Hino “dito a capela” é Hino a Babel

Autor: Vicente do Prado Tolezano
25-06-2016

Qual nascido ou criado em terras tupiniquins não se “toca” ao ouvir o hino nacional cantado a capela em estádios lotados, na antessala das partidas internacionais de futebol? Seguem-se ao hino, cantado a capela, brados variados, dentre os quais o clássico “sou brasileirooooo, com muito orgulhoooo…”.

À multidão, esse é o clímax da sensação dita de amor à pátria.

Isso, contudo, nos coloca diante um paradoxo evidente, pois “orgulho” é coisa que realmente não condiz com “amor”, pois faz parte da definição deste uma devoção “para com outrem” e aquele, ao reverso, é “para consigo”. Noutras palavras, um é “altruísta” e outro “egoísta”.

Veja-se que o oposto exato do “orgulho” é a “humildade”, que não só é o sentimento que condiz com o “amor”, mas como, inclusive, lhe é elemento constituinte sinequa non. Ou seja, “se não há humildade, não há amor” e “se há amor, há humildade”.

Vale trazer a definição lexical própria, tirada do Dicionário Houaiss e suficiente para ver o antagonismo de sentido designados pelos termos:

  • Orgulho: sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba, atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; vaidade, insolência.
  • Humildade: consciência das próprias limitações, modéstia, simplicidade, reverência ou respeito, acatamento, deferência, submissão.

Um outro giro pelo dicionário também nos conta um sinônimo que o termo “orgulho” pode ter, o da “soberba”.

Evidentemente, há uma zona lícita para predicar de muito severos os comentários “de falta de rigor quanto à semântica lexical”, pois se pode arguir que a “intenção” dos falantes do “orgulho” seja outra, tal qual a de estarem “felizes” pela nacionalidade verde-amarela.

Concedamos, pois, a esta ponderação, mas numa extensão de cabimento justo que não nulifica o ataque ao emprego pelo termo “orgulhoso”, mais ainda na medida em que este é combinado com a evocação de amor. Isto porque é coisa para lá de assentada, que a linguagem não se esgota em meramente “comunicar fatos do mundo” numa função de mera representação convencional destes, mas que todo ato linguístico também é uma “ação sobre o mundo” – a sua função performativa.

Por menor que possa ser o grau, toda e qualquer emissão de palavra emitida, no mínimo, “impacta a mente”, ainda que inconscientemente. Se não concordas, faça o exercício: veja qualquer coisa banal como, por exemplo, um poste. Diga-te: “estou com medo” e repita e repita e repita e, ao fim, constate se ao menos naquele momento considera realmente ter medo daquele poste.

O dano da imprecisão linguística, vagueza semântica ou equivocidade terminológica reside aí. Não é que a não assertividade e clareza impliquem apenas em se falar “bobagem”, mas é que o falar desse modo tem a potência de “abobar” o falante.

Assim, não é nenhum exagero que algum recitante de um mantra que traz expressão de “orgulho” e evocação de “amor”, passe realmente a achar que para amar algo tenha que justamente ter orgulho ou mesmo visão exaltada das qualidades da coisa amada, subvertendo in totum o amor, tal que a coisa não mais seria “amada pelo que ela precisamente é, mas pelo seu ideal pensado na cabeça do amante”.

Amas? Então conhece a coisa amada tal como ela é e valoriza-a pelo que ela precisamente é, e não mitigue este sentimento por conta das máculas que a coisa amada com certeza tem. Aliás, provarás muito mais teu amor quanto mais realista fores dos seus vícios. A concessão à primazia da realidade é o primeiro degrau da escada da humildade e, pois, também o é na escada do amor.

Quanto desamor não se camufla na adulação, que sempre é genitora ou filha do orgulho. Amar algo é muito distinto de “amar a sensação de pseudo-amar” esse algo. Aliás, doutro viés, é exatamente o amor para com a “sensação” própria que é orgulho.

É importante exemplificar. A recepção passiva auditiva da “copa das copas” gera prazer. A ideia da “copa das copas” é perfeita, até porque em si não tem concretude. Enamorar-se do ideal é, vejamos, enamorar-se da sua própria sensação de enamorar, mas “coisa amada mesmo não há”.

É tão evidente isso que se assim não fosse, a palavra “orgulho” não seria palatável, nem subliminarmente, a esses pseudo-amantes, como é o caso.

A humanidade já foi advertida dos perigos do “orgulho” coletivo disfarçado sob a “roupa de amor” pelo Mito Bíblico da “Torre de Babel”. Conta o Mito que os hebreus, ciosos das suas potências limitadas ante Deus, quiseram fazer uma torre para Lhe alcançar, ou seja, para muito além de suas possibilidades reais. Exaltaram-se “sobre si” e “para consigo” sob o subterfúgio cínico de “amar a Deus”. Por absurdo, queriam “mostrar a Deus” quem não são (e aliás, se auto enganar).

Deu no que deu. Como não tinha a verdade efetiva, mas fundada no “prazer de se jactar”, a Torre não subiu e só gerou cizânia e desgraça ao ponto de dividir os homens, no que lhes é muito próprio: a linguagem.

Mutatis mutantis, a “copa das copas” está mais para a “copa de babel”. Queremos mostrar ao mundo e a nós mesmos um Brasil tal como o Brasil precisamente não é, e as nossas pessoas com um amor à pátria tal como elas, efetivamente, não tem. Pois, as meras sensações não passam de orgulho egoísta e são prazerosas “pelas próprias sensações em si”. Que tirem, ao menos, o nome “capela” a esse culto longe de ser santo. Quando vier o amor, ele dispensa as exaltações e parafernálias adjacentes à hipocrisia.


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