039 – (Des)Amor, Antes de enganar-te, engano a mim mesmo, dissociação de identidade

039 – (Des)Amor, Antes de enganar-te, engano a mim mesmo, dissociação de identidade.

Autor: Vicente do Prado Tolezano 02/10/2018

Tivesse a genialidade de DOSTOIÉVSKI (1821 – 1881) se limitado à criação da personagem RASKOLNIKOV, protagonista do clássico Crime e Castigo, seu assento no rol dos profundos conhecedores das sombras humanas estava garantido.

O romance se centra nos diálogos da consciência do protagonista que queria matar uma idosa agiota que lhe humilhava e precisava, pois, se fazer convencer de que tal ato era não apenas possível moralmente, mas até louvável.

A deformação deliberada da consciência, em um esforço subterfugioso prévio para abafar as vozes da reserva moral em um esquema em que estas, candidamente, pseudo acreditassem nas razões insinceras que outras vozes da mesma consciência contar-lhes-iam, era o mote central. Nem só parece, mas é estruturalmente igual ao tipo de gente que deliberadamente se embebeda/droga para fazer “merda” logo depois.

Se JÚLIO CESAR e NAPOLEÃO mataram tantos, inclusive inocentes, e foram homens louvados, porque logo ele, o RASKOLNIKOV, não poderia matar uma só pessoa, que era idosa e agiota, caso em que até com maior louvor se deveria agraciar. Por essa e outras vias ia o nosso protagonista deformando sua consciência para tentar se auto convencer do que sabia não ser convencível.

É muito raro alguém fazer MALDADES sem previamente SE AUTO-ENGANAR, como um drible prévio na própria consciência. “Não era eu”, é a escusa que ordinariamente o perverso dá quando é flagrado e justifica solenemente que “estava fora de si” quando fizera o ato.

Rigorosamente, o perverso está até correto na maioria das vezes em que dá tal escusa, só que ele se costuma a se afasta do aspecto de que fora ele próprio que deliberadamente deixara de ser a si para se substituir por um personagem, cuja tolice foi também por ele próprio engendrada…

O RASKOLNIKOV, o adúltero bêbado, o burocrata “inocente cumpridor de ordens” sem suspeitas, o gordo que esconde de si as embalagens das comidas porcas que comera, a namorada que fantasia consigo que seu namorado lhe trai para ela lhe trair, etc…, são farinhas do mesmíssimo saco diabólico.

“DIABO” tem raiz etimológica como “aquilo que divide”. A associação do termo com o maligno é evidente, já que, via de regra, a divisão da IDENTIDADE da pessoa é a antessala da sua MALDADE.

Toda identidade com esforço denso de sinceridade entrega sensação de preenchimento ou de uma fusão existencial. É uma forma de porta de entrada na transcendência, em um esquema em que se, se é o que se é, é-se mais do que se é, dada a “potência do ser, de ser mais ser”. Pode chamar isso de princípio da abundância.

Para que um ser abunde, tal como algo que se mova mais adiante, urge que ele seja ininterrupto como uma escada sem degraus faltantes ou que se quebram.

A cada vez que um ser deixa de ser o seu ser para ser ou viver como uma projeção de outro ser, ainda que criado por si, em certo sentido o ser originário já não é mais o mesmo, tal como a escada que tem degraus extraídos. O abaixamento é inevitável e a retomada da subida jamais prescinde de consertar/reparar/refazer os degraus.

Como provoca ANSIEDADE subir uma escada cujos degraus vão quebrando… A fumaça da ansiedade, aliás, costuma ser fiel indício do fogo do “jogo de identidades”. Imagina, sob outro giro, um ansioso subindo uma escada cujos degraus quebram-se e veja se seu comportamento não fará mais e mais degraus se quebrarem.

Há alguns psicopatas que escapam desse efeito de ansiedade, trocado por uma frieza extrema. Não é deles, contudo, que este artigo cuida.

O aforismo clássico de SÓCRATES (469 – 399 a.C.) “conhece-te a ti mesmo e conhecerá o universo e os deuses” já empilhava estoques imensos de saberes quanto à associação entre identidade e moralidade bem como entre a moralidade e a cognição.

A rigor, quando alguém altera/perverte sua identidade, ela está se esforçando (claro que em vão) para criar outro mundo, um mundo feito na medida para lhe servir, pois as coisas, valores ou circunstâncias deste outro mundo estariam dispostas a lhe assegurar o que quer fazer.

Veja que “fôssemos outros”, o mundo seria outro, já que é só nas cabeças vazias que há como haver vazios ou buracos no fluxo da identidade de si, mas a realidade/mundo jamais permite descontinuidade. Estamos no meio de um fluxo causal infinito antecedente e subsequente também.

Todo maldoso tem, ao cabo, muita pretensão de SOBERBA, ainda que o maldoso não tenha clareza desse aspecto, mas não se engane que ao menos uma “intuição difusa” sobre isso tudo ele tem.

Os maldosos podem não ser todos dolosos, mas que ao menos levianos o são sim. Aliás, normalmente a fase leviana é o começo da bola de neve que cresce até ficar dolosa. Quando, a seu turno, os maldosos negarem essa leviandade que lhes é própria, lembra-te de todo o esquema de que tratamos acima. A questão deles, mais que negar seus atos, é de negar suas identidades por enganos múltiplos que eles mesmos fazem contra eles mesmos e com contas amargas, contudo, a outrem.

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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