bauman anotou “compromisso é opressão”. Ele tem toda razão na descrição social, tal comos as coisas estão na democrática distribuição da perversão/fraqueza. Quanto ao conteúdo do asserto, seu oposto é que é verdadeiro: compromisso, regramento autoimposto, é que é liberdade/força/felicidade/abundância e fora disso tudo é só promessa falsa.

 

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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