029 – As disciplinas do Trivium – Gramática, Retórica e Lógica – Sentidos Clássicos

029 – As Disciplinas do Trivium – Gramática, Retórica e Lógica – Sentidos Clássicos

Autor: Vicente do Prado Tolezano 23-01-2018

Ao contrário de um senso comum tantas vezes muito difundido, nem tudo o que vem depois é melhor do que o anterior que foi sucedido. No caso da educação, e relativamente ao Trivium Medieval, também conhecido por Trivium Clássico, isso é bastante manifesto.

A quem não sabe, o Trivium foi um sistema de educação propugnado por Santo Agostinho (354-430) e com fito de prover capacitação intelectual previamente necessária à adequada leitura das Escrituras Sagradas. Também provia o primeiro passo na escada da “Educação Liberal”, sistema esse cuja maturação seguiu na Idade Média em entrosamento com o movimento que se chamou por “escolástica”.

Suas disciplinas – ou “vias” eram 3 e donde o nome TRIVIUM, de três vias: Gramática, Retórica e Lógica.

Pelo seu cunho liberal (“para a liberdade de Ser”, não no sentido “econômico” do termo), não se cuidava de instrução/treinamento nas ditas disciplinas, tomadas elas como OBJETOS-FINS ou conteúdos a ser dominados mentalmente. Mas, cuidava de propiciar, através das DISCIPLINAS-MEIOS, assimilação da realidade-vivencial num esquema de enriquecimento existencial, num certo “sentido intransitivo” do SER, que busca a “ser mais e mais” por “ser mais e mais”.

Cabe neste artigo não a exposição de lineamentos concretos das disciplinas, mas seus objetivos e vieses propostos para SUBLINHAR de forma vivaz a miséria do que hoje se chama educação, não orientada ao SER, mas, quando muito, orientada a uma “posse de conhecimentos”, sendo que, não raro, nem essa dimensão se logra com eficácia.

Gramática, tal como se entende contemporaneamente, é o estudo normativo da língua, ou ainda, o estudo da “norma culta da língua para saber escrever direito”. Muito frequente, inclusive, verifica-se certo desprezo por essa dimensão vernacular-normativa, vista como “elitista” ou pedante. Afinal, no reino dos pedagogos de hoje, goza de primazia a ideia de que a “língua é para comunicar” e tal que se a comunicação se realiza, já terá o educador alcançado seu propósito.

Como os objetivos, desde a partida, são bastante pobres, os resultados a que se chegam estão em patamares miseráveis, tal como um contingente de 50% da população universitária ser ANALFABETA FUNCIONAL e que “comunica-se”, em níveis brutos, grosseiros, polívocos, vazios não só de rigor, mas mesmo de discernimento mínimo, tal que nem a meta medíocre – de apenas comunicar – é cumprida. Verifica que quase ninguém no nosso redor consegue alcançar patamares de “objetividade”.

É evidente que há de haver capacidade de se comunicar e que isto é muito valioso, mas segue “pobre” ante aos sentidos efetivos do ensino da Gramática na acepção clássica, os quais dariam conta tranquila da capacitação à comunicação “como consequência” inexorável dos próprios efetivos.

Cabe informar, pois, que o sentido clássico do Trivium, gramática era, primeiro, a ciência do desenvolvimento da PERCEPÇÃO/SENSIBILIDADE, ou seja, de afinamento dos sentidos para com os “fatos do “mundo e da interioridade”. Após, e assumindo uma capacidade perceptiva efetiva, a gramática se debruça sobre o IMAGINÁRIO humano, vertendo oceanos de possibilidades da alma. Na esteira, será o estoque imaginário que vai dar tônus à boa formação CONCEITUAL, abrindo as portas da escada da intelectualização.

A gramaticalização efetiva de alguém é, bem de ver e no sentido clássico de que muito se perdeu, MUITO MAIS que a atividade de “comunicação” ou de “expressão em conformidade normativa”; ela está associada a uma “função existencial”, de ordenação da “EXISTÊNCIA CONSCIENTE”. O desgramaticalizado EXISTE MENOS como SER. Pode-se dizer que a tendência do gramaticalizado é ser “INTEGRADO”. A gramaticalização também tem umbilical relação com o transcendental da BELEZA. O cultivo do estético e a da gramática ou da gramática e do estético são inseparáveis. Este aspecto é muito profundo e será objeto de artigos futuros. Por ora, basta constatar que a pobreza de formação gramatical por que passamos está de mãos dadas com o incremento da FEIÚRA por que também passamos.

Com respeito à disciplina da lógica, atualmente se lhe entende como a ciência dos raciocínios, o que tem eco de correção. Aliás, vivemos em época, num sentido, bastante racionalista. A correção do eco, contudo, não lhe garante completude.

O sentido clássico de formação em lógica vai além da “lógica formal de raciocínios” e integrava a DIALÉTICA no sentido amplo do termo, que vai além das meras “regras de debate”, mas alcança a perspectiva dinâmica da realidade e afina a INTUIÇÃO INTELECTUAL.

Razão e inteligência não são absolutamente a mesma coisa e é perfeitamente possível ser RACIONAL e ESTÚPIDO/TOLO (para não se dizer B…). O próprio ANALFABETO FUNCIONAL até “racionaliza”, mas “não intelige”. Se não gramaticalizado, tal como nossos comentários anteriores, sua intelectualização “não frutifica” e pode até ser pior, pois alguém pode “operar como computador ou calculadora” que conta, mas não interpreta nem “capta” conceitos.

A lógica, ao cabo, é disciplina dos DISCERNIMENTOS, com devido fomento da INTUIÇÃO INTELECTUAL, tal como MAIS FOCO DE LUZ na realidade. A retórica é atividade muito mal vista correntemente por que dela estamos infestados, mas da MÁ RETÓRICA, hoje, vista como “prática de persuadir, enganar, etc…”.

A retórica no seu sentido clássico, contudo, consiste na EDUCAÇÃO DA VONTADE, na educação da eleição do bem em detrimento do ruim, o que já assume percepção/objetividade fecundadas na gramaticalização, maturadas na razão/entendimento/avaliação no plano da lógica, pois a retórica era a arte tanto mais complexa quanto mais difícil do Trivium.

Óbvio que na retórica antiga se estudava a persuasão, mas o fito central não é o ato de persuadir em si, mas a atenção à disposição emocional e volitiva humanas, como uma educação da VONTADE que, educada aos bons objetos e por bons meios, se volta à HARMONIA. Lembre-se que as artes eram vistas na perspectiva LIBERAL e, pois, a AUTO-RETÓRICA era o fito maior.

Apresentadas as disciplinas no seu sentido clássico, evidencia-se que INTEGRAÇÃO – LUZ – HARMONIA eram as perspectivas VIVENCIAIS da Educação Liberal. O que veio depois “nem integra”! A máxima é que SER/VIVER é sempre mais que CONHECER. Hoje, sequer conhecimento se outorga …

A reprodução do texto é livre, devendo ser citada a fonte e preservada a unidade do pensamento.

Vicente do Prado Tolezano é graduado em direito peça PUC/SP e Mestre em Filosofia pela Faculdade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, com investigação sobre a Metafísica de Aristóteles. É diretor da Casa da Crítica e da Tolezano Advogados.

Tem formações complementares diversas na área da Gestão, Psicanálise, Mediação, Filosofia Clinica, Lógica e Argumentação e outras sobre a Alma Humana.

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