Brasil Bebum por Orfandade

Autor: Vicente do Prado Tolezano
25-06-2016

O Brasil segue com o dilema de BÊBADOS. Ou posterga os efeitos do PORRE fugitivo da realidade com outro PORRE mais fugitivo ainda da realidade ou assume as contas doídas das merdas que já fez e tenta melhorar para frente.

O ingresso na bebedeira, via de regra, já é traço de COVARDIA ante à realidade própria. De forma que, a SAÍDA da bebedeira, antes do esgotamento fisiológico bruto, é sempre improvável, pois implica um quase paradoxo de demandar ato de CORAGEM a partir de COVARDES.

É muito urgente voltarmos a um tempo mais sábio, clássico grego, por exemplo, que corretamente associava a INTELIGÊNCIA como uma questão MORAL. No qual um esquema em que incapacidades cognitivas não tendem a serem restrições nas potências intelectuais em si, mas sim restrição na falta de CORAGEM de assumir-se como se é, com as contas e proveitos respectivos. É o tal do NEGACIONISMO, como se diz hoje.

Para aquela cultura clássica, e também com muito acerto, a posse ou ausência de discernimento moral (e, pois, de CORAGEM/FORTITUDE) é que é o elemento de discernimento entre ser ESCRAVO ou ser LIVRE, a primeira predicação do homem.

Na modernidade, a mesma denúncia, em termos essenciais, foi feita por José Ortega y Gasset, na descrição do seu “homem massa” no notável A REBELIÃO DAS MASSAS (1926), um clássico para ser lido não apenas para compreensão da sociedade, mas para nutrir, com muitas vitaminas, um AUTO-EXAME existencial. Não menor gozo da realidade, e bilhete firme ao espetáculo auto reflexivo, vêm da fruição do também clássico A CONDIÇÃO HUMANA (1958), em que HANNAH ARENDT disseca com maestria o “homenzinho-obediente-de-ordens”, para usar o termo dela própria.

Alguém questiona que somos nação de covardes, massificados e pessoinhas obediente-de-ordens? Até porque este texto é para atacar o negacionismo, a pergunta não é interrogativa, mas se presta a redundar a premissa de partida, coisa que o leitor atento há de dizer na ponta da língua.

Dada a premissa, a questão ser tratada nesse artigo é de onde vem este pendor covarde do brasileiro, (pseudo) solvido na cachaça e não na realidade? A resposta deve iluminar a questão e, claro, até reforçar a própria assertividade da premissa.

Minha resposta tem espeque nos antigos, atualizada não só por GASSET e HARENDT, mas pelo grande brasileiro, fundo conhecedor das nossas entranhas afetivas, GUIMARÃES ROSA, o delator-mor da nossa ORFANDADE generalizada.

É da natureza que, a mãe, dá AMOR INCONDICIONAL ao filho em um esquema em que, a deficiência da maternidade, implica quase sempre ADULTOS INSEGUROS, justamente por não ter o lastro firme, inquestionável, do amor “aconteça o que acontecer”.

É igualmente da natureza, que o pai dá AS FRONTEIRAS do mundo, fixando aquelas que são fronteiras justamente para ser ULTRAPASSADAS e as que são fronteiras justamente para CONTENÇÃO, em um esquema em que a deficiência da paternidade também concorre para a INSEGURANÇA pós-juvenil.

Algum leitor não está por acaso, ilhado ao redor de um OCEANO DE INSEGUROS, em praticamente todas as dimensões de sua vida social?

Após a resposta quanto ao EFEITO, pergunte-se também o leitor quanto à CAUSA proposta: estás ou não rodeado de pessoas pacientes de deficiências de maternidade ou paternidade ou mesmo ambas?

Não quero de forma alguma, nem aqui nem alhures, contribuir com psicologias baratas de VITIMISMO, de forma a justificar amplamente o homem por suas escolhas morais por conta dos legados viciados da origem.

Absolutamente ao reverso, uma das proposições a sustentar é que é DEVER MORAL, individual, ASSUMIR LUCIDAMENTE a qualidade efetiva das funções materna e paterna recebidas, em um sentido justamente para as SUPRIR POR SI no que couber, pois AMAR-SE, e IMPOR-SE e EXIGIR-SE limites é demanda humana, inafastável, que a CACHAÇA “só promete” atender, mas não atende e, mais, faz distanciar.

A outra proposição – óbvio – é pela valorização do natural, que se chama FAMÍLIA e tal que, tamanha é a perversão numa sociedade, quanto tamanha é a  desvalorização, à fórceps, que esta promove da natureza familiar.

Anelando o desenvolvimento com a partida: o leitor vê bebedeira generalizada no Brasil e também vê corrosão familiar? Se tiver alguma dúvida quanto ao vínculo direto das duas coisas, siga as pegadas do RESSENTIMENTO.

As expressões dos ressentidos – os chamados ismos – sexismo, racismo, fanatismo, regionalismo, ideologismo e tutti piu só respondem ao tema do sofrimento pela incapacidade do AMOR PRÓPRIO POR SI e GIRO ERRÁTICO nas fronteiras. Ou seja, aquelas coisas prêt-à-porter para órfãos.

O sofredor, contudo, tende ao EGOÍSMO e quer, a todo custo, ESPALHAR sua dor, ainda que sempre DISSIMULE esse agir.

Os duros ataques à família dos últimos tempos estão aí, retroalimentando a miséria. Quem goza da paternidade e maternidade é milionário no Brasil, de uma forma que não perderá sua riqueza na cachaça, ao menos voluntariamente, senão se levado pela horda de miseráveis ressentidos egoístas, que é o que está acontecendo, em um esquema de perde-perde.

Um conselho aos órfãos: ao limite, supra POR SI e PARA SI as deficiências de AMOR PRÓPRIO e LIMITES IMPOSTOS e EXIGIDOS, mas, por egoísmo e altruísmo, evita a cachaça, particularmente aquelas de alusão a 9 Dedos e/ou espécies Peçonhentas, pois é só CACHAÇA e só conduzirá ao dilema de assumir mais tarde as contas do porre ou tomar mais porre para fugir das contas do porre, tudo sucessiva e incrementalmente.

Ao cabo, como sói ser a inércia do mundo, APÓS O INDIVÍDUO COMEÇAR A AMAR-SE E COLOCAR-SE A EXIGIR LIMITES, até a natureza conspirará a seu favor. Antes disso, só os “donos de alambique” buscam essas almas.


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