29 Anos de Democracia Civil

Autor: Vicente do Prado Tolezano
25-06-2016

Puramente SATANIZAR a Ditadura Militar brasileira como um bloco homogêneo, representante de todo o mal gratuito do mundo, que atuava versus toda a BONDADE e VIRTUDES do mundo, e atribuir-lhe a responsabilidade pelas mazelas irradiadas até hoje, 29 anos após, é AUTOMATISMO comportamental e revelador da mais rasa capacidade intelectual, infantil, que só opera no dualismo maniqueísta do BEM x o MAL.

Atos satânicos houve na Ditadura quanto há na Democracia, tal que se fosse se utilizar desse critério para se satanizar regimes políticos, nenhum prestaria.

Característica muitas vezes esquecida nas formulações de juízos morais, é que, a noção de MORALIDADE só tem sentido, e alcance, em avaliação de situações absolutamente concretas e quanto a condutas individuais.

No mais, das vezes em que há ataques de cunho moral a GRUPOS ou COLETIVIDADES minimamente abstratas, o fenômeno predominante que se passa não é de censura alheia, racionalmente motivada em si, mas de autodefesa, como uma anestesia à auto culpa pelo fracasso existencial próprio.

Notem que, quanto mais maniqueísta pode ser um indivíduo, menos responsável ele é pela sua autodeterminação, e vice-versa. Façam o exame em seus círculos sociais e vejam que não fura!

A democracia brasileira nestes 29 anos de vigência, tirantes aspectos pontuais, não logrou prover façanhas aptas a humilhar a também medíocre ditadura. Padrões educacionais e respeito a direitos humanos – temas muito mais caríssimos à democracia – são PÍFIOS e em inércia de degradação. A governabilidade é hoje obtida, não por fechamento do congresso, mas por “mesada” para facilitar a consciência dos legisladores.

Aos democratas de plantão cabe prover soluções edificantes do futuro mais do que justificativas do passado. Na incapacidade, jogam a culpa no DIABO VERDE-OLIVA.

Tal se dá nos planos sociais, macro, micro, individual e etc.: CULPEMOS O DIABO PELA NÃO REALIZAÇÃO DIVINA, como se isso fosse possível. Veja-se o absurdo, ante a que em todas as concepções, o mal jamais é “por si”. Ele sempre será acidental e pela “ausência do bem”.

Afinal, as mulheres seriam todas pessoas plenas, irrestritamente satisfeitas se não fossem os diabólicos homens a lhes oprimir. Os gays igualmente estariam em patamar de formosura existencial, não houvesse as perversões dos héteros. Nenhum negro do mundo saberia o que são gotas de sofrimento, se não houvesse o jugo perverso dos brancos. Os pobres do planeta são todos filhos condenados pela cobiça voluptuosa dos capitalistas.  Os drogados, tadinhos, são todos filhos desgarrados ao acaso fortuito de uma sociedade que não lhes protegeu das garras malditas dos lobos traficantes. E olha que dava para ir muito longe no rol das “classes” largadas às intempéries brutas do mundo.

Não me parece excessivo compreender, então, que o DIABO está nas “classes”, que são muito mais diminuidoras do que ‘catapultadoras’ de homens, mulheres, gays, etc. (para se manter o “politicamente correto”).

Motivos para censurar criticamente a Ditadura Verde-Oliva são fáceis de achar e glamourosos de exibir. Motivos para explicar a inépcia da democracia atual também são fáceis de achar, mas embaraçosos em exibir. Motivos para explicar os fracassos individuais também são fáceis de achar, mas atiçadores da mais profunda CÓLERA aos fracos.

Os oponentes do regime passado, na data do cinquentenário do golpe irradiador, melhor evocação ao futuro que nos espera não poderiam fazer que não a apresentação de resultados incrementais sociais, econômicos, culturais, etc., que a democracia tivesse logrado obter. Mais ainda, poderiam apontar como o dito incremento da liberdade individual implicou o respectivo incremento também nas virtudes e iluminação individual e existencial dos brasileiros.

O que vemos se passar, contudo, é nenhum incremento e imputação de culpa ao DIABO.

Este artigo não tem, de forma alguma, o fito de glorificar a Ditatura Militar e tão pouco menosprezar valores democráticos por si, mas tem a pretensão precisa de evidenciar que a nossa dita democracia concreta, já adulta, precisa praticar VIRTUDES e exibir resultados ao invés de denunciar diabos, máxime quando ela mesma não dá elementos notáveis de diferenciação com aquilo que diz refutar.


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