O Problema Fundacional – ORFANDADE

Autor: Vicente do Prado Tolezano
12-08-2016

Estão longe de serem poucos os auditórios no Brasil que se ocupam de valsas, não só tolas, mas, mesmo bestiais. Tais como a que canta que “sexos, no sentido de masculino e feminino, não existiriam na natureza, mas são ditames puramente sociais”. Não só fica apagada a compreensão do MAIOR problema humano-social-natural brasileiro como, aliás, a própria sedução ao bestial é decorrência desse grave problema brasileiro, cujo nome é ORFANDADE.

Obviamente, não é da orfandade mortis causa de que falamos. Essa é menos cruel e menos vigente entre nós, que somos assolados pela ORFANDADE AFETIVA, praticada por pais (mais estes) e mães só “de corpo”, mas “desalmados” para com a prole. Coloquialmente, se fala dos “órfãos de pais vivos”.

Eu estou entre os que afirmam que é muito, mas muito simples mesmo, BEM EDUCAR qualquer ser humano. Basta-lhe dar PAI e MÃE. Todos os desenvolvimentos depois serão mera consequência natural e espontânea, obtidas com o mínimo de esforço e máximo de prazer. A recíproca, não é verdade.

Tão simples quanto tão cruel. É exatamente do SIMPLES, do NATURAL e do ÓBVIO que a maioria das pessoas está privada. A incursão em teorizações complexas sobre o simples, como relativização dos sexos, da natureza em geral, da espiritualidade, da sociedade, etc., servem para “distrair” do problema, mas não para resolvê-lo. Nada artificial solve a deficiência natural.

Aliás, são tantas as distrações, justamente porque não se aguenta a dor do problema. A opção de “desconstruir” a masculinidade e a família é movimento, ao cabo, da pressão da inveja e outros gêneros de ressentimento.

Presumivelmente, este texto será lido por uma parte bem minoritária do Brasil, a alfabetizada com proficiência razoável. Peço ao leitor que se pergunte com sinceridade: nos círculos sociais ao seu redor, quantas são as pessoas que gozam ou gozaram de RELAÇÃO PATERNA BOA, bem resolvida, edificante e com sincera admiração pelo seu pai?

Aposto as fichas na resposta em que o número é baixo. Normalmente, o PAI é um “conhecido”, no sentido de que se sabe dele, mas sem muita intimidade.

No Brasil profundo, contudo, para multidões analfabetas, pseudo e só funcionalmente alfabetizadas, o pai sequer tem status de conhecido, nem sequer pelo nome. Não achamos uma estatística consolidada nacional fiável sobre o assunto de taxa de certidões de nascimento SEM indicação do nome pai (provavelmente pela própria crueldade da informação).

Na nossa literatura, a denúncia desse flagelo já foi dada múltiplas vezes. A magistral denúncia vem da leitura fina do Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, sendo possível ler que toda a dinâmica do duelo, bem versus mal, é acomodação de paternidades deficientes.

Há dados fragmentados disponíveis e que outorgam justa ilação sobre o problema da paternidade: 5,5 milhões de alunos da rede pública, segundo o CNJ, 7% da população de São Paulo e 20% da população do Maranhão e de Goiânia! Algumas pastorais e serviços sociais religiosos chegam a indicar 1/3 de seus assistidos que sofrem com esta problemática.

Em todo caso, é uma multidão. Se fosse 1 (um caso, e não 1%), seria escandaloso por si. São tantas as aberrações com que convivemos que, o monstruoso, pode “parecer” normal.

Mas, nem só de “dar nome no registro” consiste a paternidade. Por igual, nem só de pagar pensão, nem só de matricular em escola, nem só de dar presente e etc.

Tão antigo quanto verdadeiro, que paternidade é FUNÇÃO afetiva que molda o ser na sua relação para com o mundo, quanto aos LIMITES. Dá-lhe a proteção dos LIMITES EM QUE DEVE ESTAR CONTIDO e dá lhe a força dos LIMITES QUE DEVE ULTRAPASSAR.

Exercer a paternidade é EXIGIR do filho, sua forja afetiva, quanto aos limites. Exigência por “encontro de almas”, a única que ensina pela educação da VONTADE do filho, para QUERER as justas medidas, mais que apenas objetivamente as cumprir. O acatamento, meramente objetivo, pode ser coisa provida por escola. O elemento subjetivo-volitivo é coisa de PAI mesmo, única e tão somente.

Conforme o psicólogo, Alberto Pereira Lima Filho, repisando um saber milenar: “a pior consequência de um sujeito crescer sem esse contorno masculino é ele desenvolver a crença de que ‘querer é poder’, e eu não conheço nada mais perigoso neste mundo do que essa ideia”. Uma paráfrase do próprio autor melhor elucida: “Filhos que ficam à mercê de suas vontades e seus próprios critérios se sentem, ao mesmo tempo, poderosos e perdidos”.

O “poderoso e perdido”, um tipo de “gelo berrando que é quente” ou “fogo berrando que é frio”, um tipo, ao cabo, de desajuste de amor próprio. Desajustados os afetos, segue desajustada a cognição, as atitudes e etc.

Quem goza de paternidade e maternidade neste país é MILIONÁRIO, no melhor sentido do termo, e quem não goza é POBRE, no pior sentido do termo. Tornou-se politicamente incorreto afirmar a riqueza do rico e a pobreza do pobre no Brasil. Da mesma forma, tornou-se politicamente correto menosprezar a riqueza e vangloriar a pobreza. Nada mais garantidor da permanência e incremento da pobreza!

A superação da desgraça, de não ter família funcional, é superável com muito esforço individual em atividade reflexiva funda, de maturação lenta e dolorosa, com avanços e retrocessos. Mas, alcançável, tanto quanto for realista e honesta a assunção da carência e vontade forte de a superar. Isso é ato absolutamente solitário. O entorno social só obsta essa libertação, aliás, inculca o menosprezo da paternidade.

Afirmo com toda tranquilidade: é raro alguém receber paternidade plena no Brasil, como é muito difícil ao pai exercer a paternidade plena por aqui também, tema que fica para outros artigos.

Quanto mais o indivíduo se permitir o falso atalho das ideologias de plantão, de negar beleza ao belo, bondade ao bom e verdade ao verdadeiro, ele nega exatamente a função paternal, que porventura não tenha recebido. Caber-lhe-ia se DAR então, que é a FORÇA no reconhecimento dos limites, das coisas externas que são como são (paciência), e FORÇA no alargamento dos limites, das coisas interiores que não são como podem ser (laboriosidade).

Ao cabo, pois: se fostes órfão, hás de reconhecer isto expressamente e dar a si próprio a modulação de paternidade. A outra opção é ficar relativizando se homem, mulher e família existem na natureza ou são coisas criadas em acidente artificial e esmolar a paternidade junto a ideólogos de gênero, feministas, gayzistas, socialistas, populistas e outros istas. Neste último caminho, ficarás mais órfão ainda.


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Um comentário

  1. Suzy disse:

    Verdade triste…com muitas consequências nefastas

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